terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Um pedido

 

Um pedido

 

Assim como pessoa que não perde novela é chamada de noveleira, ao vibrar com queima de fogos do Ano Bom e chorar ao abrir presente de Natal, pois bem, entendo quando me chamam de festeiro.

Não haja dúvidas. Mesmo que algum desmancha-prazeres apareça querendo abrir champanhe; mesmo que surjam baladeiros oferecendo carona; mesmo que postem as desgramas de outro ano ruim: nada me demoverá de fazer coro à contagem regressiva.

Contarei com euforia porque descontarei as estripulias.

Embora a natureza tenha reservas quanto às variações de humor, tenho ciência de que respondo bem às leis da física, uma vez que estou em sintonia com o universo.

A natureza arbitra a partida?

Haja vista que não privo comigo com cristalina naturalidade, é bem provável que cometa pênalti quando desembesto pro ataque.

Dizem que no centro da Via Láctea há um buraco negro, palpito que à deriva em mim vive um abismo obscuro. Como não faço ideia de que maneira meu inconsciente reage aos estímulos cósmicos, posso muito bem estar detonando a terceira lei de Newton.

Recordando os ensinamentos: é fato que buraco negro não fica fulo com prospecções amazônicas em Essequibo, todavia o petróleo altera termodinamicamente a fornalha terrestre.

E no jogo da grana a todo vapor, na área adversária onde verdinhas crescem mais do que grama, quem toma falta é o árbitro.

Desolado do futuro: saia a euforia, entre a embriaguez.

Beberei no gargalo o champanhe aberto por descuido. À vera, terei cuidado ao acompanhar pela TV o que estiver no ar. Enquanto houver felicidade no meu sangue, serei feliz. Não farei por menos, pedirei com ardor: o Sol não tarde, a Lua não suma, não me falte luz.

Que venham os amigos. Que tragam guloseimas. Comam e bebam. Darei o que tenho. Darei o que possa comprar. Que me entreguem em casa. Que trabalhem mais um pouco. E cobrem mais, que isso não tem importância. Amigos merecem o melhor acolhimento. Saibam, amigos, vocês são queridos e sempre bem-vindos. Saibam, não haverá futuro se não for agora. Que o presente seja desfrutado no momento.

Neste instante, encho o copo. Tenho água sem gelo, bebo-a assim mesmo. Já um segundo depois, talvez não haja água, mas o desejo de saciar-me seguirá ao meu dispor.

Pelo que sei, sou um tanto romântico, sentimental, até mesquinho, mas nunca fui de lastimar o que tenha deixado pra trás.

Ao olhar pra frente, solto-me à ideia de que os celulares inteligentes poderiam trazer instalado um aplicativo que acompanhe metro a metro a localização dos amigos.

Eu começaria a pensar em trocar de roupa se um deles estivesse a trinta metros da minha casa. Eu correria afofar almofadas se um deles estivesse a dez passos da porta de casa. Daria minha face se um deles estivesse ao alcance de um beijinho.

Quer saber o que eu acho?

Para não ficar devendo outra, aplique-se na ideia, Santa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2023.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Acurácias

 

Acurácias

 

Sem pesar conveniências, durmo de luz apagada. Se pesasse, diria que estabeleço tal condição porque conheço o funcionamento do meu corpo. Se corro as cortinas, diria que preciso ter controlado o ambiente ou alarmar-me-iam quaisquer barulhinhos.

Até escrever o parágrafo acima, eu ainda não tinha reparado que o melhor que faço é assumir titubeios. Se não tinha reparado, mas, agora que contradigo, percebo as ideias que sorriem. Franzo a testa porque hesito, pigarreio porque o ruído acalma, mas, agora que sigo reparado no que digo, sorrio ao próximo parágrafo.

De cortinas cerradas, porta trancada e pálpebras pesadas, dormirei até que o despertador retorne-me às indecências do mundo.

Porque indecente é o tempo que gasto para lavar atrás das orelhas, cinco minutos. É também indecente o tempo pro café com pão, outros cinco minutos. Sou esse indecente a quem concedo cinco minutos para escova e fio dental.

De banho tomado e café bebido: em quinze minutos, estarei apto a ser conduzido pelas brutalidades da vida, escutarei seduzido quem se diga brutalizado, estarei a postos como camarada bonzinho.

E serei brutal na seleção das notícias que lerei, pois o tempo é meu e não vou monetizá-lo com botox, bronzeamento artificial e silicone nos peitos. Nem pior nem indiferente, serei eu mesmo, porque há trabalhos que não protelarei mais do que já os tenho adiados.

Já que mais uma vez serei informado que humilharam pessoas que vivem sendo humilhadas em aeroportos brasileiros, ainda que amealhe curtidas de quem não lê o que curte e não curte o que lê, postar-me-ei um camaradinha mui revoltado.

Violentarei ansiedades, pois as previsões indicadas para o dia não surtirão o efeito de orientar-me. Violentado na esperança de viabilizar as melhores escolhas, tolerarei: se der cara, tomarei as porradas que me corrijam a falta de brio pra defender quem pede ajuda; se der coroa, serei gentil ao afirmar que bailarino não dá voadora, faz balé.

Em nome da estabilidade entre os setores, ponho reparo: parágrafo veio, parágrafo foi; isso é coisa bem hesitante. Todo hesitado, espio as palavras que desnudam o bocó que balança, balança, e cai.

Caído na lábia de quem?

Luisinho, sempre ele, diz que o ator Matheus Nachtergaele disse no jornal que o chapéu usado no filme Auto da Compadecida tinha sumido e que urdiram uma cópia pro filme Auto da Compadecida 2.

Luisinho, sempre o mesmo, diz que o João Grilo, por suas alegrias dramáticas e diatribes cômicas, entrou num arrepio danado porque lhe é difícil desencarnar-se de personagem tão querida, adorável, redonda feito o Matheus Nachtergaele.

