O
respiro
Em Praia Grande, no Canto do Forte, na
rua de chão revirado, na varanda do apartamento, no lugar onde tenho vivido,
daqui presenciei aquilo que mexeu comigo. Tanto que, com licença a quem está
lendo, passo a contar o que me põe comovido.
Quiçá pela circunstância, que exige
cabeça arejada pra dar conta da análise sem distanciamento, a experiência provocou
uma emoção profunda em mim.
Com o processo de modificação em
andamento, não vou filosofar, pois posso acabar desvirtuando o medo que me
abarca, falando por falar... Pulo essa parte, porquanto não quero ficar com aquela
cara de tacho. Com tacho, menos pra raso, mais pra bobo.
Avante, atuante!
Quem entra em PG, vindo do Japuí, ou
da ponte do Mar Pequeno, tem à esquerda uma área verde, na qual se destaca o
Xixová. Há ali uma vegetação que encanta como cor, volume e vivacidade.
Voam de lá pra cá e daqui pra lá, variadas
espécies de aves.
Pelas bandas onde vivo, é usual ter maritacas
fazendo gritaria nas manhãs. Foram andorinhas, contudo, que me puseram besta.
Emocionado, sensibilizado pelo balé
daquele bando, que voava e revoava, com voltas, volutas e volteios, sem lógica
visível, sem regra compreensível, com a desenvoltura de quem se diverte, na
leveza de uma vida natural, exercitando o direito à liberdade.
Claro, traduzo aquilo como diversão,
leveza e liberdade por estar cativo do encantamento. Ao pé da letra, os
bichinhos voavam e só.
Se bem que acho muito sem sal nortear-se
apenas pela ciência. Cadê o toque do inútil mas belo? E a sensação da plenitude
embora efêmera? A percepção do instante como eterno?
O impacto está nisso, de estar: fora
de mim, dentro.
Tamanha sedução em episódio
corriqueiro, andorinhas voando em meio às construções de uma rua aquietada pela
quarentena.
Tocado. Por isso, salto no tempo.
Num fim de tarde na USP, no Vila Nilo,
no ônibus indo pro retorno mais à frente, logo depois do Hospital
Universitário, tem alguma coisa no ar. Algo em contraste com o sol
maravilhosamente avermelhado.
Ô diabo, como pude perceber aquele
cisco na amplidão do céu?
Só sei que gostei de ter visto. Foi um
choque, de fato. Lembro que apoiei a testa no vidro da janela do ônibus. E vi
melhor, reconheço.
Era animal pequeno, quase minúsculo,
de gestos soltos, abruptos, sem a elegância das curvas, numa coreografia
esquisita, nervosa, de asas a milhão. Um beija-flor.
Onde já se viu!
Com a pandemia comendo solta no
planeta, minha mente trabalha nisso, em se perder por aí, entre aquele dia
letivo nos anos 80 e este venerando domingo de abril praiagrandense.
E a danada vai, mas volta.
Um tanto perplexa com o que não
controla, pasmada comigo que não desvio pra outro canto, minha memória aviva aquela
algazarra de maritacas atacando à entrada do ninho das andorinhas no telhado lá
de casa, numa Ibiúna pela qual até meus outroras respiram.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de abril de 2020.
Achei incrível a forma que você brinca com as palavras, para falar da natureza e toda beleza que ela tem. Irei adorar ler mais textos sobre a natureza ❤
ResponderExcluirAmei o contexto geral abordado, tive algumas percepções que foram se moldando a medida que o eu lírico progredia com sua perspectiva para nós leitores. Obrigado pelo texto.
ResponderExcluir