quinta-feira, 19 de março de 2026

Evolução científica

 

Evolução científica

 

Para não perder o amigo, digo a verdade. Ele acha que relutância é coisa de gente marrenta. Não sou turrão. Mesmo sabendo que não escrevo ficção científica, o Luisinho insiste.

A ideia é simples: como as pessoas são sessenta por cento água e a água não se conforma em ficar acomodada num baldinho de cinco litros, os seres humanos têm que ser enquadrados.

Quem come batata frita sabe que ela fica mais saborosa quando bem salgadinha. Só que o sal aumenta a pressão. O problema é que a pessoa que come batatinha precisa de guaraná pra tirar a salmoura da boca. E tal combinação ― do sal das fritas com a cafeína do refri ― reforça a lógica da autossabotagem:

― Mais com mais sempre dá menos.

― E isso te leva a deduzir o quê?

Que começam as abelhinhas nos ouvidos. Os pés imploram que o chão não goste de ser o convés do Titanic depois que o barquinho foi abalroado pelo iceberg. O nariz resolve que sangrar é o melhor modo de diminuir a falta de ar. Como a coisa tende a ficar pior, a dorzinha no peito cai bem com o desmaio.

― E o rosto assegura: quando a gente perde os sentidos, tudo que é sólido machuca sem dó.

― Onde estão os benditos robôs que não nos acodem?

― Eis o papel das benditas máquinas: obrigar os seres humanos a serem menos compulsivos.

― Malditos comedores de batata frita!

Luisinho me encara com o desdém de quem conhece a verdade, e precisa dizê-la sem interrupções. Afinal, a verdade só libertará aquele que aceitá-la como o veneno bem dosado que fortalece.

― Foi isso que a tia Maricota te disse, Luisinho?

Ao antever que abrir e fechar geladeira faz bem pros bíceps:

― Pois é, gente que fica abrindo e fechando geladeira está perdida entre o sorvetinho de chocolate e de flocos.

Já que a primeira lei da nova era robótica é a preservação da vida humana, as geladeiras só serão abertas com biometria. Isso impedirá que a pessoa coma torresmo antes de dormir.

Em milionésimos de segundo, o cérebro eletrônico pescará a ficha médica do inconsequente e, sem detença nem trapaças, determinará: nada de comida gordurosa.

― Luisinho, quem come torresmo na hora de dormir?

Para que meu amigo não acabe desterrado no limbo de gente que não confia na inteligência dos seres humanos, recorro ao ChatGPT:

Quando conheceremos geladeira com leitura biométrica?

E a resposta do robozinho é: Entre 3 e 8 anos você deve começar a ver geladeiras com biometria sendo vendidas ― mas como recurso opcional, não padrão.

Luisinho tira o boné, coça a cabeça e completa:

― Para comprar essa geladeira de rico, vou ter de ficar sem fritas por um baita tempo.

Se o ouvisse, Tia Maricota seria certeira:

― E o guaraná também?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de março de 2026.

terça-feira, 17 de março de 2026

Jararaca assanhada

 

Jararaca assanhada

 

O bar não estava cheio. A tevê estava ligada. Sem que eu tivesse pedido, o sujeito começou a comentar o que a TV falava.

Com seriedade, não titubeio. Juro que estou disposto a projetar as consequências. Assim que começam a falar na TV, paro o que estou fazendo. Eu podia ter pego papel e caneta, mas a minha mente tem o dom de decorar o que a tevê mostra.

De acordo com os gráficos, os números não alucinam. Já que eles conseguem arquitetar o que estão dizendo, noto que minha sanidade fica imunizada.

Com os anticorpos da realidade, fico bem.

Compenetrado com o momento, não cochilo. E reafirmo que estou comprometido a respeitar o que soa lógico, e sagrado.

Embora me escape o comportamento da inflação, ouço o que é repetido na televisão. Ouço que nem pisco.

Escapa-me tal piscadela: cadê os nomes dos artistas gráficos que formularam a maravilha que traduz o que matutam os economistas?

Sim, a maravilha funciona: tem o verde a indicar que os dados são positivos; tem o vermelho a arredondar para baixo o que podia sugerir fumaças de pessimismo.

Sendo x o eixo de um amanhã sensacional, com o bolso cheio, e y o eixo em que o passado era muito mais sombrio, como outro ônibus queimado.

Assim, na tela, eis a maneira encontrada para dar a público o que tem que ficar exposto o tempo que for suficiente para que a economia pareça agir como ciência racionalmente produtiva.

Pra felicidade irrestrita, às pessoas que sentem que a felicidade é aquele sentimento de ter feito o gol da virada antes do intervalo digo que não vou reforçar o traço que serpenteia no telão.

Olha aí! (Olho nada) Caraca!

