Dar uma volta, é domingo. Espraiar a
cabeça, nem ir fazer compras. Esquecer o corpo escangalhado, mas não abusar da
cabeça, sequer suspirar por uma passadinha no banco, pra torcer pelo azul do
extrato. Sem que a coxa ache de doer, abusar dos passos lentos. Sem suspirar
por um jogo bom na TV, ir por aí, levitando. Ir à feira, levitando, ir comer
pastel, sem vergonha, ir tomar refri gelado. Ir. Ir sem culpa, sem que o dente doa
por causa do refri gelado. Bom é intuir que o quadril tolerará o vagaroso da
caminhada, pois o corpo doer não tem nada a ver. Vagar ao léu das besteiragens,
sem temer pelo estado democrático de direito, pois domingo é dia de sujeitar-se
à cabeça, sem comandá-la. Se o ego boia a esmo, vai flutuando, segue indo de
papo furado em papo furado, isso é dar folga ao ego, e isso é bom.
Pois sim, camarada, de vez em quando é
bom tirar uma folga de si mesmo. Sim, gente boa, é supimpa aproveitar o dia,
tratar do que o dia indica que seja tratado. Tenha esse cuidado, simpatia,
adivinhe o quão maravilhoso é poder anistiar-se.
O melhor amigo do estado democrático de
direito é o democrata, só que não é um democrata qualquer, não é somente aquele
cidadão que pesa as consequências do que faz, não é apenas o eleitor que
escolhe quem há de representá-lo com dignidade, probidade e discernimento, é
pessoa que não confunde direita com destra, esquerdo com sinistro, o alto com elite,
o baixo com popular, benefício com a trapaça.
Então, só minta porque sente que
precisa, sem precisar.
Quando encontrar-se com aquele coitado
que foi ao dentista, finja que o condói o sofrimento, invente que é solidário, ainda
que ele fale que as injeções não amorteceram como deviam, sim, tem esse porém,
que o plano não cobre essa terceira dose necessária.
― Caraca! Tratar o canal sem a devida
anistia?
Camarada bom de cabeça até num domingo,
quando o tratamento não tem como acabar bem, nem que se queira que melhore de
algum jeito, diga que a coisa tá feia, diga ter esse desejo até sem vontade de
desejar, concorde que é normal ter enxaqueca que convém apagar a luz, virar de
lado, roncar que até pareça verdadezinha batuta.
― Caraca! Sexta-feira sem a tão esperada
anistia?
Tanto bate a enxaqueca que o amor não
resiste, pois água tem que correr solta ou tem que ser represada, segundo a
oportunidade.
― Putz! Água fria não faz gelo mais fácil
de ser anistiado.
Mas hoje é domingo, é dia de ir à missa,
é dia de confessar ao padre os pecados que traz na ponta da língua, é dia de
admitir que só pecou porque pecar faz bem pra mente, diminui o estresse e
facilita a obra de Deus, que é anistiar o devoto sincero que só mente para
livrar a própria cara, não a de outros pecadores e das demais pecadoras.
Todavia, não é inteligente pegar travessa
de mão única?
― Meia hora é 400,00; uma hora é mil.
Carambolas! Truco! Seis! Queira a
anistia completa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de abril de 2025.
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