quinta-feira, 23 de agosto de 2018


quem pega a conta


o morador de rua lambe o cão que o diabo amestrou.
nós precisamos pedir explicação?
à verdade, umas verdades.

em cada cabeça? quem passou pela calçada
foi pra loja de bolsas, só bolsas,
umas bolsas ignorantes? da sua triste figura.

no coração, os noturnos calam o abismo?
conhecem bem o imundo, disfarçado de mendigo.
falam do atalho, é o atalho que salta,
entra pela boca ─ que susto!
não, não e não ─ que medo!

há quem diga o que pensa,
mesmo pensando o errado,
gerando o engodo, proporcionando
ao equívoco a estação.
vieram pedras, encobriram de pegadas
o caminho que não andava.
entrado em cena ─ não contava
o mendigo com o atirado?
não desembarca, desembarcado está.
  
que idiota! isso é o que me sobra, outro.
esse idiota quer lamber a bolsa?

o mapa na cabeça, vertendo palavras,
numa fé nos cães que abanam respostas sinceras,
certo do que dizia. afinado, afinal?
tinha pela palavra um apreço, o senso útil
de proferir profecias proeminentes, convenientes,
emblemáticas, tão necessárias.

há quem minta, acham-no palatável,
como uma folha de agrião ou um pêssego.
mesmo engolindo a página da política
sem um gole de fanta uva?
há quem confunda o abismado
com o abismado.

mas quem mente a quem mente não tem pela gente
não mais que um perdão?

na calçada, o dedo da poça esconde
o monstro do incontrolável,
o incontornável do abismo.
  
os cães enraivecidos
não mordem, saudosos do lobo que foram;
não atacam, assanhados pelos ossos assinalados;
não esquecem das presas mal-educadas.
cães de raiva não se desmancham na poça.

morto a pauladas, o mendigo
vê na tevê: ele cabô de morrê!

fizeram a gentileza:
uma fita amarela separa o pudor da notícia.
nova situação, nova política.

foi aí, sem pedir licença;
foi assim, sem ao menos pedir licença;
foi deste jeito, com o fio de vida babando uma sentença;
mandrião do cão, um cabra pra lamber o chão?
para! o porreta foi.

das veias abertas do anacoreta este poema não veio.

(rodrigues da silveira, 2016)


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