quinta-feira, 17 de abril de 2025

História mal contada

 

História mal contada

 

O menino mau que dizia inverdades como se soubesse muito bem que soltava boatos que poderiam conspurcar o lídimo nome da família, mas, por haver maldade, o menino acusava de marcar lataria de carro o eterno bobão, que, em momento e lugar errados, sempre há de tomar pra si o mérito de avacalhações legitimamente degradantes.

Como o cronista não é menino mau que repassa o ônus a quaisquer incautos que, em momento e lugar apropriados, nem percebem o quanto sentimentos podem ser manipulados, esfrego a lâmpada.

Alladin, lustro-a com cuspe até que fique antipático bandear-se para o bando dos quarenta golpistas a saquear a caserna de Sésamo.

Gênio, não se atirem os melhores desejos pelas entrelinhas, porque nunca faltará quem conte e reconte as trinta moedas, beije o ombro de Pedro e, por último mas não de somenos importância, mande um salve à galera que sabe, como ninguém, o quanto viver é cabuloso.

A chave do tolo, meu bom José, é a história sendo remontada: com is subtraídos aos pingos, merluza salgada como bacalhau e convites pra festa quando há a obrigação de sentenciá-la transitada.

Embora o escriba escolha o deboche com uma pitada de fel, Alladin, Gênio e bom José, vocês não fujam da trama em tapete mágico.

Em 1969, meses antes de completar seis anos, ao guri deste causo veio aquele momento em que o banheiro se revelou o lugar certo para suas necessidades; sentado no vaso, ele urinou e defecou.

No ano em que o homem pisou na Lua, como ao garoto deste causo faltou papel depois de excretados os seus excrementos, ele foi pedir à professora que o ajudasse a se limpar.

No ano em que João Saldanha era o técnico da seleção, o canário deste causo achou de cantar com as calças arriadas, assim, provando que uma bunda de fora é impactante, seus colegas riram.

Como agente hilariante, este escrevinhador escolhe enveredar pelo riso, pois chorar faz a pessoa ficar cabisbaixa, além de seduzi-la a ficar deprê, até porque, por desfaçatez, isso é vendido como coisa de gente com neurônios empoderados, um bônus da modernidade.

Uma vez que este escriba detém o direito de usar o poder como lhe apraz, já que ainda acha graça naquele riso de 1969, este provinciano opta pela conveniência de não tomar cré por lé.

Quero crer que o auge de uma festa de aniversário seja o instante de fazer um pedido. Convicto de que o pedido será atendido desde que nenhuma velinha reste acesa, sopra-se de uma vez. Sabendo que falar atrapalha que aconteça, o aniversariante precisa calar-se sobre o que tenha desejado.

Como este narrador não sopra velinhas, resolvo temer o inferno.

E temo que as labaredas do fogo eterno lambam o lombo de gente que nem percebe o calor que suplica que vá arder na carcaça da gente que odeia e quer ver morta.

Todavia, é por arvorar-se armada perante o inimigo que a palavra vomitada volta pela goela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de abril de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário