Cartinha
aberta
Bom Velhinho,
Embora o meu pai diga que não tenho
idade para ter preocupações com o que há de errado no mundo, não antecipo
nenhuma justificativa ao revelar um pouco de ansiedade em relação a esta carta.
Bem faz meu pai que desconfia, pois não
é nada surpreendente eu aparecer com pergunta difícil, tipo assim: o que posso
fazer pra que a comida que não esteja estragada vire lixo?
A primeira providência é que tenho de convencer
a mamãe de que não gosto de curau. Mamãe faz de propósito, pois ela sabe que
detesto milho que não seja o milho de pipoca. Se mamãe faz pamonha só para
agradar a minha irmã, nem empaco no lugar: estouro pipoca no micro-ondas mesmo
que eu esteja proibido de mexer nele.
Meu pai não se envolve, ele diz que é
uma questão entre mamãe e mim. Mas o meu prato vem servido de curau e não sou
de comer o que não gosto só porque a mamãe quer impor a sua vontade.
Eu não sou de arrumar confusão. Apoio
minha opinião no meu pai, que sempre diz que ninguém deve agir como pamonha. Ele
acha que é importante demonstrar personalidade, mesmo pra mãe da gente, ou a
pessoa não será respeitada.
Por que estou lhe dizendo isso?
É que meu pai não quer ajudar com esta
minha carta para o senhor, mas a mamãe está sentada aqui ao lado, vendo-me
escrever, mas ela não para a leitura do livro. Então, vejo que não há problema
algum em continuar escrevendo o que acho bom eu pôr na carta, ainda que meu pai
nem saiba que mamãe nem peça para ler o que está escrito.
O meu pai acha que um modo infalível de
descobrir o caráter de um homem é obrigá-lo a educar os filhos de outra pessoa
como se fossem os dele, sem mordomias e condescendências.
Meu pai acha que escolas são feitas para
os professores ocuparem o lugar de pai, cujo ideal é a atuação sem regalias e apadrinhamentos,
pois não se pode titubear no dever de dar curau a alunos e alunas.
Como a pessoa ganha dinheiro com o que
trabalha, ela tem mais é que reclamar dos impostos que o governo cobra, pois o grosso
da gaita não vira escolas de qualidade, hospitais bem equipados e boas arenas
onde vendam até pipoca doce.
Às vezes meu pai lembra o padre da nossa
paróquia quando ele diz que tenho de prestar atenção nos meus atos, que não
posso agir como se não fosse digno representante dos ideais de quem ajudou na minha
formação de pessoa gentil que gera gentilezas.
O meu pai diz que uma pessoa de classe sabe
relativizar as coisas, que gente de destaque não leva tudo a ferro e fogo. Por
isso, entendo que nem precise se desculpar comigo, pois o senhor anda
trabalhando demais para querer responder a uma simples criança.
O senhor pode estar achando engraçado
receber esta minha carta fora de época, no meio do Carnaval, mas estou lhe
escrevendo durante uma baita chuva.
Graças ao senhor, com todo mundo tendo
de ficar em casa, posso jogar videogame sem rachar no sol.
Cordialmente,
Uma criança feliz.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de fevereiro de 2023.
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