sábado, 25 de agosto de 2018


pra tirar os pés do chão


o retrato na carteira
diz o amor mais vívido na voz viva.
o prato de todo dia
guarda o amor que detergente, esponja e água
não conseguem esgotar ralo adentro.
o sofá na sala
reserva pro amor o que o coração
esquecido, que parece ter esquecido,
apreende sem vergonha, com razão.

e se de repente o amor
puxar a coberta?
a madrugada muxoxa os seus serenos;
ajeitar-me o cabelo?
pra esconder a calvície;
beijar-me a testa?
com tal afeição, pelo que atesta o serenado,
dou por mim nas rugas do meu afeto.

nunca? jamais? ou?
talvez... talvez.
se ainda está nas vielas da cabeça,
a caneta permanece inocente.
  
não conheço quem chame,
ou ouse chamar ou experimente a ousadia
─ dizer este amor com outro nome.

com os pulmões nítidos
e o olhar desanuviado, digo eu
com a maior afetação que eu sinto:

mãezinha... mamãe... mãe.

vinho verde,
contemporâneo daquelas minhas memórias,
deixa-me respirar, ir pelas saudades, maturar-me vivo.
uma vez que sou pelas idades,
faço-me folha aspirando ao alvo do branco.

voo ou vivo? vivo ou voo?

se me é risível arriscar o sensível,
embriago-me, e tenho amor pela vida?
e como me mato pra ficar vivo.

(rodrigues da silveira, 2015)

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