Encontro o sumido.
Nem somei que fossem quinze dias sem que
papeássemos; ele tem o número exato porque há uma quinzena sentiu uma agulhada
no lado esquerdo da cabeça.
A principal sequela daquela ferroada
foram as tonturas.
Desde então, tem tontura ao levantar-se,
percebe, mesmo deitado, o mundo girando, sente o medo medonho de cair sem sequer
se mexer pra se avaliar, deliberadamente.
Ao fim e ao cabo, o melhor foi manter-se
distante das provocações com que, a torto e a direito, a realidade lhe faz
ranger os dentes, calçar tênis sem cadarço e controlar ansiosamente os
resultados dos exames que a clínica geral e o cardiologista acharam por bem que
os fizesse, uma vez que, de qualquer jeito, teria de fazê-los.
Pelo lado bom, dispomos de uma quinzena
de opiniões represadas nestas nossas cacholas diuturnamente fertilizadas por
uma carrada de soberbos acontecimentos.
Escancararíamos as nossas bocas pra
escarrarmos cravos fétidos, crisântemos sórdidos ou girassóis repugnantes?
Para não nos apresentarmos tão cafonas,
o mundo existe.
Como imagem bem trabalhada desse veículo
ao universo civilizado, a digníssima estava pundonorosamente uniformizada, metodicamente
gentil, admiravelmente bela.
Para meu assombro, a jovem disse
bom-dia, perguntou se desejaria saborear o creme trufado que recheia o ovo de
Páscoa, cuja logomarca da empresa estampa encantadoramente a camiseta, e, mesmo
depois da negativa formalmente automática, tornou a dizer bom-dia.
Para não sermos bovinamente mecânicos, a
beleza sabe se postar como algo sagrado, escoiceante, um soco no estômago.
Como imagem bem modelada desse estado de
encantamento, eis a mulher bonita que me faz crer que a vida fica tão
maravilhosa, desde que eu ame chocolate.
Obrigado, não tenho filha nem namorada.
Obrigado, sou solteiro que não passa batom.
Mesmo que chocolate provoque bem-estar
que tende à felicidade, embora dispense cosméticos, muitíssimo obrigado por sugerir...
Lê-se na blusinha: CHOCOLATE É AMOR.
Pelo lado da maldade, se abusasse de
coisa que me enfurecesse, fizesse espumar, levasse a detonar relógio, espatifar
espelhos, destruir poltronas, eu não desculparia, perdoaria, nem clamaria por
anistia.
Amo chocolate, e respeito o poder de
sedução de quem tenta me convencer, mas, mocinha boa de lábia, não induzirei
alérgicos a passar batom do que seja.
De modo cristalino: é tranquilo dizer
que, nem em Brasília nem aqui, eu jamais batalhei por algum golpe de estado.
Poupe a garganta, ranrã pelo ar
terrivelmente condicionado da sala de tomografia, anuncio por nós, que você e
eu não vamos espernear, pois, Luisinho, naquele 08 de janeiro de 2023, nos esbaldávamos
com cerveja e picanha, uma vez que era aniversário do amado sete cordas, do canhoto
afinadíssimo, do nosso caro Aristeu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de abril de 2025.
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