No circo
Ia a manhã breve, na
minha caminhada pelo calçadão da praia. E o que Budu, o Christian do piano, disse
a um jornal me comia pela cabeça. Então, “é preciso deixar fluir a fantasia,
deixar a imaginação participar do processo”, com o mar ali, a palmos? Como não
preciso ver pra enxergar, o cego em mim não quer ver onde enfio o nariz.
Assim na caminhada, que
me ajuda a dar água aos meus burros, ia intoxicado pela miséria de submerso na
quietude do mundo. Ia pela vida, com joões-de-barro e amendoeiras-da-praia a
ter natal e finados ao léu. E a indiferença vai de porte airoso, sem mascarar a
crueldade que, desde a eclosão do ovo cósmico, não faz eco ao universo.
E por caminhos
tortuosos, e enervantes até, a vida dá tratos à bola feito o Flamengo diante dos
antagonistas, sob os auspícios de Jesus. Vai daí que, sem o rococó das firulas
e recursos a VAR algum, com as explícitas segundas intenções de celulares a
postos, tramando as veredas que levariam à foto, umas transeuntes me põem na roda.
Se sou aquele cara da
TV? E essa barba rala, grisalha e cheia na barbicha? Um carequinha com estes
óculos de intelectual? Sério que o senhor não é mesmo aquele cara do jornal?
Com tanta vida a
desnortear, calçadão, preciso parar de me ouvir, pra talvez conseguir pôr mais
serena a mente, esta arteira.
Até parece sonho, mas do
jeito que a vida está sendo montada, é teatro que não me encanta. Aquelas e
aqueles comediantes de quinta que emendam segunda e sexta? Pessoas que mais improvisam
do que ensaiam? Heróis do Face e vilões do Instagram, assim querem que a gente as
veja. Ô tristeza.
E o espetáculo? Se não
sair das coxias, a Coorte Real de Brasília vai ficar como? Vai ter circo? Dizem
que esse promete ser diferente, com artistas de lá e de cá. Oba! Quem está
vendendo os ingressos?
Amo circo de paixão, vou
já comprar pipoca.
Terá atirador de faca? É
certo que leão, macaco, elefante e outros bichos têm entrada proibida. É
barbada que a mulher de sombrinha não vai pôr os pezinhos na corda bamba porque
milicianos tomaram pra si a rede de proteção. Nem falo nas coristas que somem
ao ter o perfil na Interpol. Quê? É mágica tirar da cartola o Queiroz? Deviam
devolver o dinheiro de quem vive pra pagar tanta piada sem graça.
Quando a dor dilacera, o
calçadão vai apertando de estreito com cães que rosnam quando ladram. Putz! É
fatal ter a espinha ereta.
Veio-me a foto das palmeiras
lá do Rio. Pena que tamanha beleza esteja distante deste babão de fôlego contraído.
E tão maravilhado, esqueço que, como aponta o lápis dos calculistas, a
produtividade na garganta do patrão segue afiada, porque se felicita pelas R$
2.100,00 razões pra cada R$ 1.040,00, no mínimo.
A canalha que come a
minha pipoca no meio da trama me quer no papel de bobo? Dou o melhor de mim na
função, daí bato palma que nem louco quando me confundem com o Pondé.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de outubro de
2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário