quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Maturidade necessária

 

Maturidade necessária

 

A fruta verde precisa de tempo, o seu tempo, para tornar-se própria pro consumo humano. Dias, semanas, meses, o tempo que for preciso para que o dinheiro para comprá-la transforme-se na água tão gostosa que brota na boca, que apenas a sua carne quando bem madurinha é capaz de produzir.

Ainda bem que a felicidade que o prazer produz chega aos incréus que só constatam o bem madurinho cravando dentes, já que esses não se contentam em acalcar ou, os mais radicais, passar a língua.

Nada contra quem não se satisfaz com similares, afinal fruta não é sorvete, ainda que sorvete tenha sabor e possa conter uns pedacinhos de fruta. Que Deus proteja tais discípulos de são Tomé.

E cada fruta tem gosto único. Bananas não se parecem com cocos; framboesas não lembram morangos; a mim me ocorre que carambola e umbu têm gosto semelhante, o de sabor desconhecido, uma vez que a ambos nunca experimentei.

Conheço muito pouco da rica diversidade de frutas e frutos do meu querido Brasil. Pior pra mim que nunca vi sequer uma foto de graviola, jutaí, sapucaia, muruci, apiranga, umiri, gurguri, bacuri, tucujá, tucumã e achuá. A vastidão pantagruélica da minha ignorância é amazônica.

Por valorizar o que o nosso chão oferece é que respeito as estações e compro melão ao preço de melão. Pago o justo, pela oferta de acordo com a demanda. No tempo exato, nem antes nem depois, no momento da colheita. Pois os meus vinténs são intransigentes: se o produto vem de estufa, sofre manipulações genéticas ou viaja o mundo, que encalhe em bancadas, caixas e entrepostos. Agentes inflacionários, xô!

Só espero que prevaleça o bom senso de dar a porcos e galinhas o que estiver estragado, porque a xepa de maçãs podres, peras moles e laranjas mofadas, que tal xepa não avilte a pobres e miseráveis.

Camarada que me lê, dinheiro curto não implica visão curta.

Melhor exemplo dá o Tato, pois ele enxerga bem justamente porque nunca tira proveito do que se lhe revela como oportunidade irrecusável, nem naquelas circunstâncias que a todo mundo pareçam ser favoráveis, assaz lucrativas.

Tato é visto como um pobre diabo que merecia melhor sorte, ou que gente que não seja da família dele o ajudasse com doações regulares. Se não há quem o faça afortunado, que mercadores e vivandeiros lhe sejam beneméritos, dando-lhe kiwis ou lichias.

Polido sem extremismos, o Tato brilha sem causar espécie. Quando lhe falam, aguarda que falem, para só daí dizer:

ꟷ Então, tá. Tô indo.

Tato não vem de tatu, tattoo ou Fortunato.

Outro exemplo é o Luisinho, cuja amizade enraizada pelas décadas de convívio autoriza-o a ser enfático:

ꟷ Soltem sanhaços; libertem coleiras; deixem livre a sabiá.

Puxa! Dona Cremilda e eu nem tínhamos reparado que o bom Tato traz uma gaiola, pendura-a no ipê, abre-lhe a portinha e, um a um, cada passarinho ganha os céus.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2023.

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