Ontem não trabalhei e não ouvi críticas
pelo dia sem pegar do lápis para escrevinhar uma linhazinha que fosse.
Apesar de ter ido a médico, feito exame
ergométrico, aguardado os relatos sobre a consulta e a atuação na esteira, não gravei
o meu nome no coração petrificado pelas agonias do autoconhecimento nem pelejei
comigo para eu manter o fôlego da sobriedade.
Embriagou-me o riso, o riso natural em
quem tira sarro de tudo.
Mesmo que me censurassem pela
vagabundagem em pleno dia útil, passei o dia zombando, comparando, gargalhando.
Tanto zombei, comparei e gargalhei que o
caminhão do lixo veio e foi embora sem que os sacos da minha casa tomassem a
iniciativa de persuadirem a dar cabo daquele cheirinho.
Dona Cremilda, Luisinho e eu zanzamos
pelo vasto mundo que há entre São Roque e Ibiúna, o que bem nos divertiu,
contentou e fez rir, e rimos, rimos feito crianças, que fomos crianças
sexagenárias, essas que sabem ser, ai ai humildade, encantadoras.
Luisinho lembrou-se do garotinho no colo
da avó. Por certo foi num domingo que foi levado à casa da avó, uma casa tão calma.
Sem estardalhaço, em sintonia com olhos
azuis tão calmos, a lenha queimava.
E tanto era sereno esse olhar que o
arroz, a batata e o frango não tinham sal nem precisaram ser soprados pela
quentura.
Luisinho conheceu aquela calma e nunca
mais a encontrou. Ele se recorda bem da serenidade, daquele recanto afetuoso no
colo da avó, ainda que tenha sido abrigado naquele sossego quando não devia ter
mais que três ou quatro anos.
Dona Cremilda também devia ter menos que
cinco anos quando se escondeu na escada dos fundos na casa dos pais.
Mesmo com o pai chamando, gritando que
aparecesse, soube ficar quieta, soube ser capaz de domar-se, foi habilidosa ao dobrar-se
sobre si ― entre um degrau e outro, com testa e joelhos se tocando, era um feto
naquele vão, como os olhos do pai não eram ultrassônicos, estava invisível, ninguém
podia alcançá-la.
Dona Cremilda riu, uma vez que a sua
memória tinha dessas falhas, tinha fissuras por onde a imaginação extraía
pepitas e diamantes, pois aquela escada sempre fora fechada.
Depois de décadas, muito embora pudesse
reformá-la quando bem quisesse, coisíssima nenhuma que, entre um degrau e
outro, houvesse vãos na escada dos fundos da casa dos seus pais.
Feito cão que se esforça e não desiste apesar
do esforço, reconheci a mão que atira gravetos em vez de pedras, eu resolvi
contar qual era a minha mais remota recordação.
Eu devia ter uns três anos, porque eu
não tinha força suficiente para segurar a vara. Os meus avós maternos e a nossa
família fomos pescar na represa. Embora fosse num domingo, ou meu pai não viria
conosco, a babá que tomava conta de mim ajudou a tirar da água aquele bicho
cheio de patas. Abri um berreiro, pois o primeiro peixe que pesquei na vida não
era peixe, era caranguejo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de abril de 2025.
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