quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O pomo da concórdia

 

O pomo da concórdia

 

Imbuído da verve de bom entendedor, basta que desconfie de algo estranho para eu começar a rastrear o que não é dito. Mergulhado em tal espírito, o de farejador de entrelinhas, deixo entrar Luisinho, aquele que, tão seguro de si até em falsete, costuma dizer “faço o que quero”, como se fosse incontornável ouvi-lo a dizer: “sou livre”.

Quando uma pessoa cobra dele um posicionamento claro a respeito de algum assunto que esteja em evidência, notei que o meu amigo nem percebe que tem esse tique, ou já teria tirado melhor proveito, mas sua voz se altera quando pensa uma coisa e fala outra.

Desta vez, ao dizer que faz o que deseja, ele pretende dizer que faz o que se espera que faça, ou a sua presença seria insuportável.

Então, tal liberdade é osso enterrado no jardim. E cavarei porque o meu instinto carniceiro gosta de roer o que seja, só pelo cheiro, até que o tesouro desencavado torne inútil a imaginação.

Dá gosto modelar a carne, juntá-la ao osso, a carne ligada à carne. Sem precipitação, o esqueleto pare em pé. Sem neurose, haja o corpo. Para que a ideia baile, haja identificação. Que a ideia seja esmiuçada. Que os detalhes traduzam a encarnação, e leia-se o símbolo.

Encaro a tarefa, debruço-me sobre a circunstância.

Estou sentado. Chupo uma laranja. Há um par de rolinhas rondando o banco em que estou sentado chupando uma laranja. Os passarinhos não comem as sementes que eu cuspo. Não brotará uma laranjeira no cimentado. Sei que as aves não têm fome, é que mais cedo joguei-lhes migalhas. As duas rolinhas não arrulham nem pipilam. Enquanto chupo uma laranja sentadinho no banco que eu fiz, elas ciscam. Temerosas de que possa comê-las, as teimosas ciscam.

Desato o nó: rolinhas não são pombas; elas não representam a paz; ao fritá-las, não terei cometido nenhuma barbaridade.

Luisinho diz que penso muita bobagem, digo coisas absurdas para causar indignação, provoco as pessoas, só que nem todo mundo gosta de gente que parece se divertir com a irritação dos outros.

Ora, a natureza ensina, mas poucas pessoas a compreendem.

Se a macieira é sacudida, maçãs irão cair. Se uma escada é usada, maçãs serão colocadas no cesto. Maçãs acondicionadas no cesto não serão amassadas, logo vão demorar para estragar. Se mais maçãs são vendidas, mais dinheiro entra no bolso. Então, a pessoa cheia de maçã não tem que vender caro as suas compotas de geleia.

Então, Luisinho diz: se a macieira é sacudida, não será preciso usar escada; a pessoa com vertigem não cairá; ninguém correrá à farmácia atrás de creme analgésico; a sopa será servida de quando em quando; a dor na costela será menor desde que a pessoa fique deitada, procure não se mexer, tome a sopa quente de mandioquinha.

A razão prepondera: uma vez que o universo induz que chupemos, nós sacudimos a laranjeira, e cuspimos, só o bagaço nós cuspimos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de outubro de 2023.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Saída de emergência

 

Saída de emergência

 

A pessoa que se acha amável e afável é gente que vira de lado por mais cinco minutinhos. Afinal, não tem coisa mais prazerosa que obter mais um tanto de sono, ainda que seja apenas uma cochilada, mesmo que nem seja o bastante pra adiar o novo dia.

O novo dia pra essa gente, que se espreguiça, tem câimbra e estica as pernas, força os pés no colchão e lembra-se de que precisa comprar banana, o dia chega apenas depois do banho tomado.

E secar os cabelos com o vento da manhã também dá muito prazer a quem tem cabelo e tempo para que a natureza aja com tamanho zelo, isso, aliás, é um pedido singelo dessa gente, pra ser amada.

A pessoa que se acha assim, de bem com a própria identidade, está certa de que a água do chuveiro, as mãos que ensaboam o corpo e os neurônios que produzem energia funcionam em sintonia para sua mais honesta percepção, pois estão em sincronia pra que haja felicidade.

Gente feliz sabe que viver é não extrapolar as culpas, as desculpas e aquela passadinha de manteiga na fatia rica em macadâmia.

Sim, a felicidade está nas coisas simples da vida, como: acordar só; beber só um copo de leite ao sair da cama; depois de ter trabalhado o dia todo cuidando só do próprio sustento, pôr a cabeça no travesseiro sem ter que dividi-lo com as dívidas; embora esteja só na escuridão do quarto, e sem mais ninguém a mais, pegar no sono.

Porque vive só e pensa por si e entende-se, a pessoa compreende que realidade é nuvem cigana.

Mas o sol brilha, torna mais azul o céu limpo e põe a alma risonha, isso, todavia, é sinal de que o mundo sorri a quem levanta de uma noite tranquila, agradabilíssima.

Quem abre a janela certo de que o universo cuida bem de sua prole terrena tem motivo pra sorrir de volta ao sol anil que higieniza tudo, até os pensamentos incomunicáveis, os mais sombrios e sórdidos.

Pois bem. Hoje seja percebido como igual a ontem, ou a existência estará desconectada do mundo e propícia a insultos cerebrais.

Ainda que a pessoa seque os cabelos numa toalha, uma vez que a agenda do dia está carregada, sem espaço para desesperos, é melhor evitar insultos, refluxos e piriri.

