quinta-feira, 16 de agosto de 2018


retinas de pérola


não é preciso coragem pra negar o que vejo.
o que vejo?

abro a página do jornal, clico no caminho,
leio: as águas do mar estão cansadas,
marcadas por quilhas, hélices, óleo queimado.
as águas preferem a arrebentação
ao desespero de juntar plásticos de toda natureza.

(é natural andar cheia de civilização)

não é medo negar a coragem. e o que mais?
a pérola negra esconde o meu rosto.
o espelho afugenta os mortos.
a areia comprometida, intoxicada,
fermenta a doença, fomenta a morte.

pra dizer o que não sei? invento, construo, fabrico
─ o instante não é o bastante.

adeus castelo de areia, adeus, adeus, adeus, e adeus.

(rodrigues da silveira, 2017)

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