O
cara da calha
Você não pensa que afetar indiferença
aos cartazes que lhe gritam preços promocionais seja atitude de gente sábia. Sem
comprometer as comichões por bugigangas, inteligente é garantir o que precisa.
Pelo que sabe de si, você não vai às
compras só quando precisa, pois isso é coisa de quem se sobressai pela burrice.
Predisposto a desperdiçar as pechinchas,
o burro enche o peito ao desdenhar dos mercadores, cujo maior dom é apresentá-lo
a carências que lhe transcendam o figurino de pessoa esperta.
Logo você que pira na batatinha com
Black Friday e saldão da Black Friday, evoé!, não se avie um bobalhão por suas
burras cheias.
Pessoa em dia com as necessidades do seu
tempo, vá às compras como quem zanza por entre as gôndolas sem dar azo às
gentes que o tomam por ensandecido.
Não seja fiel a mais ninguém que não
seja você, zanze. De lista na mão, por obediência aos caminhos propostos de
próprio punho, siga zanzando. Mas, não se puna que o feijão esteja num lado, a
margarina noutro e o sabão líquido entre essa e aquele.
Se for do seu agrado condescender, ao
passar batido pelas ofertas, alegre-se. Não faça onda para pegar pacotes de
batata, rejubile-se. Se o saldo permite, ao menos dessa vez, seja uma pessoa
abusada.
É preciso entrar no espírito da época
para sentir-se bom, revelar-se uma pessoa boa entre pessoas boas. E pessoas
boas sabem que faz bem deixar-se ir além de listas e promoções.
É tempo de celebrar, é Natal! Outra vez
é hora de alegrar-se pelas alegrias que possa proporcionar, é Natal! Novamente
é o momento de não se envergonhar por ser uma pessoa generosamente feliz,
alguém incapaz de cometer loucuras em nome da felicidade, que é Natal!
Porque a hora é agora: vá aos panetones.
Veja quantas marcas, são tantas.
Verifique os preços, há panetones caros e baratos. Seja paciente, leia os
rótulos. Confira a quantidade de gordura trans, o quanto de açúcar, de sal. Há
panetones trufados. Tem aqueles com cobertura. Há chocotone de chocolate
branco. Panetone de limão siciliano. E panetone salgado. Mas panetones com uva
passa e frutas cristalizadas, esses são os tradicionais.
Não se deixe enganar, você é tradicional.
Você compra sempre a mesma marca. E faz
questão de ser aquela que na sua casa era comprada porque, basicamente, ela
nunca foi de dar azia no bolso dos pais.
Criança, você sabia que panetones davam
na época do Natal, que no forno crescia o peru que miraculosamente rendia por
uma semana, e, não menos relevante, você tinha o conhecimento de que as árvores
precisavam de ser montadas pela família.
Criança graúda que não redige cartinha,
assim como tem gente que diariamente leva seu pet depositar fezes de poste em
poste, você sabe aguardar a vinda anual do cidadão, cujo saco apinhado de bugigangas
fá-lo detestado pela obstrução da luz da calha.
Pra que a chuva passe, reze.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2023.
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