Evite olhar-se no espelho. Penteie os cabelos sem olhar o que faz. Conte que possa repetir os movimentos, pois sua mente está mais que experimentada em pentear-se, ela nem precisa do reflexo.

Afinal, sempre há esperança: amanhã não será igual a hoje, pois, essa não!, está marcada uma reunião de família.

Preventivamente, não adiantam o que terá motivado a reunião. Pior que isso, fazem questão de dissimular, dizem que o encontro será uma noite de pizza, de mais a mais, banal.

Como se o fato de pessoas adultas se reunirem numa terça-feira à noite tivesse o mesmo astral de um churrasco num sábado à tarde.

Sob o efeito de ter visto o fantasma da cara enfezada, e até pra não reter nas entranhas a maminha malpassada, o jeito é dar descarga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de outubro de 2023.

domingo, 8 de outubro de 2023

Valentia adestrada

 

Valentia adestrada

 

Desde que ganhei um cachorro, tenho passado pela praça dia sim, outro também. E tal passagem diária permitiu-me a constatação de que antes da chegada do camaradinha eu tinha uma visão pacata da vida, pois era um cidadão pouco preocupado com a coisa pública.

Em vez de ser grato às árvores pela sombra nos dias muito quentes, eu gostava de chiar contra o serviço público de limpeza por deixar uma floresta de folhas no caminho.

Nos dias de chuva, é comum tombo emendar em outro.

O que dava razão de sobra para que eu acalentasse o juízo de que não deveria incidir uma taxa menor sobre a limpeza urbana, bom seria se a tarifa fosse zero. Com este imposto zero aplicável aos munícipes em geral, até àqueles sem interesse em saber qual o índice de quedas por folhas no caminho.

Sendo a realidade dinâmica, agora que tenho um cãozinho, a minha percepção está alterada: se lidava bem com as minhas necessidades, aprendi a colocar-me no lugar do animalzinho.

Justamente porque a minha tentativa de ensiná-lo a urinar e defecar num retângulo de areia foi um desastre, eu ganhei muito mais depois que desisti do adestramento sanitário.

Depois de ter mijo e fezes pela casa afora, eu entendi: a cidade tem postes que não precisam ser usados exclusivamente como suporte aos cartazes de gato perdido, amor conquistado e futuro na trinca de ases; as ruas têm calçadas das quais também pode ser removido mais que o lixo nosso de cada dia; árvores têm troncos para serem irrigados pelo bicho homem e seus bichinhos muito bem humanizados.

Em outras palavras, deixei de agir errado: o bom funcionamento das entranhas do meu cão não surpreende, por isso, nas nossas saidinhas, não me esqueço das folhas de jornal e sacolinhas plásticas.

Sem duvidar da minha determinação, lutei comigo até que me venci e retifiquei a minha postura diante do mundo: e tão naturalmente passei a apreciar o canto dos passarinhos, em vez de suplicar a ninguém que as buzinas fossem retiradas dos automóveis, até porque os motoristas nervosinhos continuam a compor música concreta, neuroticamente.

Como prefiro fugir dos congestionamentos, peguei gosto por ir cedo à praça. Com as ruas vazias, eu nem sinto a hora correr enquanto meu amicão dá as suas mijadinhas.

Outro dia, não me irritei com um barulhão incomum, fiquei curioso.

Pela abertura menor que um metro, além do barulho de máquina à toda, escapava um fumacê fedorento.

A pastelaria aberta às sete era estranho, mas o impressionante foi, porta afora, a fuga das baratas, que zanzavam pela calçada.

O meu cão não parava de latir, mas os insetos ignoravam-no.

Mas o engraçado foi quando ratos e mais ratos correram pela praça e o meu audacioso amiguinho veio na minha direção.

Sentado nas patas traseiras, com o rabinho a mil e a intrepidez dos indomáveis valentões, todo exibido, ele mostrava a guia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2023.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O mundo dos sapatos

 

O mundo dos sapatos

 

A hora da boia foi boa, e você comeu o quanto quis, comeu o tanto que aguentou, mordeu o bife com os dentes restaurados, bebeu o suco de morango que adoçou com açúcar refinado, chupou com estridência o restinho do suco, tudo sem pressa, mastigando com gosto, sentindo o gosto, pois estava cansado de almoçar correndo, sempre engolindo ligeiro pra não ser devorado feito prato-feito, o tempo se danasse, tinha em compromisso manter-se atento mas em baixa tensão, faria esperar quem não achava certo ficar esperando, podia correr, se apressar, isso não seria problema, quem condicionado à rotina cumpre-a sem vacilar, o desempenho depende, pra não jejuar à toa, tem que pensar, embora nauseado com o mundo, você tome tento ao mastigar.

Não se aborreça, a conta de luz foi paga ontem, o carnê das roupas está pago, a prestação dos óculos em dia, a parcela do celular nunca ficou atrasada, consulta alguma foi desmarcada pela falta de dinheiro, nenhum exame deixou de ser realizado por medo de agulha, vendedor algum gastou saliva, porque você nunca foi de estripulias, assalariado que só faz gastos que não o assaltem à noite, se abusa das neuroses é porque traz ansiolíticos na carteira, você só dá o passo conforme ao solado dos sapatos, caminha olhando pra calçada, quer ver as cascas de banana, você se controla, e toma pouca água porque piso molhado é liso, você não quer se pegar contaminado pelas ansiedades alheias, pense, não se precipite, você pense, não queira sofrer em vão.

E você sofre, que seja por besteira ou algo sério, você sofre, ainda que a obrigação de lavar o quintal seja sua, você brinca com os cães, e não descansa, porque, Zeca, embora seja sábado, dia pra dar aquele passeio pelo bairro, você lava a bicicleta, lava o quintal, lava a casinha dos cachorros, e lava a louça do jantar, sim, você tem cães e pratos.

Os cães estão à porta, e você não se preocupa com os bebuns que desafinam, não o irritam os versos repetidos da canção, você assobia, se anima com o vento, com o ruído que o vento faz quando passa pelas árvores, você tem fome mas não vai beliscar, tem livro pra ler, não tem que retomar a leitura mas quer retomá-la, tem um clarão vindo de fora, dá pra ver a lua, e a contempla, a contempla, “essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo”, nem conhaque você bebe.

Comovido, ainda que nem lhe ocorresse pensar que poderia acabar febril, você se emociona, as pálpebras tremem, a garganta coça, você não tem explicação nem pensa em encontrar uma, tem a mente sapeca de quem tira ouro do nariz, você sente o mundo, tem gente dormindo, tem gente querendo dormir, tem gente com fome, mas você assobia, é gente que sabe assobiar, gente que quer cantar, e você fecha a janela, corre as cortinas, apaga a luz, pois é hora de sonhar com gatos e ratos, e sonhar com um cão que não lhe cace os sapatos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de outubro de 2023.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Um tanto maestro

 

Um tanto maestro

 

De repente, como se um raio tivesse caído de uma nuvem até então imperceptível, alguém reparou e, sem se achar ridículo ou messiânico, tal iluminado disse, com todas as letras, o que poucos tinham reparado: a vida era outra antigamente, até recentemente, até o instante em que a verdade do que ficou explícito virou a valer como placebo universal, ou seja, será difícil voltar ao que se conhecia, ao que nem se percebia, que era algo muito manjado, bem comum: a vida era simples, não pela simultaneidade, pela convivência não excludente, porque havia tempo para tudo, e ao mesmo tempo.

Sem chamar a atenção sobre si, o tempo seguia o seu curso como um rio que vai em frente sem se orgulhar, mas envaidecido, do respeito pelas margens que o instituem amigo, camarada e parceiro da fauna e da flora, e naturalmente do homem, que é esse bicho que não sossega até ser definido, logo abaixo do Homem Lá do Alto, como o cabeça da comédia cósmica.

Neste pastelão de cinema mudo, dá pra citar a elevada pressão que destempera, porque há: tempo pra amar e tempo pra odiar; tempo para semear e colher; tempo para dormir e para acordar; tempo de comer à mesa e para comer falando ao celular; tempo pra cancelar desafetos e tempo pros prosélitos; tempo de verão no inverno e dilúvio numa hora; tempo pra perder a esportiva com o aumento da gasolina e para ganhar a vida com hidrogênio verde, placas solares e papaias das barrancas do São Francisco.

Tempo transtornado por ciclones extratropicais, guie. Sem marra, e só por farra, oriente à alopração os tenentes.

Peça pra aplaudir com empolgação. Que os pés sejam batidos, que gritinhos sejam soltos, haja saltinhos no lugar. Façam-se fãs quem ficar à vontade no papel de paspalho excitado ou fiel abobalhado.

Em caso de arrependimento, haja mão no peito e olhar vidrado. Pois o delírio é força a ser dimensionada na apreensão do instante.

Haja arroz e feijão de cada dia e haja vinho nas noites de luar. Haja livro aberto no metrô e gritos em qualquer canto. Quem viva agindo por impulso seja quem sobreviva à lógica. A metade de uma com a metade de outra: seja una, seja uma, seja pessoa.

Os velhos tempos e os novos tempos dão um nó na gente, mas os delirantes sentem que ontem e hoje são um só, e sabem que o amanhã não existe nem haverá de existir.

Nas calendas soviéticas, a joça vivia ruça.

Nos velhos tempos, Cuba vivia cercada por soviéticos por todos os lados. E os soviéticos eram tantos, e vinham das beiras de Angola, das montanhas da Albânia, das barbas de Tito, dos mandarins cantoneses, das araguaias da Ilha Grande; e muitos cubanos eram soviéticos.

Mas os tempos são outros, nem charutos têm fumantes nem taças, amantes. Hoje o tempo da gente vale um bocado.

Pornograficamente, as redes viralizam a informação mais recente: opinião sem lastro não afunda, é foto que medra sem fatos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de outubro de 2023.

domingo, 1 de outubro de 2023

Passando pano

 

Passando pano

 

Pouco tenho ficado na varanda desde que removi a rede, faz já três meses. Se me emocionassem todas as coisas que faço, valorizaria as variadas sensações que o tédio produz. E teria certeza de que o tempo decorrido seria maior, bem como seria entorpecedora a serenidade.

Como não coro quando chuto a esmo, juro que certas estranhezas advêm da rede retirada. Porque cacholas serenamente entediadas têm autonomia, não nego que deploro quando penso nas messes de alface que teria feito nesse semestre. Sem balançar, indo fundo nessa versão horticultor, estaria ocupando a mente com o financiamento da próxima semeadura. Cáspite! Haja grana pra aparar tanta grama.

Não haja engano: uma pessoa determinada a mudar crê mesmo na mudança tão logo pense em transformações.

Vou voltar à varanda. Elevarei o pensamento: o que mais me alegra no momento é sentar quieto para admirar as abelhinhas voejando entre as lavandas do jardim. Esquecerei a rua. Para melhor tranquilizar-me, vou fechar meus olhos. Não vou trazer de volta a rede porque isso seria retroceder, e eu sou progressista. Ao pensar no mel e no trabalho que as abelhas têm para produzir o mel, vejo-me numa cadeira de balanço a calcular a felicidade de ficar valorizando a natureza.

Sem nenhuma obrigação de fazê-lo, abrirei os olhos. Diante de mim terei a realidade da varanda, outra vez. E verei o que posso fazer com o que enxergarei. Incomodado, indignado, ressabiado, tendo nas mãos o favo que colherei, vou revolucionar a varanda.

Serei verdadeiro. Direi que o ouro do fim do arco-íris tem cor de mel, cheiro de mel e sabor de mel. Fruto da liberdade, o mel que eu imagino é o ouro de que preciso, porque poderia rejeitá-lo.

Embora a varanda esteja empoeirada, pouco atrativa, vou restaurá-la, torná-la-ei o centro da casa. Cobiço o mel, e quero adoçar-me.

Para que o doce mais doce até enjoe por tanta docilidade, volto-me à varanda abandonada. Outra vez ativo, eu varro, retiro o grosso do pó e verifico com mais vagar, com maior cuidado.

Porque será preciso, lavarei e esfregarei, suarei sem dó.

Só depois é que a cadeira de balanço concebida por minha mente virá à varanda.

Comprarei tal objeto. Como ele há de ser, buscarei na internet.

Que a madeira seja dura e os cupins não a afetem. Que o desenho permita um balanço agradável, suave, silencioso, tranquilizante. Que a manutenção desse balanço pouco exija das pernas. Que a leveza leve ao sono, ao cochilo, ao desejo de permanecer mais um pouco, só mais um instante, um instantezinho de nada.

Mas é madrugada. Chamaram a polícia porque é madrugada.

Que eu pare com aquele barulho. Só maluco faz faxina às duas da matina. Eu aja com sobriedade. Se tudo tem hora, nem toda hora é pra tudo. E o sonho de balançar não se sobrepõe ao silêncio.

Melada de sonho, a cachola solta:

ꟷ Passar um paninho, isso eu posso?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2023.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Vaca amarela

 

Vaca amarela

 

Confesso que excepcionalmente hoje estou preocupado com o que vem a seguir. Nos momentos de atribulação com o futuro, noto que viro coadjuvante. Não sou eu que me circunscreverei encruado no incerto, será a escuridão. A crônica tome o rumo que houver que tomar. Assim, sem querer mas sem descuido, o escriba entrega o fim: deslocando o começo, tumultuando no meio e, só mais um pouquinho, adiando o fim, a anedota do pastorzinho que grita gratuitamente que o lobo vai atacar o rebanho fique subentendida como fragmento a retratar o contexto.

Sendo a crônica fluxo, haja refluxo.

À vista disso, Honório, eu próprio sou instado a tomar um antiácido, ou padecerei azedumes mais cáusticos que os costumeiros. E cronista a ponto de pular na jugular da primeira pessoa que ouse inquiri-lo é nó a ser desfeito com espada, adaga ou lasca de vidro.

Se houvesse outro projeto, dá-lo-ia como promissor, mas não há.

O cronista não é engenheiro nem arquiteto, suas ficções nada mais são que palavras após palavras. Cuidando para que continuem sendo, firmem-se as palavras.

Tomo cuidado comigo, que posso sumir no ar. Frágil, posso explodir com a próxima palavra. Se não é espinho, ela é: ruptura. Pois, solto ao teclado, digito: bolha de sabão que acaba sumida, aqui.

Bem aqui, percebo que vim pra cá, mas ainda quero ir pra lá.

Lá é a janela. Da janela do quarto, eu vejo: o céu é azul.

Se soubesse calcular o tempo, diria que o sol marca sete e quinze.

Com a janela aberta, o bafo quente do vento me estapeia e diz: Seu Rodrigues, estas maritacas que cruzam o céu, ainda que nem se pense nisso, elas voltarão logo mais, quiçá ao meio-dia.

Volto a cerrar as cortinas. Retorno à cama. Não dormirei, está muito quente e o calorão me incomoda. Gosto do frio, pois durmo melhor, eu como melhor e relaciono-me com as pessoas com bom humor, sem os ressentimentos de cidadão contrariado.

Tadinho de mim que fico com as cortinas fechadas, mesmo que elas não vedem totalmente a luminosidade, espero as maritacas voltarem e que o sol a pino me diga: é meio-dia, é hora de ter sono.

Sono! E não fome.

Então a liberdade é não saber qual a próxima palavra? Sabendo as opções, liberdade é poder escolher qual palavra: a implícita seria sono; ou esta, a desvelada fome.

Faminto de novidades, ligo a TV.

Em vez de entrar mudo e sair escamado, o cagoeta fala: morto não sobe rampa porque morto bom jaz bem sepultado; vampiro selado na campa não padece calamidade, carece de eternidade; o Caetano que Sampa ama é o Caetano que ama Sampa.

Samba!

Sobre a próxima crônica, digo: será flamenguista; será melancia por fora e por dentro; integrada ao tempo, a pobrezinha fará rir; com efeito, fará rir desbragadamente; com o sol forte das alucinações, ela será um chapéu; mágica, ela nascerá de fezes; irremediavelmente, a psica será cubensis.

