Pobre de mim que estou perdido. Vim sem
lista, não porque a tenha deixado em casa, não a fiz porque nem pensava em vir para
cá.
Primeiro, fui à praça.
Quando estou estressado, sigo o roteiro
que fazia quando tinha um cachorro. Erro por travessas, encomprido o caminho, ando
mais lento que o costumeiro, passo pelo coreto, contorno o chafariz, abençoa-me
a Santa a cada vez que desfilo a seus pés, sigo apostando que a fadiga há de informar
à minha cabeça que ambos, o meu cão imaginário e eu, nos exercitamos o bastante.
Se é enganosa a felicidade de ter desviado
o foco, é satisfatório não pensar em trabalho. Usufruir do bem-estar faz-me pensar
em gratidão. E agradeço ao capital por erguer da lama a mais bela catedral em que
o presente dá de desvelar-me um bocadinho feliz.
À deriva entre as gôndolas, de cestinha
vazia, acham-me.
― A Branca de Neve tem que desculpar ― disse o garoto.
― Menino, não deixe a gente constrangida ― disse a avó.
― O meu neto quer ser escritor como você ― disse o avô.
Dito assim, não dá para entender muita
coisa deste encontro.
Tão logo o avô contou que eu era escritor,
a criança lembrou-se da história que a sua avó lhe conta à mesa do café, daí aquele
abraço nas minhas pernas e seu carinho ao afagar meu rosto.
― O senhor conhece a Branca de Neve?
― Olá, rapazinho. Como você está?
― Diz pro moço se está tudo bem com você.
Nossos narizes resvalam-se enquanto ele
fala comigo:
― Está tudo bem, moço. Mas o senhor conhece
a Branca de Neve?
― Você não vai nem me falar qual é o seu
nome?
― Se apresenta direito, Enzo. Diz pro
moço como você se chama.
― Meu nome é Enzo, moço. Mas se o senhor
é escritor de verdade, então, o senhor conhece a Branca de Neve.
― Olha, Enzo, eu conheço a história da
Branca de Neve porque na casa dos meus pais tinha muitos livros.
― A Branca de Neve mora num livro?
― Não, não. A Branca de Neve mora do
País do Faz de Conta.
― E quantas vezes o senhor já foi ao País
do Faz de Conta?
― Sempre que leio uma história de
mentirinha eu estou lá.
― Eu sabia! Quando a vovó conta história
eu fico na casa dela, não vou pro País do Faz de Conta porque não sei ler.
― Não fique chateado com isso, pois você
é bem novinho. Quantos anos você tem, Enzo?
― Faz com os dedinhos quantos anos você
tem.
A criança mostra que tem três anos.
― Tá vendo? Na idade certa, você vai...
― O senhor tem que falar pra Branca de
Neve que não foi por querer que soltei pum.
― Enzo, não fala essas coisas pro homem.
― Mas, vovô, o pum escapou.
― Tudo bem. Todo mundo solta pum. Eu também
solto pum.
Quem acha melhor esclarecer é a avó:
― Sabe o livro do Ilan Brenman? Aquele
que fala das princesas que soltam pum? Ele ama de paixão. Toda vez que a gente
toma café junto, eu tenho que ler. Nossa Senhora! Como o meu príncipe ri.
― Eu soltei pum na hora que fui assoprar
as velinhas do bolo, daí a Branca de Neve dormiu profundamente porque cheirou
meu pum bem fedorento, moço.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de março de 2023.