Evolução
científica
Para não perder o amigo, digo a verdade.
Ele acha que relutância é coisa de gente marrenta. Não sou turrão. Mesmo
sabendo que não escrevo ficção científica, o Luisinho insiste.
A ideia é simples: como as pessoas são
sessenta por cento água e a água não se conforma em ficar acomodada num baldinho
de cinco litros, os seres humanos têm que ser enquadrados.
Quem come batata frita sabe que ela fica mais saborosa quando bem salgadinha. Só que o sal aumenta a pressão. O problema é que a pessoa que come batatinha precisa de guaraná pra tirar a salmoura da boca. E tal combinação ― do sal das fritas com a cafeína do refri ― reforça a lógica da autossabotagem:
― Mais com mais sempre dá menos.
― E isso te leva a deduzir o quê?
Que começam as abelhinhas nos ouvidos.
Os pés imploram que o chão não goste de ser o convés do Titanic depois que o barquinho
foi abalroado pelo iceberg. O nariz resolve que sangrar é o melhor modo de
diminuir a falta de ar. Como a coisa tende a ficar pior, a dorzinha no peito cai
bem com o desmaio.
― E o rosto assegura: quando a gente
perde os sentidos, tudo que é sólido machuca sem dó.
― Onde estão os benditos robôs que não
nos acodem?
― Eis o papel das benditas máquinas:
obrigar os seres humanos a serem menos compulsivos.
― Malditos comedores de batata frita!
Luisinho me encara com o desdém de quem
conhece a verdade, e precisa dizê-la sem interrupções. Afinal, a verdade só
libertará aquele que aceitá-la como o veneno bem dosado que fortalece.
― Foi isso que a tia Maricota te disse,
Luisinho?
Ao antever que abrir e fechar geladeira
faz bem pros bíceps:
― Pois é, gente que fica abrindo e
fechando geladeira está perdida entre o sorvetinho de chocolate e de flocos.
Já que a primeira lei da nova era
robótica é a preservação da vida humana, as geladeiras só serão abertas com
biometria. Isso impedirá que a pessoa coma torresmo antes de dormir.
Em milionésimos de segundo, o cérebro
eletrônico pescará a ficha médica do inconsequente e, sem detença nem trapaças,
determinará: nada de comida gordurosa.
― Luisinho, quem come torresmo na hora
de dormir?
Para que meu amigo não acabe desterrado
no limbo de gente que não confia na inteligência dos seres humanos, recorro ao
ChatGPT:
Quando conheceremos geladeira com
leitura biométrica?
E a resposta do robozinho é: Entre 3 e 8 anos você deve começar a ver geladeiras com biometria sendo vendidas ― mas como recurso opcional, não padrão.
Luisinho tira o boné, coça a cabeça e
completa:
― Para comprar essa geladeira de rico, vou
ter de ficar sem fritas por um baita tempo.
Se o ouvisse, Tia Maricota seria
certeira:
― E o guaraná também?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 19 de março de 2026.