quarta-feira, 22 de agosto de 2018


ópera sem remate


costuma chover um bocado em março.
pelos vãos, a água da chuva conhece melhor a casa:
vai entrando pelo telhado, ensopando o casal;
infalível dizer: tão embriagante, o sono é?

como queria o desejo de uns pregos.
mas pegar um martelo? falta a disposição.
cansado? lamenta a chuva, na lata.
a mulher morde a romã, cospe os podres, exibe
a nudez dos olhos, urde uma afronta. o marido?
mexe a mão, suga o dedo que dói, mordido.

o acaso da casa num espaço cômodo?
entre outras duas, no meio dos abelhudos mexeriqueiros.
do primeiro ímpar, arrematemos:
a natureza da dor não é a mesma da pica numa suruba.
a não mais poder, a chuva desaba
o abacateiro, bisbilhotaram. doutro vizinho: furioso.

seduzido o telhado, resta o bom colchão.
os vãos como vão? cuspidos pela vida, e vão.

(rodrigues da silveira, 2016)

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