A serpente apresentada na TV é a evidência da tentação do bem. Vou ter de mandar um áudio pro grupo da minha família. A gente tem que acentuar os benefícios da credulidade.

Sou crédulo porque confio. E confiança é escudo a me proteger de quem não venera ovos classe A.

Se ainda não sei no que boto fé, virá o dia em que atacarei quem me ataca. Será minha melhor transfiguração: por dar à luz pela boca, serei bela; jararaca, caçarei saruês.

Gordos, magros, rabudos, focinhudos – todos saruês.

Só espero que não me matem com celulares quando eu solicitar a minha participação. Quero anunciar ao vivo que tudo correu bem com a gestação.

Como bons indivíduos da espécie, minhas doze jararaquinhas irão colaborar. Caçando saruês, serão instrumento pra maior sensação de segurança.

Já que tanto ambicionamos que o eixo de noites bem dormidas vá para cima sem enovelar com besteirinhas, o espectro de boletos a ser pagos subirá com igual vigor.

O que é seguro enfatizar?

A televisão não diz que ter mais dívidas é o índice mais realista de que jararaca não economiza botes quando está faminta.

Não estou certo?

Antes que o sabichão dissesse o que era o melhor para mim, pedi a conta. Paguei só a minha, claro.

Para não acabar envenenado pela bile do indignado especialista, voei embora. Pro meu sofá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de março de 2026.

domingo, 15 de março de 2026

Não seria menos absurdo se fosse um sonho

 

Não seria menos absurdo se fosse um sonho

 

Faz sessenta e dois anos que o futuro foge de mim. Ontem quase o avistei às costas. O danado escolheu refugiar-se na minha sombra.

E nem tinha sol.

Se a vida toda estivesse a dedicar-me a observá-lo tão fugidio, eu próprio me esqueceria numa cela. Isolado, e não vencido. Ainda que a solitária sequer janelinha tivesse, seguiria a escarafunchar os meus silêncios.

Othon Bastos, o Paulo Honório do filme São Bernardo, diz ser um afinador de silêncios.

Por que não digo que ele encarna o Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol? Ou, aos noventa e dois anos, o ator é o protagonista do espetáculo Não me rendo?

Alto lá! O título da peça é outro: Não me entrego, não!

Por meu turno, “render-se” em vez de “entregar-se” diz o tanto que a minha cachola tem feito gracinhas.

Trocar nomes, esquecer os fatos, encafifar com um rosto que bem me parece ser amigo, rodar em falso sobre alguma coisa sem muita importância, isso é o bastante para apontar o tanto que tenho tomado “desvios” e não “atalhos”.

É gostoso quando me incentivo a checar uma informação. Só que sorrir à gente que nem me conheça é impróprio, pois estou a sugerir: ei, você aí, vai me negar a esmola de um sorriso?

Não esmolo os bons modos de quem não sabe que sou assim. Me critico pelo jeito que, eventualmente, uso os meus sorrisos.

Às vezes, preciso que parem um instante, topem papear comigo, nem que seja pra fazer de conta de que me conhecem, ou, por saber quem eu sou, livrar-se da minha chatice com um sorriso.

Quando sorriem para mim, o sol faz maior a minha sombra.

Justamente ela, a que camufla o futuro.

À sombra de mim, sem me acanhar ao sorrir de volta, vou indo por aí afora: olá, é sempre um prazer encontrar quem sorri.

O prazer que tive, o que terei, o que me escapa agora.

Othon Bastos reaparece. No telefonema, falei dele. A minha amiga nem precisou me lembrar que nós não conhecemos o ator.

Tive que falar da crônica. Falei dos verbos trocados. E mencionei que uma frase do Lobo Antunes estava correndo de mim.

Queria as aspas. Fui às inteligências artificiais.

Uma saiu-se com: “o futuro é o tempo que me resta”.

Outra admitiu que não tem acesso ao Livro de Crônicas, ou seja, a minha solicitação pela frase exata não pode ser atendida.

Ao léu das minhas benquerenças, fui proseando com as crônicas, vim me enveredando até chegar ao encerramento que dou como bem apropriado:

“O meu drama consiste em ter demorado de mais a entender que os verdadeiros fantasmas são os vivos.”

Como não corro publicar antes de nova leitura, o meu fantasma dá aquele sorrisão.

Volto às aspas do Lobo Antunes, e sorrio à página que nem datei. Falta a palavrinha “tempo” no trecho “ter demorado de mais”.

Em tempo, saiba o futuro: Lobo Antunes morreu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de março de 2026.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Sessão de cura

 

Sessão de cura

 

Há três dias chove. Quando parece que vai parar, vem a garoa pra deixar a gente ressabiada. Se o céu não quer brincadeira, a garoinha se transforma em certo chuvisqueiro, daquele tipo que testa a pessoa de bom senso: uma japona impermeável dá conta ou guarda-chuva é item indispensável?