Cadê a vaquinha, Honório?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de setembro de 2023.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Boa gente

 

Boa gente

 

Mesmo que as rotulem idiotas, há pessoas que sorriem quando lhes são feitos pedidos. Ficar de braços cruzados não tem graça, melhor é limpar caixa d’água. Sim, dinheiro importa, mas o menor bico é menos estressante que a ociosidade. Pois dez minutos em inatividade é mais exasperante que tirar cinquentinha por trocar um sifão em dez minutos.

Tem gente que vende a imagem de pessoa que não gosta de perder tempo, só não revela que faz tudo às pressas. Sem falar na dificuldade que é encontrar um portão mal pintado que testemunhe a favor dessa gente que vira maria-mole porque tem trabalho duro pra dar conta.

Com a experiência, sempre vem o momento em que o fígado toma a iniciativa de suplicar por alopáticos bem conceituados.

Afora o bom conceito dos seus princípios ativos, pro fármaco chegar a quem demanda uma limpeza quântica das entranhas que as estrelas recomendam, as maiores redes de farmácias sabem ser audazes com a respeitável audiência, ou não contratariam carinhas conhecidas que o público legitima como astros de ilibada magnitude.

Todo corpo de brilho intenso gera campo magnético, mas não basta simpatia a famosas e famosos, para que a atração gere calor e o calor seja transformado em afeto, eles têm que ser subscritores deste adágio elementar: como não machuca o prestígio nem arranha a consciência, dinheiro é chaga boa de coçar.

E gente que adora coçar a bondade alheia sabe integrar-se à fama, fazendo mais relevante quem mereça curtidas contínuas, perscrutando postagens pra que mais pessoas julguem positivamente quem merece que as curtidas sigam em alta, examinando imagens com o objetivo de expandir órbitas, tornando vasto o território iluminado pelos astros que não cessam de evoluir, esculpindo a aura bruta até que venha à luz a alegria deste ser que não enjoa, não entedia nem repele, o ídolo.

Não se trata de “sarna”, trata-se de “generosidade”.

Assim como beijar fotos de gente admirável é uma coisa excelente, replicar gentilezas é rebelar-se contra os amargos, os pessimistas e os reacionários.

Fulcral é denunciar essa turba que não propaga o amor, mas almeja ser agradecida pela mente aguçada. Embora admita trazer um buraco negro na alma, esta chusma adora fazer-se inútil, disfuncional, mão na roda pra atrapalhar quem deseja alçar-se à fortuna.

Aliás, é de bom-tom afirmar que cachê graúdo não impulsiona quem diz que é amoroso não dispensar a ajuda de pessoas solícitas que não conseguem manter-se de braços cruzados.

Eita!

As estrelas são adoráveis justamente porque intuem: quem trabalha pra caramba leva jeito pra fama de não ter vergonha de aceitar a ajuda de mãozinhas colaboradoras.

Alma altruísta, que só sabe ser gentil sem moderação, faça selfies, compartilhe os elogios que lhe fazem, beba sem cara feia a mistura de conhaque, vermute e suco de limão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2023.

domingo, 24 de setembro de 2023

Até parece

 

Até parece

 

A sumida andava pelo corredor como se as vitrines não piscassem quando olhadas com tanto carinho. Só que as vitrines olham dentro da gente, fazem a gente suspirar, fazem com que a gente queira virar os homens vestidos e as mulheres montadas que olham a gente de dentro das vitrines.

A sumida, dona Paloma, zanzava pelo corredor porque sabia que a gente sempre acaba piscando de volta aos homens e às mulheres das vitrines porque a gente também vive para agradar quem passa, porque o reflexo percebia mais do que a gente via.

Mas a gente sabia o que se passava, a gente desejava mais.

A sumida estava na passarela, e a gente queria o mesmo. A exibida pensava que era diferente, a gente achava o mesmo. Mas a diferença é que ela suspirava pelas roupas porque tinha dinheiro na bolsa.

As vitrines olhavam a bolsa da exibida. Reconheciam, a bolsa tinha fama. E todo mundo sabia que era famosa pelo preço. E a famosíssima podia zanzar porque dava na vista o quanto custava.

Os homens e as mulheres das vitrines que estralassem os ossinhos do pescoço, mas continuassem de olho na sumida exibida que tinha o brilho da famosíssima. Pois a bolsa e os olhares sobre a bolsa tinham muito mais importância que a menina.

Lá na frente, a menina dava o dinheiro para pagar a casquinha.

A menina tinha idade para saber que o certo era pagar e receber o troco, pois a moça que vendia sorvete sabia o dinheiro certo que tinha que dar de volta.

Lá na frente, a menina sabia que tudo bem, que ia pagar por outro sorvete e depois outro, até que não restasse troco algum. Ela aprendeu que dinheiro serve pra pagar o que a gente quer. Ela não queria passar vontade, pois não seria mesquinha só pro dinheiro não acabar.

A sumida que não via a menina lá na frente não ligava que estivesse pagando pela casquinha. Não era fingimento, porque a pessoa quando fala no celular não enxerga quem passa ao seu lado.

Embora a menina tivesse passado ao seu lado para ir lá na frente chupar sorvete, ela nunca fez o tipo de gente que usa o telefone para não ver quem passa ao seu lado. Se ela fosse esse tipo de gente, nem teria reparado nos homens montados e nas mulheres vestidas.

Ela reparou. Tanto reparou que ela tirou um chiclete da bolsa. Tudo bem, chiclete podia, cigarro é que não podia por causa daquelas placas que estavam nos corredores, até no banheiro.

