quinta-feira, 24 de abril de 2025

Tutti buona gente

 

Tutti buona gente

 

Eu comia uma maçã quando a vi. Ao lado da caçamba, exibindo um rabo de cavalo em vez das costumeiras carapinhas ensebadas, trajava calças e não a bermuda de praxe, havia tanto que a figura não aparecia de banho tomado. No beco, porém, Taborda continuava descalço.

Convidei, acenando, que viesse até minha casa, e ele veio.

Nem bem sentou-se, balançando-se, Taborda começou a assoviar, “sonho meu” para frente, “sonho meu” pra trás, “vai buscar” para frente, “quem mora longe” pra trás e, olhando para a rua, “sonho meu”.

Deixei-o nisso, que balançasse, assoviasse, sonhasse; com sonho bom indo e sonho bom vindo, assim desejoso que ele calçasse um dos coturnos que fui buscar, eu voltei.

― Seu Rodrigues, o senhor é uma boa pessoa.

Ele pegou o par usado.

― Justamente, Taborda, a ideia é essa, que o Seu Rodrigues é uma boa pessoa, pois ele torceu pra que você pegasse o par usado. E sabe por que ele torceu pra você escolher o coturno mais barato?

― O senhor pensa lá na frente, hein!

― Adivinhou, né? Pois ele se preocupa com você. O Seu Rodrigues sabe que se tivesse pegado o coturno novo, você faria mais grana.

― Seu Rodrigues, o senhor me comove com sua fraternidade, pois eu teria mais grana pra torrar lá com aquelas paradas.

― Taborda, você iria beber, fumar e cheirar, sabendo que o coturno extra estaria aqui chamando que você voltasse, viesse apoderar-se do produto novinho em folha.

― E o senhor, Seu Rodrigues, a sua boa pessoa continuaria aqui, rezando para eu fazer mais dinheiro com este produto novinho.

― Seu Rodrigues, Taborda, é uma boa pessoa e toda boa pessoa é gente de confiança, gente que não trai a esperança.

― Sim, Seu Rodrigues, creio que o senhor não faria o desplante de entregar o coturno à gente cobiçosa.

― Pois assim será, meu chapa, assim será.

Amarrando os cadarços de tal modo que o pescoço impediria de o coturno acabar perdido numa quebrada qualquer, Taborda disse:

― Pra não deixar fedido, nem vou calçar.

― Espere, espere. O Seu Rodrigues vai te arrumar uma sacolinha, assim ninguém terá a cobiça de roubar-lhe o objeto valioso.

― Obrigado, obrigadinho.

― Pra agilizar a coisa toda, por que você não vai de bicicleta? Olha ali aquela magrela dando sopa.

― Boa ideia, Seu Rodrigues, vou pedalando.

― Mas, atenção! Use, faça o que tem que fazer, mas não venda a bicicleta porque ela não é sua, viu?

― Não sou ladrão, Seu Rodrigues. Só vou usar para ganhar tempo. Depois, eu retornarei e porei o camelo no lugar.

― Para não complicar seu lado, Taborda, pegue esta corrente com cadeado pra quando você tornar a prendê-lo à lixeira.

― Lá vou eu, pois não tenho tempo a perder, e a hora é essa.

Mal o Taborda virou a esquina, Seu Rodrigues sentou-se na cadeira da varanda e, balançando-se, passou a assobiar: “mai tutti buone” para trás, “tutti buone” pra frente, “tutti buona” para trás e “gente” pra frente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de abril de 2025.

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