Sendo dilema a ser encarado como mais uma dessas banalidades tão chãs, basta calçar dois pares de meia.

No quentinho, até a tevê fica melhor. A qualquer hora. Mesmo que o cachorro lata que é o seu momento de ir à árvore da esquina, a TV produz calor, sim.

Entre ficar em casa ou zanzar na chuva, sabe-se que muita gente se deixa abalar. Pelo conhecimento que tem de si, a pessoa sensata não desmorona com bobagem.

Quando os tijolos da sensatez não barram os treze graus que a fazem espirrar, é chegado o instante de fazer o melhor. Não é o caso de ignorar a causa da alergia. Nem o chá nem as meias hão de adiar o que precisa ser decidido: ir ou não à farmácia?

O cachorro terá o tronco para batizar por mais uma vez. A pessoa aproveitará para pesar-se. O direito a dar desconto será ofertado pela farmácia. E todos, sem ironia, ficarão satisfeitos.

Ela compra a aspirina. Toma um comprimido ali mesmo. Pede que meçam a pressão. Não desmaiará, mas quase. Vem um espirro atrás de outro. Vai sentar-se na saleta das aplicações. Sente que ruboriza. Pede inalação. Quer que tirem a temperatura. Pede que coloquem o termômetro no sovaco. Ainda bem, não enfiam o treco na boca. Dão uma injeção. Ressaltam que a mais dolorosa tem aquele remédio de resposta ultrarrápida. Deita de bruços. Estranho. Não lhe é dito que a tribal na sua nádega é uma bela tatuagem.

Embora ache que tem nádegas de irrefutável formosura, o juízo da pessoa pede um sorriso. Para que iria se vangloriar de que refeições balanceadas e anos de academia são fatores decisivos para glúteos de boa aparência, seria magnífico se lhe sorrissem.

Há, evidentemente, uma boa explicação para o pug latir que nem pastor alemão. Mal a pessoa o amarrou na lixeira diante da farmácia, apareceram vira-latas cheirar as suas partes bem asseadas.

Já a indiferença de quem precisa fazer a aplicação do antialérgico tem outro fundamento.

Depois de aplicar injeção em bundas dos mais variados formatos, é razoável que funcionário de farmácia nem se comova.

Se fosse pessoa barraqueira, ela iria à gerência. Tintim por tintim, contaria qual a rotina necessária para manter o corpo admirável numa mente admirável.

A esta altura, nem o pug late. A cachorrada se diverte. Não há um cão que não cheire, não seja cheirado, não lamba nem seja lambido.

Pelo tratamento recebido, o cachorrinho vai voltar para casa sem ter reclamações da vizinhança.

Pela pronta recuperação depois de uma sonequinha no banco dos fundos da farmácia, a pessoa poderá garantir que está curada.

Até vir a próxima crise, na semana que vem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de março de 2026.

terça-feira, 10 de março de 2026

Banzai!

 

Banzai!

 

Adorável leitor, para não escrever sobre o Brasil que as pesquisas eleitorais vão configurando, eis uma crônica já publicada:

 

Juiz da situação, cabe-nos dizer que as meninas eram gêmeas, as roupas eram idênticas. Elas não tinham dúvidas: tinham unhas.

E exibiam vistoso laço de fita no coque lateral, no campo direito da cabeça. Para os pés estarem à altura da fineza que estampavam, os lustrosos sapatinhos também chancelavam: duas bonequinhas.

Até pelo modo como cada qual adentrou o salão, eram diferentes. Isso chancelou a nossa distinção.

Com cara de quem está querendo sair correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.

Já que elas eram cativantes, em minutos os convidados estavam ou simpáticos ou antipáticos.

Entretida a contar os feitos da sua prole, nossa jovem senhora se pôs a comer coxinha. Lindamente, falava e lambia os dedos.

Como a garganta secava pelo excesso de opiniões, nosso jovem marido bebia uma cervejinha. Ao que o gás subia das entranhas, não arrotava. Tratava o efeito como pum  o menos ruidoso possível.

Data vênia, nenhum vestido era impermeável à visão.

A mais exuberante na peraltice correu abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo de alegria.

A menos atrevida tratou de fingir direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável da sua elegante figura.

Por nossa graça, admitimos: tecido algum era intocável.

Choramingando, frustrada com a própria incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso que caiu do bolinho. Assim que ela o mordeu, aquilo caiu.

Endiabrada como as coleguinhas, Marina não ficaria tomando refri e usando guardanapo para limpar a boca. Sua energia era gritinhos.

Por rebarbativos: roupagem alguma resiste a traquinagens.

A dupla univitelina largou tudo que fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.

Não adestrado pela coleira de um nome, era um ser fofinho.

Num átimo, Marina e Mariana esqueceram suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para elas.

