quinta-feira, 9 de agosto de 2018


os velhos tempos


as regras do mercado comem bolachas pelos corredores;
contra o valor dos ônibus, a verba solta;
grita, no pré-pago, crente que está certo;
com asinhas de curió, o pardal prega o mico.
fazemos, sem nós, o bico dos cordeirinhos.

sobre as fotos, os dias que chegam acumulados,
riscados no pó das trilhas, chão de trilhos,
pelo pão dos milhos, são o nó do carril,
abono ao inditoso, carrinho de faltas,
o comprado à vergonha, pleno de carências, e negado sem dó.

anda carente, é?
meu caro, anda querendo andador?

o granito do arco-íris está no sopro que o emite.

o vento da noite anterior solta murmúrios, nomes de dor.
tão íntimos, os mendigos,
esculpidos no ventre do olho próximo; beijam-se,
são ferida exposta, entranhada cicatriz, sempre aberta.
ela fala a sua face:
só a miséria faz-se incurável?
  
exilado em mim, tento entender-me comigo,
abuso da fé de quem me odeia, menos recluso.
o bode pisa, faz gorar a garganta?
degelar cartões de crédito?
o pó faz desaprendido o corpo?
faça força pro esquecer.
no laurinda? no scalamandré? na rua da bica? no matadouro?
descido da serra, sua praia sem areia.
qual a árvore de raízes líricas dá nas ramas o seco?
no turvo da vista, erra além do curvão?
confesse, lavre em lágrima o seu cloro mais fendido.

e por mais pressa que haja, há em mim outros haveres,
de gente que se destranca, sem demanda,
desocupada pro alvoroço todo frio, do arroz com feijão,
guardiães do chuchu. marmota do meio-dia, do cavo em mim,
o sal do urgente come tudo, até o insosso;
o que me apura menos puro dispara o filtro do escasso?

impostor e cavernoso, pinto-me a jura dessa culpa,
o que nem sinto.

(rodrigues da silveira, 2014)

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