domingo, 3 de dezembro de 2023

O lado verde da força

 

O lado verde da força

 

Desculpe-me, Zeca, mas tentei. Nas tantas vezes de meu empenho em não me orgulhar, maior o desastre. Se meu raciocínio não me pega em uma de suas artimanhas, sou capaz apenas de não me envaidecer de minha resiliência.

Desculpe-me, Zeca, jamais tentei ludibriá-lo de que me envaideço do orgulho pelo que faço. Ainda que muitas vezes tenha falhado, ainda assim, falho e fracassado, quando erro, e admito ter errado, tento não me esforçar em vão.

Quero entender o passo em falso; busco pelo ponto em que a falha está. Quero compreender o tamanho do que me põe impactado; busco a lógica que me faz estranho à razão dos malogros. Quero mensurar o tanto que há de arredio à minha especulação, procuro a razão atrás da racionalidade. Quero alcançar a origem das falhas, não busco dominar-me para que eu erre menos; quero saber de onde vem tal impulso. Não errarei menos e, por óbvio, sentir-me-ei seguidamente orgulhoso.

Acho interessantes as pessoas que vivem em função de propósitos definidos, mas, a elas, só fico interessante quando estanco diante das encruzilhadas: há caminhos que me levam a considerar que posso agir com agilidade e, como fezes repousando no bronze, há estradas pelas quais ponho-me devagar.

Contemplo-me, logo sou reflexo às veredas em que vejo e àquelas em que me veem. Contemplo que não me vejo representado em efígie, um figurante, apresento-me, porém, feito figura, escultura a configurar-me passível ao efêmero.

Desculpe-me, Zeca, veja-me pelo que esteja visível, pois eu mesmo não me esmero em desvelar o que nos esteja interditado.

Apesar do guarda-chuva, está em sopa por que precisou comprá-lo às pressas ou tomou banho de roupa?

Pede-me um exemplo menos absurdo? Dou-lhe.

Zeca, desculpe-me que o admoeste pelos arrotos. Você perceberá no seu arroto o cheirinho de café; no entanto, só você dirá que o tenha tomado na cozinha da sua casa ou se foi na padoca.

Dá-lo a você, Zeca, faz-me repassar o que havia dito.

Tiro as fezes ao bronze; troco isso pela poeira n’Os Candangos em madeira na mesinha da sala.

Uma vez que a janela da sala está fechada, estará a lembrancinha suja por que não é limpa há semanas ou só bastou a ventania de ontem ter entrado pra tê-la deixado imunda?

Desculpe-me se o aborreço, mas há arrotos que escapam enquanto fala e aqueles que vêm do refri, a esses você tem que dar escape para que não causem mal-estar.

Não quero nem falar daquele cheiro do escapamento que gruda na garganta. Tussa na hora, pois esse ar tóxico é muito fétido.

Em vez de motor a gasolina ou diesel, escolha um elétrico. No caso da eletricidade, prefira a produzida por usinas eólicas ou solares, pois energia de hidrelétrica não é genuinamente verde, sim, represamentos agridem o ambiente.

Parado na garagem estou isento da sublevação climática?

Outrossim, Zeca, eu te perdoo.

 

Seu Fusquinha,

Garagem Gaia, dia 03 de dezembro de 2023.

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