Que ele não fosse destinado a elas, impossível!

Nem pai nem mãe abalariam a certeza: o cão era vítima.

Aquilo era errado. Precisava ser consertado. Devia. O erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.

Ignorar o caso seria feio, muito feio. Elas não eram feias!

O coitado do cãozinho estava nas mãos erradas. O bobalhão era muito criança. Nem cuidaria do pobrezinho, tão indefeso.

Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha crueldade.

E damos fé: como atinada combatente das mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote; como intrépida heroína contra os vilões malvados, a Mariana quis apoderar-se do animalzinho.

Sem controle, a festa virou gritaria, tapa, unhada, choro, um caos.

Com o pandemônio, a realidade era crianças berrando, chorando, saindo no tapa. Nada mais pastelão: o bolo virou torta na cara.

Se pais e mães não podiam rir, teve um bebê que gargalhava.

E por nossa livre vontade, somos taxativos quando afirmamos que o meninão de nove meses no colo da avó fez o que nunca tinha feito.

Abrindo os bracinhos na direção do cãozinho, disse:

Banzé.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de março de 2026.

domingo, 8 de março de 2026

Cinco minutinhos

 

Cinco minutinhos

 

De repente, a imagem fica travada. Desligo o aparelho. Tiro o fio da tomada. Acompanharei o ponteiro até que se completem cinco minutos ― tempo para a tevê esquecer-se de que houve travamento.

Imagino que objetos têm habilidades. Eu mesmo tenho esta: perco a paciência quando sou testado.

Destravo fácil: vou à varanda. E topo fumar.

Eventualmente, quando a cachola sussurra que sou um sujeitinho bem impaciente, roo a unha.

Assumo o papel. Quero melhorar a minha atuação. E minha boca é um apontador. Daí a unha ficar pontiaguda e restar cotó.

Coitado do mindinho? Qual o quê!

Engraçado, este lápis não me engana: é um rabinho.

Juiz da situação, movo o dedinho. Delibero. Lembro-me do sal com que tantas vezes salpiquei lesmas, lacraias, minhocas e taturanas.

Sei o que os meus miolos não entendiam: a criança que usava o sal como queria ensinará ao adulto que as lesmas e taturanas espumam, morrem e gritam.

Na plenitude dos meus poderes: continuo surdo.

A saída é abrir uma boca. Ou parafusar um umbigo. Vê-lo banguela. De tanto ser lambido, espanado.

Sem rangidos nem prurido, o meu juízo sentencia: é espantoso uma minhoca subir pela fenda afora.

Não sei de pai que não goste de acariciar o próprio umbigo.

Se tem quem use a unha do mindinho para tirar sujeirinhas, por que meu pai não lamberia o dedo depois de cheirá-lo?

Jamais o vi enfiar sal naquilo. Ele deixava o umbigo por dentro da camisa. E todos os botões ficavam fechados.

Eu olhava. Nem relava o mindinho na goela. Argh!

Ao vê-lo enfiar a mão entre um botão e outro, era óbvio que ele não estava meditabundo. Sem piscar, eu corria. Adorava o Batman, e não um Adam West da vez.

Para negar que ele fosse um Napoleão pinel, a camisa combinava com a gravata. Embora a autoridade dele fosse melhor expressa pelo manejo da cinta.

Como nunca usei camisa com todos os botões fechados, a minha bunda sabia o quanto eu devia amar a cinta de papai.

Mas o grande amor do meu pai era café.

Bater na minha bunda com cinta era tão somente uma paixão: batia e pronto. Nem perdia o sono com isso.

Se um aborrecimento o impedia de tomar café quando era hora, eu sabia que ele ferveria o leite. Por gostar de nata, o leite até derramava da caneca.

Sempre que vem à língua a nata naquele copo, tenho mais certeza de que salivar me perturba. E preciso fumar.

Um moço dá o cigarro, acende-o e vai-se embora.

Vendo-o ir pela calçada, minha mente trava nesta ideia: a televisão é o sal que conserva a juventude.

Não há visualização que se apague quando a conexão liga o dedo que aperta o controle à tela em que Ferruccio Furlanetto manda ver a sua “Madamina, il catalogo è questo”.

Sei, sinto e saboreio: Leporello fuma comigo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de março de 2026.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Zunzunzum

 

Zunzunzum

 

Bem na minha frente, sem temer que eu estivesse a dois palmos, tinha um pernilongo na tampa do mel.

Enquanto ele se alimentava de mel, meu dedão tornou-o um borrão enegrecido na digital.

Lavar-me interromperia o desjejum. Numa boa, desjejuei.

Sou um ser humano. Preciso de pão. Coloco fatias de queijo Minas, e mordo com vagar. Não me apresso, deixo que as notícias pululem a partir do momento em que me sentar para lê-las.

