Sincericídio
Veio um buraco cruzar o meu caminho, mas
sua agilidade foi menor que a minha. Um calãozinho após o susto de pressentir
torcido um pé, vou sentar. A praça calha-me à pacificação da cachola desacorçoada.
Qual é! Não me tranquilizo da consciência que ostento, pois ela me faz dado a
dores por antecipação ꟷ que o buraco seja mais fundo.
Estaria torcido o tornozelo se andasse
preocupado em não fazê-lo, provavelmente daria o ridículo de estatelar-me. Entretanto,
pego nesse ligeiro desequilíbrio, frustrei o buraco ao gingar para não cair.
Os joelhos congratulam-se comigo, uma
vez que estou safo de tê-los ralados. Mesmo sem arranhão, afinal insisto que,
sempre, não caí, mancar da canhota foi patético. Os joelhos merecem a
confissão, sim, manquei um pouco, sim é bem verdade, manquei por uns metros.
Sentado, avalio as carnes acima do
calcanhar. O veredito é preciso: sem nada quebrado, o andar cambaio fez-me gente
cujo charme sabe condicionar-se vulnerável aos acasos da realidade.
Não que esteja decidido a pensar no
assunto, essa é, ao contrário, daquelas circunstâncias em que o assunto delibera
que será refletido pela pessoa que nem se perceba disposta.
Quer a realidade que a revele o quão
caótica ela pode ser?
Sei ser pela ponderação. Conservo a
sensatez. Ainda que sensível aos calos que tenho cultivados nos pés, eu não descalço
os sapatos.
Em síntese, o rebuliço é por conta do
cão que corta a praça.
O animal corre, late, mas sua diagonal é
retilínea porque ele não se projeta sobre as pombas, que voam tão logo latidos são
ouvidos.
O alvo do vira-lata é uma criança, que
para de chorar assim que se aproxima aquele bichinho tão peralta, brincalhão,
bagunceiro.
A menina é lambida na boca, mas a babá
não tem como desanuviar o olhar porque as tantas notificações não param de
soar.
Se não fosse pela repentina vinda do
cão, cujo companheiro de rua, embora o pulguento tenha tomado rumo diverso do seu, não deixou de fuçar cada uma das lixeiras, mas, sem a súbita aparição do
sapeca, eu justamente não trataria das pombas.
Sem interesse, não as veria bicando o
chão da praça. Sem remorso, eu especularia sobre bitucas e garrafinhas bicadas.
Todavia, havendo culpa, por não mais ignorá-las, as pessoas capazes desse descarte
de bitucas e garrafinhas estariam materializadas no ressentimento.
ꟷ É verdade, tenho sorte. E a convivência
com gente sortuda ajuda a melhorar a vida. Agora, quem anda carente de energias
positivas tem que conviver com gente iluminada pelo maior tempo possível.
Diz ainda o andarilho:
ꟷ A pessoa quando é sincera não tem que
ter vergonha da pessoa honesta que ela é, porque o povo não tem que ficar com
raiva de quem não chora por besteira. Eu mesmo sou de rezar o tempo todo, mas
não tenho que ser grato pelo pão achado no lixo.
O andante assobia, o cão late ꟷ ambos
dobram a esquina.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2023.