Luisinho, ele próprio uma pessoa tão simpática, diz que acharam o tal chapéu empregado no primeiro filme e que, aliviado pelo encontro do original, o ator compôs o arguto:

ꟷ Não precisava ter chorado, garoto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2023.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A modéstia

 

A modéstia

 

Sem tempo, que seja agora. Na falta de cálice, bebe no copo. Com vinho à mão, nem pensa em uísque. Enquanto for agradável vivenciá-lo sozinho, o momento basta. Sem pedir que seja fácil vivê-lo, a garrafa rege o presente. Havendo vinho, o tempo não passa. Sendo fácil digeri-lo, é aprazível bebê-lo. Para que permaneça, o instante não para. Gota a gota, a memória sedimenta o momento. O corpo reage: não resta um gole; o copo está intacto; não se cortam as mãos que não tremem.

Depois do vinho, venha um charuto.

Poderia deixar a sala, mas o charuto fica melhor quando fumado na poltrona. Já que não há poltrona na varanda, abre a janela. Solta anéis de fumaça. Incomodado com a brisa, fecha a janela. Bafora a fumaça contra a janela. Insensível, o vidro não se deixa defumar.

Sem sucesso, apaga a luz. Volta a sentar-se na poltrona. Acende o abajur. Não pretende ler, mantém a lâmpada acesa para que os anéis subindo sirvam de distração. Enfim, põe-se à vontade.

Não que haja graça no modo como as lembranças vêm; engraçado é ter começado a fumar sem nem mesmo saber como fazê-lo.

Começou tossindo. Principiante, querendo desfrutar das delícias de um charuto, quis fumá-lo depois do almoço. Acendeu-o e tragou-o, foi assim que tossiu. Tanto tossiu que passou mal. Acreditando que o mal-estar fosse decorrente da bateria de tosses, tudo girou e escureceu de repente. A sorte é que não estava em pé. Se precisou de balde e pano para limpar o chão, o tapete foi para o lixo.

Depois dessa experiência, nem cachimbos são tentação depois das refeições. Deliciando-se com as baforadas, fuma sem susto. Fumando sereno, aprecia a tepidez. Gosta de sentir o calor vindo aos lábios. Um tanto à tarde e outras baforadas à noite, fuma um charuto por dia. Não que viva pelo prazer, embora fume todos os dias.

Sem petulância, conhece os limites pelas limitações às quais debita simpatia, mais, deposita-lhes respeito, pois a alegria que prepondera é um sentimento de gente sóbria, algo próximo da jovialidade.

Contente, nota que não precisa agradar-se. Ainda que não saiba o que deseja, desconfia do que pretende. Quem sabe queira o que regue a mente, satisfaça apetites, estimule a experimentar-se pelos sentidos.

Não bebe enquanto fuma, mas nada impede que isso mude. Ainda que beba durante as refeições, crê que a digestão será complicada se fumar um charutinho logo após as refeições. Mas nada sugere que não possa tomar uma garrafa enquanto houver brasa pra fumar.

Fuma e bebe, mas percebe-se igual. É a mesma, pessoa que bebe e fuma até que o vinho e o charuto acabam sem que sinta precisar de mais vinho e outro charuto. Ainda que jamais tenha arriscado beber e fumar ao mesmo tempo, segue sendo a mesma pessoa.

Sabe-se, tem a mesmíssima mente, cujo sono nada faz para castrar a baba, abafar os sonhos ou camuflar as repugnâncias do bafo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2023.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

A estrela

 

A estrela

 

Ele não acordou às seis, foi despertado três horas antes; e que bom ter sido tirado do sono por uma iluminação deveras inspirada.

Pela primeira vez na sua vida, Aristeu não tinha motivo para duvidar de que fora acordado no meio da noite por causa de alguma coisa boa, que era boa coisa porque o transformaria de maneira definitiva. Afinal sonhara com algo que efetivamente lhe extirparia dos caminhos aquilo que, no miserê de cada dia, sempre o abismava.

Recordou-se de um dia, de uma situação específica.

Tal circunstância não deveria ter acontecido como foi. O futuro que tivera nas mãos desmilinguiu-se com a chuva. Na condição de volante de loteria, a felicidade sucumbiu ao aguaceiro.

Da aposta desfeita resta a dor que o angustia, ou não teria acordado nessa madrugada que não era apocalíptica, não era infernal, era outra madrugada calma, enluarada, de piados de corujas e sem-fins.

Bem sabe quem sofre, angústia existe para ser acalentada.

No caso, Aristeu estava decidido a mudar de vida. Com os números surgidos do sonho da madrugada, ele entraria na lotérica sabendo que rupturas dependem da sorte não confrontada.

A sua aposta haveria de embelezá-lo aos olhos de quem o sempre vira como um pacóvio de dentes amarelados.

Com a bufunfa da bolada, clarearia os dentes, atacaria os cariados e implantaria o alinhamento que arrancasse arrepios.

Olho Gordo, Aristeu quer ser invejado pela beleza instituída.

Aristeu servirá de modelo a quem haverá de louvá-lo pela ousadia de ser bonito. Ele não temerá os olhares de gente que ainda insista em recapitulá-lo apagado na feiura que afortunadamente estará extinta, já que era máscara inapropriada à alma tão ardente, a que era a sua.

Lá atrás, diante do destino, Aristeu calou-se.

Sem guarda-chuva, Aristeu saiu temendo que a chuva molhasse o volante, desfizesse o jogo, levasse pro esgoto as dezenas surgidas no meio da madrugada.

Ele temia ter sido tocado em vão.

Naquele dia, Aristeu chorou na chuva, lastimou o azar que o fez sair mesmo que estivesse chovendo, pois teve receio de perder a hora, de ser impedido de fazer a aposta, temeu-se perdido da sorte.

Tomado dessa febre, Aristeu correu, escorregou e caiu na calçada; o volante ficou imprestável porque a enxurrada desfê-lo.

No dia doze de dezembro de dois mil e doze, com uma tempestade furibunda na cabeça, Aristeu fez picadinho do futuro.

Se tem alguém que aprendeu a não se abalar com chuvas e salivas, tal pessoa é o Aristeu, cuja serenidade advém de seguidas partidas de xadrez no computador.

Como se burlasse dos antidepressivos, neste doze de dezembro de dois mil e vinte e três, o novo homem chamado Aristeu fará o correto e apostará contra quem o vê cego ao fado que lhe pulsa na cachola.

Para Aristeu, a estrela da fortuna irremediavelmente soará as treze badaladas desse novíssimo meio-dia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2023.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Coração selvagem

 

Coração selvagem

 

Nina vem a mim com miadinhos. Em vez de pô-los no escaninho de vozes incompreensíveis que pululam no mundo, pra não me ocultar na pele de burocrata, feitio do qual me quero distanciado, escolho escutá-los já traduzidos ꟷ mais que atenção, Nina quer afagos.

Carinhoso apesar da hora, já que a gatinha chega por volta das seis e meia, capricho no tatibitate ao acariciá-la.

Embora não esteja disponível, interrompo o trabalho e concedo-lhe que a sua necessidade seja atendida: acarinho-a até que se deite aos meus pés, no tapetinho ao lado da cama.

Todos os dias ela vem, então, sei que ela sossegará depois de uns minutos de agrados. Uma vez ao dia, faço-lhe cafunés na cabeça e fico nisso até que se vire, desejosa que seja coçada na barriguinha.

Não me desespero dos afazeres adiados um tanto. Disponho-me a abrir esse intervalo sem calcular o quão benéfica seja a paradinha. No entanto, não recuso acreditar-me menos idiotizado pelo cotidiano.

Ainda que eu os repita dia a dia, manhã após manhã, meus carinhos são espontâneos, amorosos.

E sou amoroso não só à Nina, a gatinha miadeira, também ao Tales, o gato sorumbático.

Tales, o fleumático que não ronrona nem mesmo ao ser acarinhado, gosta que lhe cocem a cabeça mas só a cabeça, nada de coçadinhas pelo dorso; e se lhe tocam a cauda, ele ataca.

Tales não gosta de água; o dia é de garoa; o gato está seco.

Hoje, particularmente hoje que está garoando, Nina deu com o vidro abaixado, miou para que a janela fosse aberta. E miou com tal acento que a julguei mais dengosa, necessitada de ser acolhida com dengos mais lentos, mais calmos, tão substancialmente amorosos.

Com a gatinha precisando de ser afagada, a isso dou prioridade.

Os afazeres da manhã não me impõem urgência; antes, reafirmam a obviedade da rotina, que ela me enjoa.

Tenho compras a fazer, e posso fazê-las mais tarde. Com barba por raspar, eu a raparei após o almoço. Como tiro a manhã para escrever a crônica, não será por preguiça que deixá-la-ei pra amanhã.

Será castigo fugir pela procrastinação das coisas cansativas? Será que busco me salvar das garras do monstro? Será paliativa a pausa? Será que o tédio fortalece? Sem regeneração, não me faço outro?

Nina é este outro, é um animal, é imprevisível.

Nina ronrona e fecha os olhinhos enquanto é afagada; à vista disso, não transfiro urgência àquelas tarefas que ostentam importância; como agradar a gatinha é importante, é-me premente acarinhá-la.

Nina, no entanto, não gosta que lhe façam cócegas, nem na barriga nem no dorso. Nem com tatibitate Nina quer saber de cosquinhas.

Quando a minha mão atinge alguma parte que lhe seja sensível, ela se defende, e tenta morder.

Quando estou entregue ao sentimento de estar bem enquanto faço carinhos, os dentes da gata machucam-me.

Mordido, abro a porta. Grito pra que aprenda:

ꟷ Nina, sou livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2023.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O cara da calha

 

O cara da calha

 

Você não pensa que afetar indiferença aos cartazes que lhe gritam preços promocionais seja atitude de gente sábia. Sem comprometer as comichões por bugigangas, inteligente é garantir o que precisa.

Pelo que sabe de si, você não vai às compras só quando precisa, pois isso é coisa de quem se sobressai pela burrice.

Predisposto a desperdiçar as pechinchas, o burro enche o peito ao desdenhar dos mercadores, cujo maior dom é apresentá-lo a carências que lhe transcendam o figurino de pessoa esperta.

Logo você que pira na batatinha com Black Friday e saldão da Black Friday, evoé!, não se avie um bobalhão por suas burras cheias.

Pessoa em dia com as necessidades do seu tempo, vá às compras como quem zanza por entre as gôndolas sem dar azo às gentes que o tomam por ensandecido.

Não seja fiel a mais ninguém que não seja você, zanze. De lista na mão, por obediência aos caminhos propostos de próprio punho, siga zanzando. Mas, não se puna que o feijão esteja num lado, a margarina noutro e o sabão líquido entre essa e aquele.

Se for do seu agrado condescender, ao passar batido pelas ofertas, alegre-se. Não faça onda para pegar pacotes de batata, rejubile-se. Se o saldo permite, ao menos dessa vez, seja uma pessoa abusada.

É preciso entrar no espírito da época para sentir-se bom, revelar-se uma pessoa boa entre pessoas boas. E pessoas boas sabem que faz bem deixar-se ir além de listas e promoções.

É tempo de celebrar, é Natal! Outra vez é hora de alegrar-se pelas alegrias que possa proporcionar, é Natal! Novamente é o momento de não se envergonhar por ser uma pessoa generosamente feliz, alguém incapaz de cometer loucuras em nome da felicidade, que é Natal!

Porque a hora é agora: vá aos panetones.

Veja quantas marcas, são tantas. Verifique os preços, há panetones caros e baratos. Seja paciente, leia os rótulos. Confira a quantidade de gordura trans, o quanto de açúcar, de sal. Há panetones trufados. Tem aqueles com cobertura. Há chocotone de chocolate branco. Panetone de limão siciliano. E panetone salgado. Mas panetones com uva passa e frutas cristalizadas, esses são os tradicionais.

Não se deixe enganar, você é tradicional.

Você compra sempre a mesma marca. E faz questão de ser aquela que na sua casa era comprada porque, basicamente, ela nunca foi de dar azia no bolso dos pais.

Criança, você sabia que panetones davam na época do Natal, que no forno crescia o peru que miraculosamente rendia por uma semana, e, não menos relevante, você tinha o conhecimento de que as árvores precisavam de ser montadas pela família.

Criança graúda que não redige cartinha, assim como tem gente que diariamente leva seu pet depositar fezes de poste em poste, você sabe aguardar a vinda anual do cidadão, cujo saco apinhado de bugigangas fá-lo detestado pela obstrução da luz da calha.

Pra que a chuva passe, reze.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2023.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

De surpresa em surpresa

 

De surpresa em surpresa

 

20h ꟷ Depois de ter livrado treze corpos sobre o Grêmio no primeiro turno, o Botafogo disse adeus ao Brasileirão 23 com o empate de 0X0 com o Cruzeiro. Como cavalo paraguaio, o Fogão é realmente lendário.

 

21h ꟷ Se não estivesse pulando de canal em canal, teria perdido o show do Cure no Brasil. Já que cochilar é prática que cultivo feito vício, sinto que o marasmo que me domina contaminou os músicos no palco.

 

22h30 ꟷ Pelos indícios concretos, os comentaristas supõem que o Porco do Parque tenha conquistado o décimo segundo título nacional. Como os alegres de paixão não têm vergonha alguma de demonstrar real o amor que os comove, os fanáticos palestrinos estouram fogos.

 

23h30 ꟷ O homem falava sério. E não encarava. Era homem e era sério. Falava baixo, macio. Temia encarar quem se sentisse desafiado a confrontá-lo. Era um homem honesto com os medos que podia sentir se falasse do coringa que tinha na mão. Era franco quando falava sério, só desviava o olhar. Não escondia o coringa porque desejasse perder. Pensava no adversário, na derrota que gostaria de saborear. Era sério o bastante para não ser um ás tão descuidado. Noves fora, truco!

 

06h30 ꟷ Na primeira leitura matutina tem a fotografia do Bituca exibindo uma camiseta do Big Macca.

Ora essa! Milton irá à Arena do Galo.

Releio, tenho o cuidado de ler novamente o pé da imagem: a notícia não é velha nem nova; leio que o Nascimento foi no sábado e irá na segunda aos shows do McCartney 4Ever.

Obladi obladá. Patati patatá.

Estará cedo demais para repaginar máximas? Estarão ricos contra pobres, pobres contra pobres e pobres de marré marré contra a gente? Estará tarde de fato, pois não?

Na longa e sinuosa estrada da vida, com Lênin, Lennon e Leno, eu reciclo o lixo ocidental.

 

07h ꟷ Como faço às segundas, irei à pastelaria. Não vou atrás dos assuntos. Na segunda passada começou um novo funcionário, a quem o mais antigo ditou ordens. Como o empregado mais antigo não parou de fazer o que fazia, o novato ficou sem orientações.

De volta do banco, o dono verificou o que já estava feito.

Quanto ao serviço porco, que o recém-contratado refizesse tudo ou ganharia a conta.

 

08h ꟷ Tomo café frio de manhã. Assim que eu saio da cama, passo o café. Deixo que esfrie. Só depois de ter lido os jornais, espiado a rua um tanto e escrevinhado alguma coisa é que me sento para o desjejum. Lá pelas dez, encho um copo de 200 ml até a metade. Corto um limão em quatro partes. Espremo um quarto nos 100 ml do café que beberei. Os outros cem ml, a outra metade da dose diária de café, coloco-os na geladeira, ficarão reservados pro café da tarde, igualmente temperado com outro quarto de limão. Cada metade dos outros quartos restantes, cada qual será espremida nas saladas do almoço e da janta.

Gelado, será que me comparam à limonada sem açúcar?

Quando azedo que nem ácido, sou limão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de dezembro de 2023.


domingo, 3 de dezembro de 2023

O lado verde da força

 

O lado verde da força

 

Desculpe-me, Zeca, mas tentei. Nas tantas vezes de meu empenho em não me orgulhar, maior o desastre. Se meu raciocínio não me pega em uma de suas artimanhas, sou capaz apenas de não me envaidecer de minha resiliência.

Desculpe-me, Zeca, jamais tentei ludibriá-lo de que me envaideço do orgulho pelo que faço. Ainda que muitas vezes tenha falhado, ainda assim, falho e fracassado, quando erro, e admito ter errado, tento não me esforçar em vão.

Quero entender o passo em falso; busco pelo ponto em que a falha está. Quero compreender o tamanho do que me põe impactado; busco a lógica que me faz estranho à razão dos malogros. Quero mensurar o tanto que há de arredio à minha especulação, procuro a razão atrás da racionalidade. Quero alcançar a origem das falhas, não busco dominar-me para que eu erre menos; quero saber de onde vem tal impulso. Não errarei menos e, por óbvio, sentir-me-ei seguidamente orgulhoso.

Acho interessantes as pessoas que vivem em função de propósitos definidos, mas, a elas, só fico interessante quando estanco diante das encruzilhadas: há caminhos que me levam a considerar que posso agir com agilidade e, como fezes repousando no bronze, há estradas pelas quais ponho-me devagar.

Contemplo-me, logo sou reflexo às veredas em que vejo e àquelas em que me veem. Contemplo que não me vejo representado em efígie, um figurante, apresento-me, porém, feito figura, escultura a configurar-me passível ao efêmero.

Desculpe-me, Zeca, veja-me pelo que esteja visível, pois eu mesmo não me esmero em desvelar o que nos esteja interditado.

Apesar do guarda-chuva, está em sopa por que precisou comprá-lo às pressas ou tomou banho de roupa?

Pede-me um exemplo menos absurdo? Dou-lhe.

Zeca, desculpe-me que o admoeste pelos arrotos. Você perceberá no seu arroto o cheirinho de café; no entanto, só você dirá que o tenha tomado na cozinha da sua casa ou se foi na padoca.

Dá-lo a você, Zeca, faz-me repassar o que havia dito.

Tiro as fezes ao bronze; troco isso pela poeira n’Os Candangos em madeira na mesinha da sala.

Uma vez que a janela da sala está fechada, estará a lembrancinha suja por que não é limpa há semanas ou só bastou a ventania de ontem ter entrado pra tê-la deixado imunda?

Desculpe-me se o aborreço, mas há arrotos que escapam enquanto fala e aqueles que vêm do refri, a esses você tem que dar escape para que não causem mal-estar.

Não quero nem falar daquele cheiro do escapamento que gruda na garganta. Tussa na hora, pois esse ar tóxico é muito fétido.

Em vez de motor a gasolina ou diesel, escolha um elétrico. No caso da eletricidade, prefira a produzida por usinas eólicas ou solares, pois energia de hidrelétrica não é genuinamente verde, sim, represamentos agridem o ambiente.

Parado na garagem estou isento da sublevação climática?

Outrossim, Zeca, eu te perdoo.

 

Seu Fusquinha,

Garagem Gaia, dia 03 de dezembro de 2023.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

O atontado

 

O atontado

 

Feito artefato explosivo, o canto do joão-de-barro detonou em mim um deslocamento abrupto de consciência: vivo entre fricções, pois as belezuras do mundo entortam o rebolado do cronista que faz de conta que não o deslumbra sambar sem os pés.

Nessa soalheira manhã, mais pacato do que pateta, eu descia a rua de casa quando o joão-de-barro implodiu-me em dois: o pedestre com um bolo nas mãos; o embevecido que mal disfarçou o enlevamento.

Ainda que o ninho com morango pesasse dois quilos e quatrocentos gramas ꟷ de acordo com o comprovante fiscal que me foi ofertado na doçaria ꟷ, busquei o cantor nas palmeiras e primaveras.

Conquanto o céu estivesse ensolarado, foi preciso que o pequenito cantasse de novo para que o avistasse no cimo de uma arvoreta, cujas raízes caminharam calçada adentro.

Como braços têm limite e porque eu não colocaria a embalagem no chão, alegrou-me não ter o celular comigo. Sem recursos artificiais: os olhos míopes captaram a figura do passarinho; no avesso da algazarra urbana, aquele canto humanizou-me pelos tímpanos.

Já em casa, com o bolo na mesa, pus-me à espera de que viessem os meus familiares mais próximos, e tão somente eles.

Embora me tornasse sexagenário naquele dia, não me percebi mais cansado ou triste; não me sentia de alguma maneira mais desmedido, a fim de revelar intimidades a qualquer um; não passaria a mentir mais que o habitual; as minhas banalidades não seriam menos melancólicas nem as minhas felicidades, mais arrebatadoras.

Sem referendar o óbvio, daria a primeira fatia à pessoa mais amada de todos à mesa.

Uma vez que acredito que a transparência revela o quão complexa é a realidade, eu minto para conhecer melhor as pessoas.

No último dia do mês, narro os eventos que aconteceram há quatro semanas e você não se questiona, aceita que aquela manhã foi mesmo ensolarada, havia um joão-de-barro na palmeira e eu estava alegre por completar mais um ano de vida.

Em paz consigo por assegurar-se das minhas palavras, verdadeiras e autênticas, você não duvida que uma picape tenha passado tocando uma valsa vienense, embora visualizasse a voz da Anitta.

Nem Anitta nem Strauss, apenas algumas memórias a compor-me um escrevinhador de verdade, um legítimo inventor de verdades.

Se você me lê pelo crédito que lhe ofereço, ouça o vento bafejando palmeiras e primaveras, saboreie o bolo, brinde com refrigerante e siga surdo aos flibusteiros que se negam a um mundo melhor.

Efetivamente! Melhora-me muito querer melhorar o mundo.

Pelas circunstâncias da virtude, é válido dizer o quão sinceras são as palavras que não digo ꟷ embora não as diga, eu sugiro dizê-las.

Como não sou mentiroso à toa nem me obrigo a desmentidos, estou certo de que só um tonto não sabe que um Jean Cocteau não diria: “Eu sou, antes, uma mentira. Uma mentira que diz sempre a verdade”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2023.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Mente educada

 

Mente educada

 

Educadamente, a educada cumprimentou o educado.

Educadamente, ambos estacionaram os carrinhos de maneira que não atravancassem a passagem das demais pessoas, que passavam empurrando educadamente os seus carrinhos.

Educadamente, a educada pediu novidades ao educado.

Educadamente, o educado disse à educada que não tinha novidade alguma para compartilhar. O educado, educadamente, não as solicitou em recíproca à educada, porque os seus bons modos eram realmente de gente educada, pois eram modos oriundos do seio familiar, modos devedores ao pai e à mãe, pessoas sempre tão inspiradoras.

Educadamente, a educada entendeu que poderia mudar o rumo do diálogo. A educada falou que, no seu quarto, foi instalado um aparelho de ar-condicionado, cujos mecanismos, embora fossem potentes, não produziam tanto barulho.

Educadamente, o educado felicitou-a, que fizera o certo ao instalar um condicionador de ar, porque as temperaturas têm custado a baixar mesmo à noite, afetando negativamente o descanso do corpo.

Educadamente, a educada demandou a vênia para prosseguir em sua jornada, que era comprar os itens constantes na lista. A educada, precisamente por ser educada, para não melindrar o educado, ela nada falou do que tanto trazia listado numa tira de papel.

Educadamente, o educado cedeu à educada a licença e solicitou-a também para si, porque também viera às compras, embora sua compra estivesse ao sabor dos olhos, uma vez que era naturalmente impulsivo, era pessoa sujeita aos anseios de momento.

A educada e o educado despediram-se educadamente, para um 'até mais ver' de uma rotina educadamente convergente, pois só ao futuro cabe dizer quando haverá de calhar outro encontro.

A educada dirigiu-se para o setor de grãos, uma vez que faltavam na despensa arroz, ervilha, feijão e lentilha.

O educado dirigiu-se à geladeira de congelados, pois, obviamente, repunham lasanha, escondidinho e estrogonofe de frango.

A educada cumprimentou outra educada, e ambas falaram do calor e das tempestades. A educada declinou de expressar o temor, de que gente impulsiva costuma comprar o que nem tem necessidade, apenas para satisfazer desejos que desconhecem satisfação.

A outra educada despediu-se da educada porque tinha que terminar logo a compra, afinal era ela que preparava o almoço da família e todos estariam à mesa ao meio-dia em ponto.

Na fila da carne, a educada e o educado retomaram a conversa.

A educada estava sensivelmente impressionada, até surpresa, com tantos carrinhos que iam e vinham lotados, mostrando que a saúde da economia ia indo bem.

Educadamente, o educado concordou com a educada, pois o país parecia ter recuperado o fôlego, ter saído da depressão e estar dando oportunidades a tanta gente.

Em virtude das circunstâncias, é educado não discordar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de novembro de 2023.

 

domingo, 26 de novembro de 2023

Viva!

 

Viva!

 

Tempo, tempo, mesmo que não entenda muito do que faço, mesmo que chegue a desconfiar da relevância do que tenho feito, sigo disposto a entender a realidade e a entender-me com a sua realidade, tempo.

Mas, precisa apressar o passo? Se não me permite, eu me permito: preciso desacelerar um tanto.

Desacelero, para respirar; para tirar a pressão, preciso andar; quero andar sem exigir de mim o que me exaure, esgota e idiotiza.

Tempo, não me engano, sei que às vezes ajo feito idiota, mas o que me exaspera é manter o passo para não perder tempo.

Quero perder tempo, e vou perdê-lo o quanto eu queira.

Compreendo, preciso seguir atento, ou a corrente afogar-me-á. Os acontecimentos atropelam, abalroam, fazem adernar, passam rasteira, e eu naufrago, me afogo, morro na praia e engulo areia, saliva e ar.

Para que a mente não se perca, é importante manter-se informado. Navegando no oceano de informações, é fundamental fazer perguntas e encontrar respostas que não confundam. Se as respostas estão além de alguns cliques, primordial é não se entontecer com a barafunda dos acontecimentos.

Será que os devaneios não puxam a corda que torna difícil respirar, mantêm a asfixia que desatina e enforcam quando não se observa que o ar já anda tóxico à pessoa abilolada?

Apatetado, o juízo nem percebe a lucidez da sujeição. No mar dos fatos, entre surfar e navegar, entre mergulhar e boiar: não transformar as mágoas em âncora.

Essencial é pensar o que seja relevante, prioritário, indispensável.

O que parece enovelado é o fio da meada; e pelo pouco que esteja embaraçado, o fio embaça, filtra o olhar pela névoa, e segue impedindo que, entre os acontecimentos, seja percebido um nexo.

E a realidade diz que: o raio cósmico Amaterasu fritou os sensores do Telescópio Array; as duas tangerinas da senhora Vilma Nascimento foram obrigadas à exposição no aeroporto; o chapéu de Napoleão foi leiloado por dez milhões de reais.

O rio de eventos segue em frente; eu sobrevivo à margem.

Não abocanho as palavras. Mastigo pão e bife. Engulo água e leite. Dou-me por satisfeito ao alimentar-me da ração diária do que preciso e do que nem imagino que me seja importante, relevante ou um bocado revigorante.

O meu consumo de notícias inclui chuvaradas no Sul, greve em SP e aquelas filas pro maior espetáculo da hora, agora sob chuva.

Concluo: os 40 mil pints de Guinness, arrecadados por vaquinha on line, são um presentão para um brasileiro, o entregador de comida Caio Benício, que derrubou com capacetadas um criminoso que esfaqueava crianças à saída de uma creche em Dublin.

Pra arredondar a conta: à base de quatro copões irlandeses por dia, só depois de vinte e sete anos que os 22.720 litros serão zerados.

Como o mundo não para de parir fatos atrás de fatos, paro e penso, encontro esse respiro: ler é aprender a desafogar-se das mágoas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de novembro de 2023.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Ou seja

 

Ou seja

 

Ontem você passou e me viu, mas, com pressa, provavelmente indo almoçar, você sequer me acenou.

Hoje você tornou a me achar na esquina. Como devia ter almoçado, pessoa simpática que sabe ser, você possivelmente pretendia inteirar-se do que estava acontecendo comigo.

Coube-me a descortesia de franzir a testa ao grunhir que estava pra poucos amigos, e você, pessoa amiga que não contava comigo assim, troglodita encarnado, você reagiu, que eu fosse pro inferno.

Já estava lá.

Sem disposição para comentar o que se havia passado comigo, eu voltei atrás, despi-me do camarada odiento.

Gosto de queijo minas. Gosto de goiabada. Gostar disso e daquilo não acarreta que eu goste de Romeu e Julieta, embora eu goste.

Eu como queijo quando quero, independentemente de que me seja oferecida goiabada. Me chateia quem me rotula apreciador de Romeu e Julieta apenas porque gosto de queijo e goiabada. Posso muito bem gostar separadamente.

