O
pomo da concórdia
Imbuído da verve de bom entendedor,
basta que desconfie de algo estranho para eu começar a rastrear o que não é
dito. Mergulhado em tal espírito, o de farejador de entrelinhas, deixo entrar
Luisinho, aquele que, tão seguro de si até em falsete, costuma dizer “faço o
que quero”, como se fosse incontornável ouvi-lo a dizer: “sou livre”.
Quando uma pessoa cobra dele um
posicionamento claro a respeito de algum assunto que esteja em evidência, notei
que o meu amigo nem percebe que tem esse tique, ou já teria tirado melhor
proveito, mas sua voz se altera quando pensa uma coisa e fala outra.
Desta vez, ao dizer que faz o que deseja,
ele pretende dizer que faz o que se espera que faça, ou a sua presença seria insuportável.
Então, tal liberdade é osso enterrado no
jardim. E cavarei porque o meu instinto carniceiro gosta de roer o que seja, só
pelo cheiro, até que o tesouro desencavado torne inútil a imaginação.
Dá gosto modelar a carne, juntá-la ao
osso, a carne ligada à carne. Sem precipitação, o esqueleto pare em pé. Sem neurose,
haja o corpo. Para que a ideia baile, haja identificação. Que a ideia seja esmiuçada.
Que os detalhes traduzam a encarnação, e leia-se o símbolo.
Encaro a tarefa, debruço-me sobre a circunstância.
Estou sentado. Chupo uma laranja. Há um
par de rolinhas rondando o banco em que estou sentado chupando uma laranja. Os
passarinhos não comem as sementes que eu cuspo. Não brotará uma laranjeira no
cimentado. Sei que as aves não têm fome, é que mais cedo joguei-lhes migalhas.
As duas rolinhas não arrulham nem pipilam. Enquanto chupo uma laranja sentadinho
no banco que eu fiz, elas ciscam. Temerosas de que possa comê-las, as teimosas
ciscam.
Desato o nó: rolinhas não são pombas; elas
não representam a paz; ao fritá-las, não terei cometido nenhuma barbaridade.
Luisinho diz que penso muita bobagem,
digo coisas absurdas para causar indignação, provoco as pessoas, só que nem
todo mundo gosta de gente que parece se divertir com a irritação dos outros.
Ora, a natureza ensina, mas poucas
pessoas a compreendem.
Se a macieira é sacudida, maçãs irão
cair. Se uma escada é usada, maçãs serão colocadas no cesto. Maçãs
acondicionadas no cesto não serão amassadas, logo vão demorar para estragar. Se
mais maçãs são vendidas, mais dinheiro entra no bolso. Então, a pessoa cheia de
maçã não tem que vender caro as suas compotas de geleia.
Então, Luisinho diz: se a macieira é
sacudida, não será preciso usar escada; a pessoa com vertigem não cairá;
ninguém correrá à farmácia atrás de creme analgésico; a sopa será servida de
quando em quando; a dor na costela será menor desde que a pessoa fique deitada,
procure não se mexer, tome a sopa quente de mandioquinha.
A razão prepondera: uma vez que o
universo induz que chupemos, nós sacudimos a laranjeira, e cuspimos, só o
bagaço nós cuspimos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de outubro de 2023.