quarta-feira, 29 de agosto de 2018


a descoberto


esquecido numa gaveta, o bilhete.
perdido na sua luz, não encerra
a sua mensagem numa vergonha
de ser lido, nessa outra vez.

não se sabe se portador
de algum crime, algum pecado?
de juras de amor nefasto,
ou belo, algo incestuoso?

tornado inédito pelo encontro inesperado,
aquele lume obscurece o olho que não o decifra.

suas entrelinhas a fazer água.

caravela de papel,
não se faz navegante,
conhecida dos mares,
não vela umas audácias,
é luz de outras eras;
na espiral das esferas,
é mensagem obscura,
alheia ao imo do céu.
  
sem saber dos aspirantes aventurosos
nem das dores que sangram daquele corpo,
a memória traça desconhecido o mapa.
sua mera curiosidade afoga os navegantes ardorosos,
perpetradores de um amor além das palavras;
seu irritante desembaraço diante daquele troço
mutila os amantes aplicados,
despudoradamente carnais pros limites de umas linhas.

na sua lenda sem legenda,
desembarcadas no meio desse quarto mortiço,
eis as águas incomunicáveis.

forasteiro do mar, o seco nas articulações cordiais,
o bronco anil de umas não prorrompidas pneumonias
─ o neto a boiar sobre os avós.

o homem que merece não recebe pelo que percebe,
seus haveres. o oceano do amor não dorme sonos caligráficos.
o outono? ao canhestro tuberculosamente incurável:
andar no torto não faz xucro alguém ridículo.

(rodrigues da silveira, 2016)

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