ópera sem remate
costuma
chover um bocado em março.
pelos
vãos, a água da chuva conhece melhor a casa:
vai
entrando pelo telhado, ensopando o casal;
infalível
dizer: tão embriagante, o sono é?
como
queria o desejo de uns pregos.
mas
pegar um martelo? falta a disposição.
cansado?
lamenta a chuva, na lata.
a
mulher morde a romã, cospe os podres, exibe
a
nudez dos olhos, urde uma afronta. o marido?
mexe
a mão, suga o dedo que dói, mordido.
o
acaso da casa num espaço cômodo?
entre
outras duas, no meio dos abelhudos mexeriqueiros.
do
primeiro ímpar, arrematemos:
a natureza da dor não é a mesma
da pica numa suruba.
a
não mais poder, a chuva desaba
o
abacateiro, bisbilhotaram. doutro vizinho: furioso.
seduzido
o telhado, resta o bom colchão.
os
vãos como vão? cuspidos pela vida, e vão.
(rodrigues da silveira, 2016)
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