Gosto da noite. Gosto mais ainda da noite de sexta. Também gosto de pizza. Mas eu gosto tanto de pizza que a como quando quero, pode ser na noite de sexta ou no almoço da quarta, ou seja, no instante em que me dá vontade de papar uma muçarela com guaraná.

Cuido eu das minhas vontades, poxa.

Você poderia ter ido em frente. No entanto, parou. No entanto, ouviu as minhas miudezas. Contudo, soube ser inútil a alguém inutilizado por ideiazinhas subjetivamente, individualmente minúsculas, de boboca.

Continuei mesquinho, subjetivo, um indivíduo de mal consigo e com os demais. Continuei travado. Sequer formulei a questão:

Que sei eu da máquina psíquica que me põe ranzinza?

Você deu-me as costas. Soube ir cuidar da vida, da sua vida, pois da minha, ao saber-me um babaquara, sequer da minha vida eu estava em condições de cuidar.

Sei que vivo apegado ao dia a dia, que vivo pautado pelos afazeres de cada dia, que eu sou muito útil quando o mundo me considera capaz de resolver problemas. Útil, porém, quando me entrego.

Todavia na esquina ontem e hoje e amanhã também, pelo jeito que a minha rispidez revela-me hostil, é preciso passar reto, ignorar-me, ir fazer uma aposta, ir tomar um refrigerante, ir sentar na praça, nem que seja tão somente para limpar as sujeirinhas das unhas; ir-se.

Não vou. Não mudo um passo. Eu fico na minha. Deixo a realidade circunscrever-me no mundo da lua, viajando na maionese, vivenciando hipóteses astrais, mergulhado em mim. De todo, um inútil.

É bem gostoso não pegar gosto pela aporrinhação cotidiana, dá pra afagar Argos sem irritar Penélope, dá pra cavalgar Bucéfalo ainda que Alexandre nem saiba disso; e bebericar uma chávena de chá, será que isso também dá?

Ou seja, a sanidade cobra inutilidades: tragam-me goiabada, queijo e guardanapo; tragam pastel, guaraná e mais um guardanapo; depois a conta me será cobrada por comer, beber e rabiscar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2023.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Noite de temporal

 

Noite de temporal

 

Não é à toa que me lamento, ouvira atentamente o que disse a gente sabida das coisas do tempo: os ventos que viriam vorazes provocariam chuva, lama e busca inflacionada por fósforo e vela.

Pitibiribas!

Da chuva que veio, e pouco importa por que furo de ozônio tenha o temporal evaporado, resta ter errado de lombada em lombada sem que aquela história fosse encontrada.

Aquela história, qual?

Aquela que minha mãe contava quando o mormaço grudava na pele, as roupas encharcavam, pesavam, então, dormir era muito dificultoso, e a história era contada de tal modo que o sono vinha.

Não me lembro dos pormenores, me recordo da maneira como era contada, então, reproduzir com fidelidade não reproduzo, mas sugiro.

“As nuvens passavam. O vento soprava numa altura tal em que só as nuvens podiam senti-lo. Era forte o bastante para apressarem-nas.

“Veio o momento em que havia muitas nuvens àquela altura, então, as nuvens não perderam a pressa com que o vento as tangia, então, o céu ficou nublado, preenchido completamente por nuvens.

“Com o céu atravancado de nuvens, o vento achou caminho abaixo, veio baixando, baixando, até sacudir a copa das árvores, até bulir nos arbustos, até mostrar-se arisco pra bicharada toda.

“As garças recolheram-se. As andorinhas copiaram-nas. Também os pardais, as maritacas, os bem-te-vis. Recolheram-se aos ninhos, as aves todas. Ao menos, a sábia maioria correu recolher-se.

“Lambida pelo vento, a anta abrigou-se.

“Lambido pelo vento, o tatu enfurnou-se.

“Lambidas e lambidos, cada qual fez o que deveria fazer.

“Para cantar o temporal, um sapo não sumiu.

"O tal sapo não se evadiu nem se acovardou porque desejava cantar a maravilha, o esplendor, a beleza terrível que estupefica.

“Quem correu esconder-se mal o vento começou foi o sapo que não sabia cantar, mesmo seus coaxos ele cessou porque não queria que o vento soubesse dele, não queria de jeito nenhum que o vento achasse onde estava.

“Os estrondos de tronco caindo não assustaram o cantor.

“Os repentinos relâmpagos impressionavam, maravilhavam-no.

“O cantor era antes um poeta, era poeta da estirpe dos que cantam a fascinação dos abismos, vinha da linhagem dos poetas que fascinam os abismos, um ser abismado que os abismos invocam para si.

“A coruja que não temia o temporal, não temia o furor do temporal, a tal coruja sequer piscava, sequer piava, sequer se quis seca, todavia ela observou, observou, ela somente se manteve observadora, tão fiel a si no propósito da sua observância que sequer o cantor, a anta e um jacaré que passou despercebido ao lado de um tronco abatido por um raio, ninguém ousou dizê-la à toa no charco.

“Como não era tonta, sonsa, abestalhada, como não era andorinha sequer era anta, quis o corpo da presa rasgado por suas garras e bico, então, o sapo que sabia cantar foi seu pasto.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2023.

domingo, 19 de novembro de 2023

Tudo mais

 

Tudo mais

 

Larga o celular. Senta-se. Que leseira é essa? Sua. Fecha os olhos. Que claridade! Treme. Baixa a cabeça sobre as mãos. Pega o telefone. Cadê que não atendem? Tem ânsia. Deita-se. Cadê que não ouvem o telefone? Que desespero!

Quando carece de assistência, está só. No súbito do abandono, sua fragilidade transparece. Medida pelo desamparo, a sua existência está restrita à família e aos amigos. Ninguém sabe que a sua condição beira o trágico. Que uma fatalidade é iminente, não tem dúvida.