Quinta-feira de março, outra quinta-feira de mais um mês de março, terei os meus noventa minutos para ler os jornais.

Não vacilo, é rotina, é meu tempo diário para inteirar-me da esquina, do estreito de Ormuz e da volta de um cronista bom de papo a um dos jornais que assino.

Como afirmei, retorno e, sem dar nó, eu ato o fio rompido: como ser humano que se alimenta de pão integral tão somente no primeiro café da manhã, abocanho-o com moderação.

A porção abocanhada é triturada por meus trinta e dois dentes ― os vindo de fábrica e as próteses. E trituro com satisfação. Fecho os olhos. Divago. O pão que mastigo é produto rico em grãos, e gosto de triturá-los com os dentes todos. A maçaroca na minha boca é jogada pra lá e pra cá, porque sou o comandante em chefe da mastigação.

A minha neta corta o meu barato.

Ela diz que o militarismo embrenhou-se no cotidiano. Uma pessoa pacata ― que nem eu ou a que eu imagino ser ― nem percebe o quanto está a serviço da indústria militar, cuja visão bélica, no entanto, torna o Leviatã um monstrinho em pele de lobo.

Ana Catarina, a neta que imagino ter, diz que lobo são animais que precisam de proteção. Não todos os lobos, segundo ela.

Um torpedo que afunda uma fragata é o tipo de lobo que já deveria estar extinto há décadas, cem anos, mil anos, desde Caim.

O drama em curso vem de antes de Caim. Quando o sapiens riscou nas paredes de uma caverna os primeiros bisões abatidos, começou a cruzada da nossa espécie contra as demais.

― E contra si, vovô?

Poxa. Foi por impulso que abri o celular. E Lascaux existe.

Pra tomar café comigo, neta minha fica bem mais interessante com sutileza tão somente sua. No caso, Ana Catarina tem a idiossincrasia de falar como se houvesse nascido em Piracicaba.

É fluente. Comunicativa. De bem consigo, comigo e com a torcida do XV. Justamente por seus erres sugerirem que foi criada no Paredão Vermelho, às margens do Rio Piracicaba, na Quinta da Rosa Barroca, nessa chácara que inventei só para ela.

Se não mata pernilongo, ela come tilápia do jeito que for: em tirinhas cruas, frita, assada ou ensopada. Sendo tilápia, ótimo!

Com zunzunzum, Ana Catarina, este lobo deixa outro pernilongo na tampa do mel. Ele que viva pra sugar mel, seiva de samambaia, até o meu sangue.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de março de 2026.

terça-feira, 3 de março de 2026

A pitada de coentro

 

A pitada de coentro

 

Eu estava sentado. E queria continuar sentado.

O que não acarretou menoscabo a quem me mostrou sua caixinha de balas. Na voz do vendedor, meus ouvidos não captaram entretons.

O que me fez comprar as balinhas foi singelo: se alguém que tira o sustento do próprio esforço não tentou me convencer de que a minha boca teria que ser solidária, essa pessoa estava mais abatida.

Puxei conversa.

Por lógica elegante, encadeei: ele e eu estávamos esgotados; ele vendia balas e eu matutava esta crônica; por causas distintas, um ao outro, nós nos entretivemos.

Ele contou que às sete já estava trabalhando. Tinha de aproveitar que o sol ainda não estava forte. Já que a pernada da casa ao centro era puxada, ele corria dos cães que atiçava.

Para abordar as pessoas fora da padaria, ele vendia três salgados pelo preço de dois. Nem assim rendia.

Ele já não tinha mais de uma garrafa térmica. Quando vendia café, tinha de ir e vir de casa com o café tirado na hora. E perdia tempo.

Com duas garrafas, houve uma época em que o seu pai ia e vinha com o café quente. Bastava pegar a cheia.

Das duas, a avó vendeu uma. E o seu irmão ganhou um bolo.

― E nem era o aniversário dele. Se morasse com a gente, a minha mãe impediria uma burrice dessas.

Isso não ajudou a aumentar as vendas. Mas os salgadinhos eram feitos pela sua avó.

Por causa do coentro seco, o que mais vendia eram os quibes. Os simples e os recheados com requeijão. Os simples vendiam bem.

Os dias de feira eram chatos, ele tinha que acordar às seis. Como as pessoas gostavam de garapa, junto elas comiam bolovo.

― Com garapa, mais gostoso é pastel. Só não falo pra ninguém.

A sua mãe foi embora. O pai dizia que a cama de casal ocupava muito espaço. A avó vivia a defender que o beliche juntava os netos. Ele nem sente tanto frio, já que a sua avó faz sopa na janta.

Já a sua mãe...

― Se ela fazia sopa, eu não lembro. Ela deixou a gente quando eu tinha três anos. Só lembro da vez que me pôs no colo. A gente andou no carrossel.

Na melhor vez que andou no carrossel, uma prima o beijou.

― Não foi beijo de boa noite, arrepiei de tão gostoso.

Por causa das festanças da emancipação do município, na cidade estava montado um parque de diversões.

Ele ficava babando era com o bate-bate.

― Todo ano, saio batendo o mais que consigo. Nunca enjoo. Pode ser que um dia eu pare. Quando ficar mais velho, não sei do que vou gostar de fazer. Só vou saber quando eu tiver quinze anos, né?

Disse-lhe que gostava de nadar. Divertido pra caraca era fugir. Era uma barafunda dos diabos. Correr, vestir-se e não olhar para trás: era muito engraçado escapulir dos funcionários do clube.

― O senhor nadava onde nem era sócio?

Até pensei em falar que nadava pelado, mas veio um freguês.

O homem comprou as dez balas da oferta do dia. Do outro lado da rua, uma mulher acenou. E lá se foi o insípido.

O rapaz não azedou. Nem foi tinhoso:

― Tenha um dia bom, senhor.

Olhei no relógio. Eram onze e meia.

― Valeu o papo, rapaz.

Escrevendo isso aqui, vim temperar o meu cansaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de março de 2026.

domingo, 1 de março de 2026

A fila manda

 

A fila manda

 

Lá vem o cronista falar de acontecimentos prosaicos. Aos mísseis contra escolas, sabão e leite. De novo, ele toca a sua flauta para que as palavras fiquem organizadas. Outra vez, o escriba do chão da vida piscará que as entrelinhas sangram.

O seu método é sentar a bunda, escrever e, terminado o trabalho, deixar-se à vida. Por três vezes na semana, põe gosto de indicar que a vida é isso, e isso passa.

No batidão irreparável, a crônica trata de reciclar clichês?

Foi o que houve ontem. Ele preparava o almoço. Tinha a frigideira, o fogo e o bacon. A campainha soou. A prioridade ficou sendo ir ver o que queriam. Na volta à cozinha, teve que abrir a janela.

Como o contratempo o chateou, largou o que podia terminar. Saiu. Não tinha bacon onde almoçou. Na televisão, tinha as medalhas dos generais.

Já que houve dias que era preciso usar uniforme, reconheceu uma das suas professoras. Ambos com rugas. A rua nem reparou.

Ela disse que dirigir não era um problema. As confusões surgiam por causa do controle do alarme: o dono corria impedi-la de levar o carro que nem era dela.

Por falta de carro, o cronista tinha pés. Se dirigia pra onde queria. Podia inventar uma finalidade de momento.

Que alívio. A cidade levou-o ao endereço exato.

Sem drones a marcá-lo, entrou na farmácia. Comprou o que tinha acabado. Incluiu dois itens em promoção: lâmina de barbear e band-aid. Como não é alvo: não fez a barba ali mesmo.

Por conta de uma antologia que anda preparando, passou a tarde reescrevendo. Risca daqui. Rabisca dali. E a guerra continuava.

Os pernilongos deram a deixa: as janelas ainda estão abertas.

Atento aos pernilongos que têm voz quando precisam ser ouvidos, fechou as janelas, ligou o repelente e foi tomar banho.

A irritação sumiu com a água; os fios de cabelos, não.

Depois de limpo, o ralo tascou-lhe:

― Vai, amigão. Com a coluna em pandarecos, tente fugir do xis na sua testa.

Antes o tivesse ouvido. Uma vez desafiado, pôs-se ereto. O tal xis havia se deslocado, ao estralar: dói a cerviz. Agora ereta.

O ralo? Ora essa. O ralo fez o que um ralo fanfarrão sabe fazer de melhor: gargalhou.

E gargalhada assim faz o palerma se mijar. O cronista não mijou, ele tinha trabalho a fazer. Aí, mijou. O xis que vá pro caramba.

Achando que podia sentir-se aliviado, o cronista escolheu encurtar a travessia. É sério. Ele não tem preparo mental pra vestir a carapuça de salvador do mundo. Ele escreve, e não se salva.

No supermercado, a professora da véspera recomenda o seguinte procedimento: compare-se este produto com os concorrentes, leia-se os rótulos e a escolha seja feita pelo que é avaliado menos danoso.

Ao abrir a carteira, a nota ignora o cronista.

A caixa pega a nota, verifica se a onça é verdadeira e dá o troco.

Antes que ela o chame, o freguês seguinte se adianta.

Até o general da tevê sabe de antemão: é óbvio falar que a pressa tem sempre razão, só que mais rentável é vencer.

Honra ao mérito?

O xis da questão: os mísseis não erram.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de março de 2026.

