quinta-feira, 30 de abril de 2020

O respiro


O respiro

Em Praia Grande, no Canto do Forte, na rua de chão revirado, na varanda do apartamento, no lugar onde tenho vivido, daqui presenciei aquilo que mexeu comigo. Tanto que, com licença a quem está lendo, passo a contar o que me põe comovido.
Quiçá pela circunstância, que exige cabeça arejada pra dar conta da análise sem distanciamento, a experiência provocou uma emoção profunda em mim.
Com o processo de modificação em andamento, não vou filosofar, pois posso acabar desvirtuando o medo que me abarca, falando por falar... Pulo essa parte, porquanto não quero ficar com aquela cara de tacho. Com tacho, menos pra raso, mais pra bobo.
Avante, atuante!
Quem entra em PG, vindo do Japuí, ou da ponte do Mar Pequeno, tem à esquerda uma área verde, na qual se destaca o Xixová. Há ali uma vegetação que encanta como cor, volume e vivacidade.
Voam de lá pra cá e daqui pra lá, variadas espécies de aves.
Pelas bandas onde vivo, é usual ter maritacas fazendo gritaria nas manhãs. Foram andorinhas, contudo, que me puseram besta.
Emocionado, sensibilizado pelo balé daquele bando, que voava e revoava, com voltas, volutas e volteios, sem lógica visível, sem regra compreensível, com a desenvoltura de quem se diverte, na leveza de uma vida natural, exercitando o direito à liberdade.
Claro, traduzo aquilo como diversão, leveza e liberdade por estar cativo do encantamento. Ao pé da letra, os bichinhos voavam e só.
Se bem que acho muito sem sal nortear-se apenas pela ciência. Cadê o toque do inútil mas belo? E a sensação da plenitude embora efêmera? A percepção do instante como eterno?
O impacto está nisso, de estar: fora de mim, dentro.
Tamanha sedução em episódio corriqueiro, andorinhas voando em meio às construções de uma rua aquietada pela quarentena.
Tocado. Por isso, salto no tempo.
Num fim de tarde na USP, no Vila Nilo, no ônibus indo pro retorno mais à frente, logo depois do Hospital Universitário, tem alguma coisa no ar. Algo em contraste com o sol maravilhosamente avermelhado.
Ô diabo, como pude perceber aquele cisco na amplidão do céu?
Só sei que gostei de ter visto. Foi um choque, de fato. Lembro que apoiei a testa no vidro da janela do ônibus. E vi melhor, reconheço.
Era animal pequeno, quase minúsculo, de gestos soltos, abruptos, sem a elegância das curvas, numa coreografia esquisita, nervosa, de asas a milhão. Um beija-flor.
Onde já se viu!
Com a pandemia comendo solta no planeta, minha mente trabalha nisso, em se perder por aí, entre aquele dia letivo nos anos 80 e este venerando domingo de abril praiagrandense.
E a danada vai, mas volta.
Um tanto perplexa com o que não controla, pasmada comigo que não desvio pra outro canto, minha memória aviva aquela algazarra de maritacas atacando à entrada do ninho das andorinhas no telhado lá de casa, numa Ibiúna pela qual até meus outroras respiram.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de abril de 2020.

2 comentários:

  1. Achei incrível a forma que você brinca com as palavras, para falar da natureza e toda beleza que ela tem. Irei adorar ler mais textos sobre a natureza ❤

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  2. Amei o contexto geral abordado, tive algumas percepções que foram se moldando a medida que o eu lírico progredia com sua perspectiva para nós leitores. Obrigado pelo texto.

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