Pregação
idiota
A primeira coisa a ser dita é que o sol
ficou curioso. Como não é de deixar por menos, a lua ostentou a mesma
curiosidade e permaneceu onde estava. Porque só prestam atenção quando
incitadas a tanto, as pessoas foram correr na praia sem notar nada de
diferente. Entretanto, as aves marinhas perceberam, os golfinhos e as baleias
perceberam, os corais perceberam, só a gentarada que corria à beira-mar é que
não deu ouvidos à conversa aberta pelos astros.
Os pobres bípedes sem penas continuavam
a tocar a vida como se a aurora de escol fosse mais uma, outra reles alvorada.
A improbabilidade de que ninguém tenha intuído
que o esplendor a estupeficar quem o notasse singularmente belo era um erro de cálculo,
pois houve quem percebesse a cena idílica como paraíso mental.
Embriagado de tanta luz, o Zeca acordou
disposto a tirar o dia para divertir-se com coisas divertidas. Não seria
divertido andar na orla, pois não havia mar nem maresia, não voavam gaivotas
nem albatrozes, não havia surfistas nem banhistas.
Se não havia possibilidade de tsunami,
havia a escolha pro dia: ele não faria as coisas chatas que o obrigavam a fazer
porque falavam que tais coisas chatérrimas moldá-lo-iam pros desafios do futuro.
Cansado de ficar parado, não esquentaria
a moringa: sairia à praça; vagamundearia sob o sol; escutaria um joão-de-barro,
os bem-te-vis e os pardais alvoroçados; até esqueceria o relógio.
Uma vez que o Zeca não era fácil, ele não
se admirava de perceber o truque do sol com a lua no céu àquela hora. Ele
gostava de perceber o calor do sol, e percebia-o com a sensualidade à flor da
pele.
A segunda coisa a ser dita é que o Zeca
não era pessoa indicada a entender-se: com os prazeres que o seu corpo proporcionava-lhe;
com a mente puxando ideias pelo rabo: se tem mar, tem praia; se tem praia, tem
esteirinha na areia; se tem esteirinha, tem o sonhador mergulhado na imaginação
que tanto o satisfaz; se está satisfeito, ele não quer mais borrar o que vê; é
óbvio, que ele seja punido, condenado, julgado pelos desejos de estar na praia,
à beira-mar, vendo as sereias que saltam da água, rodopiam no ar e mergulham no
mar mais fundo.
O Zeca falava sério. Ele disse que o céu
não desabaria na cabeça de ninguém. Ele repetiu diversas vezes que o casamento
do sol com a lua era um fato atordoante. Disse que o sol e a lua estavam agindo
em prol da humanidade. Que nós humanos continuássemos a perpetuar a espécie. Que
aumentássemos o domínio sobre a natureza, dos átomos ao cosmo. Entusiasmado, ele
defendia que a lei do amor prevalecesse, pois o amor move, e comove, as
entranhas.
A última coisa que o Zeca podia negar-se
a dizer é que o sol e a lua não sabiam que eram seis horas da manhã, que os muros
e os postes não sabiam que o rádio esgoelava para o mundo: “quem trabalha,
trata da sua vida; quem está ocioso, trata da vida alheia”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de agosto de 2023.