 


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O bom ouvinte

 

O bom ouvinte

 

Falo ao telefone. O meu amigo e eu deixamos de fora da conversa os pormenores disso e daquilo que fizemos ontem. Gostamos um do outro. Não nos aporrinhamos. Piadas surgem sem forçarmos. Rimos. Somos leves. O nosso papo termina sem anunciarmos o que faremos. Só replicamos: até mais ver.

Como o telefone toca em seguida, disparo contar-lhe que havia me esquecido de comentar a decisão de um amigo nosso.

Ele me disse que iria tirar férias.

Contou que passará uma semana nas Minas Gerais. Acrescentou que a chácara fica no interior. Disse um nome de cidade que me soou inventado: Maquiné.

Como eu queria que a conversa fosse espirituosa, fiz graça. Ele não gostou quando perguntei se o dono era vampiro. Paciência, eu não tive como me segurar. Além de ficar num lugar cujo nome é trocadilho com “máquina”, a propriedade era Sagarana.

Para me fazer gargalhar, o proprietário se chama João. Ele trocou a medicina pela pecuária. Ele tem vacas, bois. O meu amigo é tinhoso. Deixou o ápice para o fim: o dono da Sagarana, destes palmos de chão de Maquiné das Minas, esse João que trocou o consultório pelo pasto, é sua maestria com a palavra que o faz famigerado como o demo.

― Deixe de disparate! Só porque ele também é diplomata, você não tem que confundir o João com o Guimarães Rosa.

Tratei de falar sério. Mostrei-me curioso. Não fui irônico ao afirmar que o tal João deve ter trocado o estetoscópio por um berrante porque os seus pulmões têm potência. Em vez de auscultar as cavidades das gentes, agora ele gosta de se fazer ouvir por bestas e abestados.

― Pare com pilhérias. O João é um homem prestimoso.

Dia ou noite, muitos aflitos procuravam-no para que desse cabo de certa doença. O mal se espalhou rápido. Gente pobre e gente rica, toda gente viu-se afetada.

Ele olhava nos olhos. Dizia que “cefaleia” e “dor de cabeça” eram a mesma coisa. Lembrava que mãos sempre têm que ser lavadas. Dava copo d’água pro remédio ser tomado na hora. E entregava a cartela do analgésico. Passando os polegares sob os suspensórios, o João nem cobrava pela consulta. Sorria, e pronto.

Um homem maravilhoso, esse João.

Se não tivesse ligado de volta, eu perderia a chance de lhe falar a verdade. Nós sabemos que estas “férias” não programadas deviam ser tratadas como “tratamento de saúde”. É mesmo! Já que a cidade toda jura que ele anda “mal das pernas”.

― Ei! Você escutou? Eu disse: mal das pernas!

Finalmente, a mulher pode falar:

― Senhor, estamos ligando porque temos uma oferta que é válida apenas se for aceita durante este telefonema.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O beabá

 

O beabá

 

Dedo a dedo, ela contava em voz alta. Para a contagem não acabar errada, usava o indicador.

Como a caçula sorria ao bater outra vez o dedinho em cada um dos dedos da outra mão, a irmã achou-se mais esperta.

― Sabia que eu sei contar até dez?

E demonstrou como. Com o indicador de ambas as mãos, foi do um ao dez. Confirmou-se: ela tinha mesmo dez anos.

A menina de cinco anos, porém, tinha muito mais imaginação. Quis o mundo ordenado, conquistou-o: havia cinco postes até a praça, cinco lixeiras até a padaria, cinco degraus até o dentista.

Por causa da injeção, ela odiava ter dor de dente.

A irmã que sabia contar até dez resolveu. Iria ampliar o mundo que a menor considerava completo. Ou iriam rir da sua criancice. Sendo mais velha, mais experiente.

Assim, a garota de dez anos falou que a rua tinha dois lados. Cada lado tinha dez ruas. Pela direita, se não errasse o caminho, dava para chegar na casa da avó e na igreja. Indo pela esquerda, a gente até chegava na escola, só que a padaria ficava no meio do caminho.

― Não existe padaria que não venda pão de queijo.

― A tia falou que cinco reais dá prum montão de pão de queijo.

A maior disse que a vida era mais bonita se a gente tinha dinheiro para comprar pão de queijo. Além de dois lados, dez ruas, a igreja e a padaria, havia a praça. Só que ninguém jogava moeda no chafariz.

O lugar mais gostoso de ficar era a praça. Tinha bancos. Não tinha apenas pombas. As andorinhas e bem-te-vis cantavam. O passarinho mais bonito era o joão-de-barro. Ele fez a sua casinha no ipê amarelo. Tinha muitas árvores, só que precisava das tias para varrer as folhas. Só o ipê tinha as flores mais bonitas, tão amarelas.

― Cê precisa ver como a árvore amarela é linda, Claudinha.

