domingo, 27 de abril de 2025

Falando grosso

 

Falando grosso

 

Amiga, beijinhos.

Espero que você esteja bem. Caso não esteja, espero não agravar o seu estado. Espero que minhas palavras sejam um convite para que saia da cama, que elas funcionem do melhor modo possível, a façam abrir a janela, gostar do sol do outono. Espero que as minhas palavras cheguem a você como uma fruta boa de ser comida, que você a morda com vontade, não a morda com força, morda-a com fé, porque aprecia o que há de ser aprazível. Que minhas palavras sirvam para você como um analgésico potente, que lhe alivie a dor que é esforçar-se para sair da cama. Que elas não sejam nuvens, pois, mesmo que o sol seja de outono, espero que seja bom levantar-se, que consiga encarar a hora, que enfrente o seu corpo ao meio-dia. Porque agora pode mesmo ser meio-dia, quero as palavras certas como o sol do meio-dia.

Agora que deixou a cama, abriu a janela e sentiu a brisa no rosto, vá lavar-se, vá escovar os dentes, tire o bafo, livre-se do sarro de cada um dos cigarros que lhe tragaram outras vontades.

Sinta a lufada do refrigério; perceba a renovação do ar de sua casa; mantenha-se aberta como janela aberta; seja a janela que precisa ser pra que o ar permaneça renovando-se, refrigerando-a de suas neuras, dos seus pecadilhos, de seus deslizes que não são maiores que o seu desejo de ter um dia bom, um dia que a faça sentir-se com vontade de vivê-lo sem a necessidade de guardá-lo, preservá-lo de algum jeito, por meio de fotos, através de mensagens, debaixo de palavras que postará como se hoje devesse agir como gelo na canela escoriada.

Também sei me repreender por minhas distrações, mas ansiolíticos também anestesiam, também me deixam pronto pra encarar o dia, pra encarar-me enquanto o sol me testa, prova e desafia.

Apesar de desafiado, desafio-me a seguir desejoso do sol.

Amiga, acredito em você.

Sei que as minhas palavras podem fazê-la tirar os olhos do que está lendo. Olhe, enxergue-se no que lhe possa confortar. Conforte-se que haja algo que a alegre, que lhe agrade, pois há muita coisa que lhe dá prazer, faz você se sentir bem pelo prazer que percebe ao querer mais, e mais. Não negue a satisfação de enxergar-se em tudo o que faz, faça e toque em frente, esqueça tudo o que há pouco a sufocava.

Não quero que minhas palavras a sufoquem. Caso elas lhe sejam asfixiantes, supere-as.

Falo sério, é para sair pela vida.

Ontem, por exemplo, peguei a estrada. Um caminhão puxava a fila, segurava os carros. Percebi que o caminhão puxando a fila é o mesmo caminhão da semana passada.

Amiga, a pessoa que não se entristece com o mundo sabe ver sem véus, por isso me esforcei, tanto me esforcei que entendi. O caminhão da semana passada é o mesmo caminhão de ontem, pois o caminhão desafia, faz a gente entender que a vida é um jogo. Por isso escolho o jogo da razão, pois a razão diz que viver é não sair da fila.

Beijinhos, amiga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2025.


Nenhum comentário:

Postar um comentário