Maturidade
necessária
A fruta verde precisa de tempo, o seu
tempo, para tornar-se própria pro consumo humano. Dias, semanas, meses, o tempo
que for preciso para que o dinheiro para comprá-la transforme-se na água tão
gostosa que brota na boca, que apenas a sua carne quando bem madurinha é capaz
de produzir.
Ainda bem que a felicidade que o prazer
produz chega aos incréus que só constatam o bem madurinho cravando dentes, já
que esses não se contentam em acalcar ou, os mais radicais, passar a língua.
Nada contra quem não se satisfaz com
similares, afinal fruta não é sorvete, ainda que sorvete tenha sabor e possa
conter uns pedacinhos de fruta. Que Deus proteja tais discípulos de são Tomé.
E cada fruta tem gosto único. Bananas
não se parecem com cocos; framboesas não lembram morangos; a mim me ocorre que
carambola e umbu têm gosto semelhante, o de sabor desconhecido, uma vez que a
ambos nunca experimentei.
Conheço muito pouco da rica diversidade
de frutas e frutos do meu querido Brasil. Pior pra mim que nunca vi sequer uma
foto de graviola, jutaí, sapucaia, muruci, apiranga, umiri, gurguri, bacuri, tucujá,
tucumã e achuá. A vastidão pantagruélica da minha ignorância é amazônica.
Por valorizar o que o nosso chão oferece
é que respeito as estações e compro melão ao preço de melão. Pago o justo, pela
oferta de acordo com a demanda. No tempo exato, nem antes nem depois, no
momento da colheita. Pois os meus vinténs são intransigentes: se o produto vem
de estufa, sofre manipulações genéticas ou viaja o mundo, que encalhe em
bancadas, caixas e entrepostos. Agentes inflacionários, xô!
Só espero que prevaleça o bom senso de
dar a porcos e galinhas o que estiver estragado, porque a xepa de maçãs podres,
peras moles e laranjas mofadas, que tal xepa não avilte a pobres e miseráveis.
Camarada que me lê, dinheiro curto não
implica visão curta.
Melhor exemplo dá o Tato, pois ele
enxerga bem justamente porque nunca tira proveito do que se lhe revela como
oportunidade irrecusável, nem naquelas circunstâncias que a todo mundo pareçam ser favoráveis, assaz lucrativas.
Tato é visto como um pobre diabo que
merecia melhor sorte, ou que gente que não seja da família dele o ajudasse com
doações regulares. Se não há quem o faça afortunado, que mercadores e
vivandeiros lhe sejam beneméritos, dando-lhe kiwis ou lichias.
Polido sem extremismos, o Tato brilha sem
causar espécie. Quando lhe falam, aguarda que falem, para só daí dizer:
ꟷ Então, tá. Tô indo.
Tato não vem de tatu, tattoo ou
Fortunato.
Outro exemplo é o Luisinho, cuja amizade
enraizada pelas décadas de convívio autoriza-o a ser enfático:
ꟷ Soltem sanhaços; libertem coleiras; deixem
livre a sabiá.
Puxa! Dona Cremilda e eu nem tínhamos
reparado que o bom Tato traz uma gaiola, pendura-a no ipê, abre-lhe a portinha
e, um a um, cada passarinho ganha os céus.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2023.
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