quinta-feira, 3 de abril de 2025

Em defesa dos anunciantes

 

Em defesa dos anunciantes

 

Encontro o sumido.

Nem somei que fossem quinze dias sem que papeássemos; ele tem o número exato porque há uma quinzena sentiu uma agulhada no lado esquerdo da cabeça.

A principal sequela daquela ferroada foram as tonturas.

Desde então, tem tontura ao levantar-se, percebe, mesmo deitado, o mundo girando, sente o medo medonho de cair sem sequer se mexer pra se avaliar, deliberadamente.

Ao fim e ao cabo, o melhor foi manter-se distante das provocações com que, a torto e a direito, a realidade lhe faz ranger os dentes, calçar tênis sem cadarço e controlar ansiosamente os resultados dos exames que a clínica geral e o cardiologista acharam por bem que os fizesse, uma vez que, de qualquer jeito, teria de fazê-los.

Pelo lado bom, dispomos de uma quinzena de opiniões represadas nestas nossas cacholas diuturnamente fertilizadas por uma carrada de soberbos acontecimentos.

Escancararíamos as nossas bocas pra escarrarmos cravos fétidos, crisântemos sórdidos ou girassóis repugnantes?

Para não nos apresentarmos tão cafonas, o mundo existe.

Como imagem bem trabalhada desse veículo ao universo civilizado, a digníssima estava pundonorosamente uniformizada, metodicamente gentil, admiravelmente bela.

Para meu assombro, a jovem disse bom-dia, perguntou se desejaria saborear o creme trufado que recheia o ovo de Páscoa, cuja logomarca da empresa estampa encantadoramente a camiseta, e, mesmo depois da negativa formalmente automática, tornou a dizer bom-dia.

Para não sermos bovinamente mecânicos, a beleza sabe se postar como algo sagrado, escoiceante, um soco no estômago.

Como imagem bem modelada desse estado de encantamento, eis a mulher bonita que me faz crer que a vida fica tão maravilhosa, desde que eu ame chocolate.

Obrigado, não tenho filha nem namorada.

Obrigado, sou solteiro que não passa batom.

Mesmo que chocolate provoque bem-estar que tende à felicidade, embora dispense cosméticos, muitíssimo obrigado por sugerir...

Lê-se na blusinha: CHOCOLATE É AMOR.

Pelo lado da maldade, se abusasse de coisa que me enfurecesse, fizesse espumar, levasse a detonar relógio, espatifar espelhos, destruir poltronas, eu não desculparia, perdoaria, nem clamaria por anistia.

Amo chocolate, e respeito o poder de sedução de quem tenta me convencer, mas, mocinha boa de lábia, não induzirei alérgicos a passar batom do que seja.

De modo cristalino: é tranquilo dizer que, nem em Brasília nem aqui, eu jamais batalhei por algum golpe de estado.

Poupe a garganta, ranrã pelo ar terrivelmente condicionado da sala de tomografia, anuncio por nós, que você e eu não vamos espernear, pois, Luisinho, naquele 08 de janeiro de 2023, nos esbaldávamos com cerveja e picanha, uma vez que era aniversário do amado sete cordas, do canhoto afinadíssimo, do nosso caro Aristeu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2025.


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