A gente que toma refri faz xixi. Até gente exibida faz xixi depois que bebe água. E o xixi sai quentinho mesmo com o refri geladinho.

Ela reparou que a sumida tinha tomado refri fazendo cara de gente que bebia cerveja.

Quem faz esse tipo de coisa é gente boba. É gente que pensa que menina que toma sorvete não entende que cerveja e casquinha não se misturam. É claro que a mistura dá um nó na barriga, faz a gente correr sem olhar pra trás.

Se faria mal de novo?

Palomita, a gente sempre tem piriri depois que toma três sorvetes de uma vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2023.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A festa

 

A festa

 

Tempo livre é pra esquecer o trabalho, não abrir e-mails, tirar o som do celular. Mas devolver de prima a bola vinda da casa vizinha é alegria a quem se diverte com chute fragorosamente torto.

O cheiro de churrasco é uma tentação, dá até pra adivinhar a carne na grelha. A prosa solta aguça a vontade de ouvir o que falam aquelas pessoas, que devem ter caído da cama porque é sábado.

“Ora, ora, carambolas, que venham mais bolas.”

Sem necessidade de seguir as notícias, sábado é bom. Entre o que se passa na TV e a conversa à toa dos vizinhos, tantos fatos obscuros ficam mais bem esclarecidos ao redor da churrasqueira.

As pessoas opinam, procuram não se entusiasmar mas se exaltam, de repente elas batem o pé de que estão certas. Porque certezas viram verdades, haja bate-boca.

“Perder a folga com discussões? Melhor nem sair da cama.”

Distrair-se com a família em atividades no quintal em dia ensolarado pode ser algo prazeroso, mas não é razoável obstinar-se com o prazer só porque seja sábado.

Se não é preciso correr pro trabalho tão logo abra os olhos, dá para abri-los, encarar o teto pelo quanto quiser e não se lamentar das coisas deixadas para depois.

Mas não é por falta de tempo que coisas postergadas continuarão adiadas, é porque o corpo cansado tem a mente cansada.

“Se der para escapar de servicinhos cansativos, escape.”

Sem a obrigação de ajeitar gavetinhas travessas que emperram em momentos impróprios, é desanimadora a ideia de rasgar contas de luz e água dos cinco anos anteriores aos últimos cinco anos. Além do que, o esforço mecânico dos braços seria enfadonho.

ꟷ Amor, olha a hora.

No feriado mais recente, poderia ter aproveitado de um jeito melhor o tempo que passou pondo óleo nas dobradiças. Só que o rangido das portas incomodavam havia semanas, um mês, então, foi preciso agir, embora não fosse sábado nem domingo, fosse um feriadão belíssimo, com um sol maravilhosamente esplendoroso.

“Se não deseja ter afetados os nervos, não ajuda deixar pra amanhã o que deveria ter sido feito ontem.”

Todavia, encher um saco com papelada inútil não é a mesma coisa que aparar a grama. Verificar que receitas devem continuar guardadas é menos doloroso que levar picada de aranha.

Ainda assim, é sábado.

É sábado, não precisa sentir culpa por continuar na cama. Não tem que ir fazendo aquilo que a consciência determina que seja prioritário. Num sábado de sol, não há nada de errado com quem ignora a grama alta, as caixas de sapato separadas para os novos papéis e o uniforme amarfanhado.

“Quem chega bêbado da despedida de solteiro de alguém da firma tem que se lembrar do bendito nome.”

ꟷ Já se aprontou?

Vá com calma, é sábado. E quem acha que paga o preço da noitada ficando de cueca passa o recibo de pateta. Como a cabeça dói e a azia está de lascar, não hesite, aproveite a ducha, dê aquela relaxada.

ꟷ Tô indo, Amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de setembro de 2023.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Abençoada

 

Abençoada

 

Até inventarem de enviá-la a um lugar chamado escola, nem ligava que existissem despertadores, calendários e presentes de última hora.

Sabê-los mais do que palavras não a convenceram de que o melhor para a saúde era dormir oito horas por noite.

A desejar aborrecido quem insistia que fosse deitar-se mal a novela das nove começava, o sono era o vilão nessa queda-de-braço, pois ele vinha antes do primeiro intervalo.

Era natural que adormecesse durante o jornal, uma vez que, depois de mil e uma travessuras, bastava fazer carinha de anjo cansado para ganhar o beijinho, imprescindível para afugentar certo monstro, um que gostava de subir à cama para resfriar o seu pijaminha.

Que tempo bom era aquele, de diversões e descobertas.

Eram dias em que a sua mamãe contava-lhe histórias de princesas enfeitiçadas, decantados príncipes e dragões sagazes.

Àquela época, alegria maior era quando a sua mãe vinha acordá-la muito depois de ter enfrentado as roupas da família.

Mesmo que não usasse o sabão em pedra que a televisão dizia ser imbatível contra as manchas mais tinhosas, era mãe que tinha truques, e, mesmo de mãos limpas e unhas por fazer, era vencedora.

Ela sempre vencia, que crueldade gratificante.

Se ao menos suas fraquezas fossem evidentes, seria a melhor mãe do mundo. Mas ela tinha o olhar de quem não aceitava perder qualquer discussão, principalmente as bobas, que ela nunca começava.

Altiva, impunha aquelas regras inquestionáveis, desse jaez: criança só podia brincar depois de aula, almoço e ter escovado os dentes.

