domingo, 19 de agosto de 2018


sessão do cinematógrafo


entendimentos? a tarde venta,
o azul concorda;
a camaradagem? a pipa desalinha
o tempo pros meninos.
fotograma dos parceiros ─ a camisa amarela,
de verde.

sem artimanhas, a criançada
não faz a roda cantar.

e lá da tela? que tela?
o aplauso não apita, não dá trela,
não faz sonoro o virtual
do tão irradiante, do muito contagiante.

a correria, o alvoroço, a balbúrdia?
sem faca, garfo ou perfurantes:
o pleno do lanche? esse é o plano ─
comer o quanto antes.

breve, o uivo jorra a urina:
o soco no rosto, o rosto na terra, a terra aberta a certezas.
o caos não respeita toldos e marquises.
  
como um poste, mijado;
como um cão, desgarrado;
pelas pulgas, convulsionado.

queria acordar?
um gato qualquer não lambe boca alguma;
tem sombras dentro do olho, inchado.

o menino não consegue despertar.
que sujeitinho põe os seus olhos num copo d’água?
ele ainda deita de tênis, querendo menos sonhos
do que o pão com hambúrguer, que nem na televisão.

pras manobras na parede?
falta-lhe vela, e parede.

volte a sonhar, menino, um dia você acorda.

(rodrigues da silveira, 2015)





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