Em busca de causas pro estupor, a pessoa pensa, repensa, reflete, e o excesso de luz faz opaco o diamante.

Quando a pedra conhecer-se pela pedrada, calculem o prejuízo.

Quando a cana encarnar-se caninha em pé, embriaguem-se.

Quando a razão for febre que rebenta de repente, gozem.

Pronto! Com as condições de volta aos conformes, quer trabalhar, quer retomar o trabalho, já confiante de que os aborrecimentos ou as interrupções não tornarão a desequilibrar.

Se precisa fechar a janela ou colocar os fones, as circunstâncias do mundo ao seu redor mostram o quão tola é a sua empáfia.

Uma ova que você pode trabalhar porque tem vivências. Não conte como vantajoso o seu otimismo, pois o mundo faz pirraça.

Se os cães não param de latir nem a música sossega a cachola, a realidade não passa vergonha quando desconfia de quem diz desejar tanto que a vida não desande, apesar das piruetas.

Não ria. Cerre as cortinas. Aumente o som. Rebele-se. Mesmo que o mundo diga que os cristais são fajutos, não o deixe estilhaçá-los.

No calor do momento, ainda que a vida anuncie que o pior está por vir, precisamente por lhe faltar preparo, sue e trema, titubeie mas não sucumba, preserve-se das fragilidades, arrisque, encare-se.

Vindo o pior, é humano sentir-se despreparado pros pessimismos.

Embora derrotas ponham amarga a boca, o sal é natural.

Embora sussurros façam apurados os ouvidos, a mentira corre.

Embora mãos trêmulas possam indicar medo, é fraqueza.

De efemeridade em efemeridade, de instabilidade em instabilidade, transitando na selva iluminada por relâmpagos, o pensamento é de que o momento permite ouvir a viola fora do saco, permite morder o pão de ontem, permite irritar-se.

Irrite-se com o carro do cloro, peça pela pamonha.

Fique mais irritado, pense na alegria do aniversariante quando lhe cantam que a data é querida, quando lhe desejam muitos anos de vida, quando lhe felicitam: ra-tim-bum!

Largue o trabalho. Esqueça a serenidade. Vá à janela, escancare-a e grite. Berre que não aguenta mais, o incômodo é demais, a cabeça vai explodir. Ter paciência é para mansos, não pra você.

Com tanta coisa errada na sua vida, que terceiros paguem a conta; se não pagarem, não se desiluda, pois o mundo sonha com você.

Não caia na cilada de sair de casa ao primeiro sinal de fúria, brilhe, assobie aquela canção do Roberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de novembro de 2023.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sonho realizado

 

Sonho realizado

 

Dona Cremilda pede que eu vá buscar o celular.

ꟷ Que cabeça! Só tenho a lhe agradecer por avisar que o aparelho, logo agora em que o estou usando aqui, está na sua casa, parado.

Imprecando, minha querida amiga desligou.

De jeito nenhum que eu me abateria pelas pessoas estarem de mal com a manhã, de tão bela luz, tão iluminada azul pelo sorrisão do sol, por este sol maravilhosamente primaveril, como rei de fevereiro, astro de carnaval, suor, praia, cerveja e verão ꟷ e bota estaçãozinha arteira, que vem picar no novembro marasmento suas dissonâncias pícaras.

Brindo e celebro, vivas! Brindo com água gelada e celebro sozinho, vivas! Vivas! Viva! Vivo na alegria da solitude, vivas!

Pelo que mostra a manhã de trinta graus, passarei o dia em casa.

Aproveito para ler os e-mails. Hora proveitosa, reduzo o lixo.

Abro as redes. Viajo por ali e volto por aqui. Embora siga ignorado, eu solicito uma entrevista a quem tanto admiro.

Uma vez que a resposta é não receber nenhuma resposta: será por falta de tempo que não terei tal oportunidade? “Tenho medo de andar na rua e, de repente, ser nocauteado.”

A entrevista será virtual e curta. Como fã, não posso colher algumas palavras? “Sei que tem gente que valoriza meu trabalho e tem gente que não entende nada do que eu faço.”

Senhor, fale um pouco da faixa O trenzinho do caipira. “Tem gente que acha que ela é minha; se estou com tempo, explico que não.”

E a ideia de gravar um disco todo com Tom Jobim? “Eu já me sentia perto do céu, de tão feliz.”

E gravar permite aprimorar-se? “Aprendi que trabalhar sob pressão é fundamental. Quando você tem todo o tempo do mundo, você tem todo o tempo do mundo para fazer nada”.

Perdoe-me que insista: trabalhar não o faz melhor? “Sinceramente, não consigo julgar o perfeccionismo como defeito, atraso ou mesmo um tipo de perturbação psicológica. Acho mesmo que o rigor na hora de construir alguma forma de trabalho serve bastante para garantir o nível mais elevado de que o artista seja capaz.”

Qual é o sentimento de chegar aos 80 anos? “Acho que faço o que eu posso, do jeito que quero, isso sim é um grande orgulho.”

Sentir-se orgulhoso é a sua maior vaidade? “Acho que a vida acaba no dia que paramos de respirar. Olhar para a minha história me dá esse sentimento de ter cumprido um plano.”

E você não improvisa? “Não duvido dessa capacidade de pessoas que estão no meio do jantar, ouvem uma melodia, um pedaço de letra e têm que sair correndo. Sinto muito, mas comigo nunca aconteceu. Eu sou um cara que tem que procurar a música.”

Na sua opinião, por que Beatriz é uma obra-prima? “É muito longa, muito lenta, muito lírica.”

Para encerrar, Mestre, e os balés? “Eu adoro ter personagens para os quais vou ter que compor. Isso me motiva, isso me tira da cadeira para sentar no piano e começar a procurar.”

Grato pela oportunidade, #eduemepebista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2023.