Mas domingo era diferente: depois da missa, da macarronada, dos dentes escovados, podia brincar à vontade. Se não chegassem visitas, podia correr, pular e até chorar por causa de joelho ralado.

Para deitar em paz, Jesus!, tinha que lavar atrás das orelhas, limpar o prato e tratar de escovar direitinho os dentes, ou nem poderia assistir à zebrinha da loteca.

Durante o ensino médio, uma vez que não suportava os perrengues de suplicar esmolas para cercar o jogo da sorte, essa criança começou a trabalhar.

Já empacotadora num supermercado, ia de ônibus pro trabalho.

Como gastava o que poderia economizar, semeou e colheu a ideia: depois que comprou a sua primeira bicicleta, não tinha que se justificar pelas cervejinhas às sextas.

Andar de bicicleta fortaleceu-a. Disciplinou-se pra fazer quilômetros com a magrela. Meses depois era capaz de ir da sua casa ao trabalho sem ter atrasos descontados do seu salário.

Veio a Covid-19; também veio o pé na bunda.

Como criança que sabe se virar, virou-se: tirando setenta reais por dez horas de correria, entregou-se à próxima realidade: antes do Natal, para sentir o cheiro dos cento e vinte reais de cada dia, pagou, Aleluia!, a primeira das quarenta e oito parcelas da 125 cc que lhe deu asas pra pegar corredor a cem por hora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2023.

domingo, 17 de setembro de 2023

Tocante

 

Tocante

 

Ainda que disponha de um copo d’água, o que pega é uma tristeza. Tamanha é a singularidade da sensação que fica dispensável tomá-la, sequer de quando em quando, aos golinhos.

Manter o copo intacto não apaga a face iluminada pela luz do poste. E tal pessoa, que se contempla no vidro, percebe-se triste.

Se não tivesse o copo d’água, seguiria seca, secamente triste, uma vez que não o trouxe pela sede, tampouco pela companhia. Trouxe-o, pois a sua intuição disse-lhe para levá-lo. Contra a languidez afeita ao triste, ao contemplá-lo meio cheio, percebe o vazio, e tão só.

À espreita, sequer a janela basta. Vê a rua. Não passam os ciclistas. Também os apressadinhos estão sumidos. Sequer deseja vê-los, nem lhes quer saber os destinos.

Dos ciclistas e apressados, supõe que nenhum enxergue-se nessa fissura, que vai crescendo, sinapse depois de sinapse, até a aurora do estrago, de uma percepção convulsionada.

Mas essa pessoa à janela tem o copo d’água pra necessidade que possa ter, pra garganta ao desconfortá-la, ao forçá-la a beber.

Triste, porque desconfortável com a caquexia, com o torpor de estar preso ao sono, ao cansaço, pois foi acordado por gatos no telhado, no cio, no embate, pela disputa.

Também os gatos pararam e foram embora. Restou-se à tristeza e ao cansaço. Também poderia ir-se, aproximar-se dos homens debaixo do toldo. Também se percebe silenciosamente atento.

É madrugada. A garoa cai.

Na esquina, os dois bebem no gargalo. A cabeça de um no colo do outro. O que bebem é o que os alimenta, os embriaga.

A garrafa rende. Não precisam tomá-la como quem precisa se livrar de evidências. Não há crime. Bebericam, e papeiam.

A pessoa na janela não tem pressa alguma. Ela observa, e enxerga. Os homens que bebem não precisam ficar incomodados, pois ela não irá até eles nem pedirá fogo pro cachimbo. Ela é gente que não intimida nem espanta, porque não fala alto e não diz barbaridades.

Quem não se entedia, contempla, permite-se ver com calma.

Quem é igual a si mesmo fica entediado com a inação, com a falta de mudança, com a perspectiva de continuar igual a si, ainda que haja outro dia, outro instante, outras pessoas.

Quem é igual a si apesar do mundo, pouco sabe de si. Não percebe o quão negativo é crer-se imutável. Ainda que o mundo nunca pare de alterar-se, quem luta pra manter-se impassível nega-se, teme-se, quer ver-se longe da rua, dos bebuns, da garoa da madrugada.

Enjoada de tédio, a pessoa sabe que é hora de tocar adiante.

Os bebuns teimam em tirar das tripas a friaca. Também se aquecem com os corpos. Eles têm algum tempo até virem ciclistas e apressados que vão palpitar sobre suas carícias e a cachaça.

Ao seu dispor, apenas água. E a pessoa à janela pensa nas faturas que pagará quando chegar a hora de ir pagá-las. Se tem água, melhor que seja bebida, todinha.

A infeliz dá com o nariz na vidraça, todavia tonta de raiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de setembro de 2023.


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Foco

 

Foco

 

É balela dizer que atualmente o tempo voa a tal velocidade que até a luz demora uma merrequinha para afigurar-se uma ideia. Penso, logo foi-se o Concorde. Nestes momentos, o dia empaca, mas faço de conta que o esvaziamento da mente é comigo.

Como meditar é competência, ouço música. Uma vez que canções têm poder sobre mim, porque as palavras me encantam, escolho uma peça instrumental. E imagens vêm e vão, transmutam-se; magnéticas, seduzem a pensar. Tanto penso que a música vira paisagem, passa a segundo plano. Com sonatas para piano ou quartetos de cordas, trato de não fazer o esforço de pensar sem palavras, que somem numa boa. Como efeito do pensamento não consciente, a respiração é relaxante, eu sossego o ego. Estou em mim, todavia me restrinjo. Sem ausência e sem falta, eu abro espaço. Desatento ao instante, é neste ínterim de eternidade que saboreio não satisfazer qualquer desejo.