Claudinha estava espantada com o tanto de coisa boa que a irmã dizia. Ela conhecia bicho pelo nome. Assobiou que nem o bem-te-vi faz e voou igual ao joão-de-barro. Se voava de braços abertos, ela era que nem o próprio passarinho.

Só que até passarinho voa com gritaria. Ora, que gritaria...

Quem chegou foi a irmã mais velha de todas, a Carol.

O tio dizia que ela era melhor que uísque. A menininha não achava nada disso. O tio bebia uísque, ela nem tinha doze anos para já poder beber.

O tio levava a Carol para tomar sorvete. Ela nem tinha que esperar que fosse sábado. Podia tomar sorvete quando ela quisesse. Bastava pedir. O tio nunca deixava de fazer o que a Carol queria.

De uns dias para cá, a Carol deu de vomitar. Falavam de pizza, ela corria. Passava na tevê que bandido foi morto, a Carol virava chorar. E ela vomitava quando o baleado era policial.

O tio vinha de ônibus, porque morava muito longe.

Ele não tirava a roupa da farda. Com o ônibus lotado, ele protegia o motorista. Quando a nota era grande, o motorista não tinha medo de dar o troco. Até por causa da câmera, o tio podia ficar na escada.

A menininha não andava de ônibus nem sabia desenhar.

Um dia ela vai saber qual é o ônibus certo ― falou a tia de todas as meninas e todos os meninos que desenhavam quando ela entregava papel e lápis de cor.

A Carol não desenhava. O tio deu pra ela um diário.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de fevereiro de 2026.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A velha canção

 

A velha canção

 

Quando eu via filmes no cinema, achava constrangedor sair antes da fita acabar. As pessoas ficariam comentando. Nem bem eu entrasse na padaria, viriam dizer que o final do bangue-bangue foi ótimo.

Pena o herói ter ido embora sem levar a mocinha junto, né?

Né!

Foi-se aquele tempo de sessões de cinema às sextas. Depois tinha a pizza do outro lado da rua. A gente criticava quando o disparate era tamanho que acabava estragando a nossa compreensão.

Aquilo de entrar no avião sem pedir que o galã assobiasse a canção que era só deles, ora, falta de romantismo num filme de amor...

Francamente!

Para ser honesto, acho bom viver o meu tempo. Porque hoje temos o privilégio de ver filmes sem pegar garoa, pagar pela pipoca e falar baixo quando fala ao celular.

E o streaming tem mais esta vantagem: série ruim a gente assiste a todos os episódios de uma vez só.

Assim que percebe que a mocinha vive pedindo para o amor da sua vida ajudá-la quando está metida em enrascada, o jeito é fiar-se de que o mal-estar será maior se não postar comentários negativos no máximo no início da madrugada.

Bem na hora que o pessoal estiver voltando da pizza, ali pela uma, a notificação vai alertar: a série do momento é um lixo que nem vale a pena de ser vista.

Pronto! Agora a turma vai assisti-la até o dia amanhecer.

Levanto cedo, cedinho, corro pro celular porque o mundo precisa ser comentado antes que os outros o façam.

Leio muita coisa. Critico sem parar. Minto, a vida chama: paro.

A vida? Veja só que interessante...

Isso de ter que andar apressado ꟷ já que agora é tempo para viver apressando os outros e a si mesmo ꟷ é tolerar falhas no roteiro.

Como se a vida precisasse ser coerente, plausível, acelerando pro desfecho: inteligente, necessário, maravilhosamente humano.

Já o amor faz doer pelo que falta, pelo que faz falta. Sim, tem certas ausências que estão tão presentes que desnorteiam.

No instante que a gente se vê desnorteada, pedir a canção do amor da nossa vida é o melhor a se fazer.

Feito!

Hoje mesmo. Agora há pouco. Aconteceu.

Eu descia a rua. Vinha com as sacolinhas. Tudo ia bem até que um garotão e eu nos emparelhamos na calçada.

Enquanto eu vinha do supermercado pra minha casa, o adolescente ia adiante. Só que tenho pernas maiores que as dele. Embora eu tenha passadas mais largas, o rapazote nem liga para suas pernas curtas.

Chato ou não, gente de passada maior chega na frente.

Quando tinha a idade dele ꟷ uns doze anos ꟷ, eu já sabia que o mundo sorri quando sorrisos dão espelho à alma.

E a alma do garotão não pedia selfies, pedia games.

Brincando com as sacolinhas, jogando-as pra lá e pra cá, ele tinha aquela leveza que eu também tenho.

Achei mais divertido encurtar as passadas, desacelerar, e passei a sorrir. Mesmo que não estampasse no rosto, eu sorria, sim.

De orelha a orelha, sorri quando ele olhou pra trás: vitorioso!

Com passinhos curtos, respiração nada ofegante e a sensação de que faço menos quando posso, entrei em casa assobiando:

Nada do que foi será do jeito que já foi um dia...


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2026.