A
estrela
Ele não acordou às seis, foi despertado
três horas antes; e que bom ter sido tirado do sono por uma iluminação deveras
inspirada.
Pela primeira vez na sua vida, Aristeu
não tinha motivo para duvidar de que fora acordado no meio da noite por causa
de alguma coisa boa, que era boa coisa porque o transformaria de maneira
definitiva. Afinal sonhara com algo que efetivamente lhe extirparia dos
caminhos aquilo que, no miserê de cada dia, sempre o abismava.
Recordou-se de um dia, de uma situação
específica.
Tal circunstância não deveria ter
acontecido como foi. O futuro que tivera nas mãos desmilinguiu-se com a chuva.
Na condição de volante de loteria, a felicidade sucumbiu ao aguaceiro.
Da aposta desfeita resta a dor que o
angustia, ou não teria acordado nessa madrugada que não era apocalíptica, não
era infernal, era outra madrugada calma, enluarada, de piados de corujas e
sem-fins.
Bem sabe quem sofre, angústia existe para
ser acalentada.
No caso, Aristeu estava decidido a mudar
de vida. Com os números surgidos do sonho da madrugada, ele entraria na
lotérica sabendo que rupturas dependem da sorte não confrontada.
A sua aposta haveria de embelezá-lo aos
olhos de quem o sempre vira como um pacóvio de dentes amarelados.
Com a bufunfa da bolada, clarearia os
dentes, atacaria os cariados e implantaria o alinhamento que arrancasse arrepios.
Olho Gordo, Aristeu quer ser invejado pela
beleza instituída.
Aristeu servirá de modelo a quem haverá
de louvá-lo pela ousadia de ser bonito. Ele não temerá os olhares de gente que
ainda insista em recapitulá-lo apagado na feiura que afortunadamente estará
extinta, já que era máscara inapropriada à alma tão ardente, a que era a sua.
Lá atrás, diante do destino, Aristeu calou-se.
Sem guarda-chuva, Aristeu saiu temendo
que a chuva molhasse o volante, desfizesse o jogo, levasse pro esgoto as
dezenas surgidas no meio da madrugada.
Ele temia ter sido tocado em vão.
Naquele dia, Aristeu chorou na chuva,
lastimou o azar que o fez sair mesmo que estivesse chovendo, pois teve receio
de perder a hora, de ser impedido de fazer a aposta, temeu-se perdido da sorte.
Tomado dessa febre, Aristeu correu, escorregou
e caiu na calçada; o volante ficou imprestável porque a enxurrada desfê-lo.
No dia doze de dezembro de dois mil e
doze, com uma tempestade furibunda na cabeça, Aristeu fez picadinho do futuro.
Se tem alguém que aprendeu a não se abalar
com chuvas e salivas, tal pessoa é o Aristeu, cuja serenidade advém de seguidas
partidas de xadrez no computador.
Como se burlasse dos antidepressivos, neste
doze de dezembro de dois mil e vinte e três, o novo homem chamado Aristeu fará
o correto e apostará contra quem o vê cego ao fado que lhe pulsa na cachola.
Para Aristeu, a estrela da fortuna irremediavelmente
soará as treze badaladas desse novíssimo meio-dia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2023.