Por que cargas d’água Palhaço haveria de combinar com a legenda sobre um cerco numa floresta da Pensilvânia?

Naquele mato tem lobo, disso eu não duvido. Segundo asseveram doutos severos, o lobo é o homem do lobo. Nisso, arremato a charada: a massa cinzenta do cérebro combina com o cinzento da pele. Assim, fica constatado que a força vital é constante no universo.

O que não determina que o cosmo esteja eternamente indo e vindo. O que acarreta é que o sonho de Brahma está em sintonia com o sonho do Gismonti revelado em mim pela respiração.

Pressinto que há muito que ver entre a oxigenação do meu cérebro por Infância e a exsudação da mata nesse Condado de Chester.

Penso no lobo e na loba que alimentam os filhotes. Têm estratégias pra assaltar coelhos, esquilos e castores. E redimensiono o alcance do que suponho: a matilha tocaia bisões e alces, abocanha-os.

Ao descuidar das caraminholas em suspensão, o olhar apaga-se da realidade, cujo escrito na tela não identifica como sendo minha a alma da carne estirada no sofá, ainda que legende o que nem sei o que seja, isso: South Coventry.

O disco Alma é sensacional, até o engano é sanado sem que suba à consciência que alcateia é coletivo de lobos e matilha, de cães.

Não preciso traduzir em palavras a imagem de mulheres e homens ao redor de uma fogueira. Cirandam, e brincam. No que ouço, também estou na roda, e brinco, estou concentrado no Maracatu.

Quem não trava é a câmera. Do helicóptero, ela localiza os animais que cercam uma pilha de troncos. A alcateia difunde calor. Mas é uma temperatura diferente que permite a localização de outro indivíduo em uma montanha de lenha.

Aqui e agora, focalizo: eu Frevo!

Os lobos ajudam o sujeito. Que a sua captura seja instantânea, sem danos aos caçadores. Sua tatuagem seja mostrada a todos os rincões da Terra.

Estrela do Meio-Dia, que ele cumpra o que a lei dos homens lhe reserva: seja fotografado com o Yoda que o lambeu no cocuruto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2023.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Remodelado

 

Remodelado

 

Quem fala comigo é um rapaz. Não acredito no que me fala. Ouço-o enquanto como uma coxinha. A circunstância talvez me faça achá-lo um mentiroso ou seu relato é mesmo sem pé nem cabeça. Se bem que a fome tem o condão de fazer-me arredio, mais ácido do que ingênuo. Não finjo ouvi-lo com interesse. Prefiro ver os gols da rodada. Ressalto uma cobrança de pênalti, desperdiçada. Sem o persuadir de que a sua fala aborrece-me, ele ignora que eu quero acompanhar os gols. Talvez haja um fundo de verdade no que insiste em contar-me, mas a coxinha tem prioridade porque não como desde as seis horas da manhã.

ꟷ Se me permite, rapaz, é sério, preciso almoçar.

Dando-me as costas, o rapaz senta-se ao balcão.

Que história mais maluca. Pouco verossímil. Só pode andar mal da cabeça quem passa pra frente uma maluquice dessas. Cheia de furos, incongruências, absurdos.

É uma coisa inacreditável, algo que não se deve compartilhar sem que se queira provocar risos ou não se tema passar vergonha.

É provável que o doido acredite na veracidade da história, ou estaria bem da cachola. Não está. É coisa de biruta esperar que uma pessoa interrompa o almoço para escutar asneiras, disparates, mentiras.

E como mente mal quem diz que ouviu falar por um amigo do amigo do tio que um menino cego faz prognósticos da loteria. Que ele ganhou cinquenta e cinco vezes. Só da bolada principal da Mega foram trinta e três. Sem falar de quinas, quadras e milhar na cabeça, se fosse para computar tais vezes, aí passariam de milhares de acertos.

Apesar de milionário, o meninão continua cego. Contudo, na versão mais sincronizada ao espírito da nossa era, o bilionário teria implantado câmeras conectadas ao cérebro.

Quanto à visão, o guri está feliz porque enxerga só a verdade.

Quanto a curtir a vida, quantas frustrações!

O corpo aceitou os implantes, mas sua mente, não. Logo, o sangue tem que ser trocado. É preciso alimentar veias e artérias com óleo. Pra soltar puns fedorentos, é preciso injetar óleo de alto teor de enxofre. E uma vez por semana, checam a qualidade do sistema sanguíneo. Uma vez ao dia, ele injeta um soro de alho.

Ele dorme de cabeça pra baixo? Não. Foge do sol? Sim. Faz vinte e quatro horas por litro? Faz.

Acertei ao pedir-lhe para eu comer a tal coxinha?

ꟷ Peço-lhe desculpas. Você trouxe de volta um período em que eu estava mal. Foi um tempo complicado, difícil, um inferno de estresse e torres e torres de cerveja contra os meus faniquitos. Mas, estou melhor. Hoje eu valorizo o trabalho. Se a bola que bate na trave precisa repicar nas costas do goleiro pra cruzar a linha, eu sei que é gol. E cada gol é alegria. Rapaz, vir pedir-lhe desculpas é gol que contabilizo como um tento a mais no saldo positivo. Pra ganhar campeonato, a gente precisa destruir os adversários. Sei que sim.

Em vez de oferecê-la quente, o cara bebe a soda toda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de setembro de 2023.