terça-feira, 22 de abril de 2025

Dois cigarros, um café

 

Dois cigarros, um café

 

Diz a estante de livros:

“Ao fumar, ele não solta anéis que esvaeçam na direção do teto, ele tosse. Porque não sabe tragar, insiste. Fuma três maços por dia, e vive tossindo, vive para pigarrear. De fato, suas escapadelas não são para fumar, são para tossir sem se encabular. Muitos diriam que ele foge do trabalho, mesmo que esteja sadio para continuar, ele acende o cigarro. O que eles não sabem é que ele faz a mesma coisa em casa, sozinho, deitado em decúbito dorsal, a respiração produz uns ruídos que um dia haverão de matá-lo, porque as preocupações chegarão tarde. Até lá, ele fuma, vai fumando, segue tentando tragar e tosse, tosse, tanto ele tosse que muita gente acha que já tem um pé na cova. Embora tenha consciência do mal que faz a si próprio, não reduz os três maços. Sem pestanejar, mantém o vício que o está alquebrando. Na boca do caixa, quando está pagando pelo veneno, mesmo tossindo, não desiste dos seus três macinhos que muito o saciam, pelo tanto que o inebriam, pois fumar não é brincar de soltar anéis, porque o teto não sabe apreciá-los concêntricos e, por serem anéis de fumo, execrá-los.”

Diz o camarada:

“Deve ter algum engano. Por favor, me deixe em paz.”

Diz o quadro na parede:

“A água está doce. O problema é do seu paladar, não é da água. A sua percepção está alterada, pois as suas papilas gustativas sofreram mudança. Algo que não precisa de ser comprovado. A água é a mesma se bebida à noite ou ao levantar. Bebida em casa ou em lanchonete, a água não é diferente. Ainda que servida do filtro ou coletada da chuva, a água da cunha das mãos não deixa de ser a água do copo.”

Diz o camarada:

“Só pode ser engano. Por favor, vê se me esquece.”

Diz a infiltração a sete palmos do quadro:

“Ele vê o quadro. Não se levanta para vê-lo melhor. Esse marasmo não consola. Quando ele passa, nem corre o olhar. Não quer especular sobre a sobreposição do que esteja refletido no vidro sobre o que está pintado. Há essas duas peles, a do vidro e a da tela. Mas ele não para, precisa passar sem parar porque tem coisa mais importante pra cuidar, precisa dar conta de tanta coisa. O quadro fica sempre pendurado na parede. Lhe falta um segundo pra parar, pra olhar o quadro, pra escutar os traços. Talvez entendesse o que o desenho sugere. Talvez pudesse compreender o que é dito. Mas, no momento, o quadro na parede não é apenas um quadro na parede e a sala não é somente aquelas quatro paredes. Mas, o momento é de outro cigarro.”

Diz o camarada:

“Esqueça que existo. Por favor, pare.”

Diz a janela:

“Ele não percebe que beber café não barra a mudança. Se pusesse açúcar, isso o faria tomar menos café. Tomando menos café, faria que fumasse menos. Fumando menos e bebendo menos café, pra não virar outro caso da família, isso o faria marcar o cardiologista.”

A cortina da janela escancarada fala:

“Por favor, por favor, por favor.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de abril de 2025.

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