A dor e o gozo
Urgente! Muro de Berlim
vira remédio, o Murus berlinensis.
Minha mente me põe aperreado,
já de posse da notícia dada pela Folha de São Paulo na edição do último domingo
de outubro. Marcelo Leite, o jornalista que assina coluna no referido jornal, comenta
ainda que a homeopatia reza: semelhante cura semelhante.
A chave dos meus
problemas aí está. Como pessoa que se ocupa com o equilíbrio alheio, busco um
elixir que nos desopile.
Onde posso encontrar?
Me vem primeiro um cão.
Mas darei a animais a condição de meus semelhantes? Passa e vai, movido por
premências que só um poste pode aliviar. Guardo a distância, decide-se por
outro poste. Que plano tem o cão da rua pros postes da cidade? E por que não
cobre o que vai alastrando a céu aberto? Estará instruído por globalistas?
Com patente autocontrole,
vai resoluto, obedecendo a uma lógica idiossincrática: um poste depois de
outro, em linha reta, do lado ímpar da avenida. Chega à praia, para. Olha a
base móvel da PM; afasta-se de uns turistas; lambe umas casquinhas caídas na
calçada; depois, todo serelepe, vai pro calçadão.
Daí é que penso. O
pensamento me concentra no que o cão faz. A ideia focada na ação me põe longe
das alegorias metafóricas. Nada mais esdrúxulo do que imaginar a vida de um cão
como um abismo, e que, durante a queda, mãos invisíveis vão retirando
travesseiros, já que as penas não tornam leve nem amortecem nada.
Segundo a homeopatia,
veneno é a desmedida.
E a arma contra a
desmedida? Então, que arma nutrirá em mim a defesa que tanto preciso? Não sou o
meu semelhante mais íntimo? Armar a mim mesmo? Armar a mim sobre todas as
coisas? Armar a família, por que somos bem-aventurados? Armar amigos como quem
arma a nação? Armar a terra onde nasci? Armar é fogo que se vê? Armar, não parece
armação?
Há esse cão que está
parado, a olhar-me. Seus olhos não revelam desdém; a mágoa que expressa não ficará
menor nem mais rasa ao chamá-la melancolia. Mas pouco sei do olhar do cão.
Abana-se, cheira-se,
lambe-se. O que não quer dizer que aja feito rei, solto na vida, a fazer e a desfazer
o que lhe dá na telha. Na cara de todo mundo, o cão cumpre a sua jornada com
entrega.
Mas desgarrado?
Se Argos abanou a cauda,
Baleia sonhava com preás. Em outras palavras, nem todo cão tem a mesma raça.
Se aquele apaleado de
caninos cariados já se ria com os bípedes, implumes, que nem viviam num barril?
Sem tosa e sem perfumes, só o sol me banha além da conta? Nem por isso reclamo menos
sol.
Sim...
Desarmar os pobres por que
deles é o reino dos céus? Desarmar mendigos com alguns trocados? Desarmar o
caixa do mercado com um sorriso? Desarmar o ódio com um abraço? Desarmar-se pra
ouvir o próximo? Desarmar-se com a palavra?
De poste em poste,
fazendo-se livre ao viver ― por amar-se.
Ô amor danado, que faz o
osso da crônica entranhar o coração das ruas neste cão vagabundo.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de outubro de
2019.