terça-feira, 29 de outubro de 2019

No circo


No circo

Ia a manhã breve, na minha caminhada pelo calçadão da praia. E o que Budu, o Christian do piano, disse a um jornal me comia pela cabeça. Então, “é preciso deixar fluir a fantasia, deixar a imaginação participar do processo”, com o mar ali, a palmos? Como não preciso ver pra enxergar, o cego em mim não quer ver onde enfio o nariz.
Assim na caminhada, que me ajuda a dar água aos meus burros, ia intoxicado pela miséria de submerso na quietude do mundo. Ia pela vida, com joões-de-barro e amendoeiras-da-praia a ter natal e finados ao léu. E a indiferença vai de porte airoso, sem mascarar a crueldade que, desde a eclosão do ovo cósmico, não faz eco ao universo.
E por caminhos tortuosos, e enervantes até, a vida dá tratos à bola feito o Flamengo diante dos antagonistas, sob os auspícios de Jesus. Vai daí que, sem o rococó das firulas e recursos a VAR algum, com as explícitas segundas intenções de celulares a postos, tramando as veredas que levariam à foto, umas transeuntes me põem na roda.
Se sou aquele cara da TV? E essa barba rala, grisalha e cheia na barbicha? Um carequinha com estes óculos de intelectual? Sério que o senhor não é mesmo aquele cara do jornal?
Com tanta vida a desnortear, calçadão, preciso parar de me ouvir, pra talvez conseguir pôr mais serena a mente, esta arteira.
Até parece sonho, mas do jeito que a vida está sendo montada, é teatro que não me encanta. Aquelas e aqueles comediantes de quinta que emendam segunda e sexta? Pessoas que mais improvisam do que ensaiam? Heróis do Face e vilões do Instagram, assim querem que a gente as veja. Ô tristeza.
E o espetáculo? Se não sair das coxias, a Coorte Real de Brasília vai ficar como? Vai ter circo? Dizem que esse promete ser diferente, com artistas de lá e de cá. Oba! Quem está vendendo os ingressos?
Amo circo de paixão, vou já comprar pipoca.
Terá atirador de faca? É certo que leão, macaco, elefante e outros bichos têm entrada proibida. É barbada que a mulher de sombrinha não vai pôr os pezinhos na corda bamba porque milicianos tomaram pra si a rede de proteção. Nem falo nas coristas que somem ao ter o perfil na Interpol. Quê? É mágica tirar da cartola o Queiroz? Deviam devolver o dinheiro de quem vive pra pagar tanta piada sem graça.
Quando a dor dilacera, o calçadão vai apertando de estreito com cães que rosnam quando ladram. Putz! É fatal ter a espinha ereta.
Veio-me a foto das palmeiras lá do Rio. Pena que tamanha beleza esteja distante deste babão de fôlego contraído. E tão maravilhado, esqueço que, como aponta o lápis dos calculistas, a produtividade na garganta do patrão segue afiada, porque se felicita pelas R$ 2.100,00 razões pra cada R$ 1.040,00, no mínimo.
A canalha que come a minha pipoca no meio da trama me quer no papel de bobo? Dou o melhor de mim na função, daí bato palma que nem louco quando me confundem com o Pondé.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de outubro de 2019.

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