domingo, 24 de setembro de 2023

Até parece

 

Até parece

 

A sumida andava pelo corredor como se as vitrines não piscassem quando olhadas com tanto carinho. Só que as vitrines olham dentro da gente, fazem a gente suspirar, fazem com que a gente queira virar os homens vestidos e as mulheres montadas que olham a gente de dentro das vitrines.

A sumida, dona Paloma, zanzava pelo corredor porque sabia que a gente sempre acaba piscando de volta aos homens e às mulheres das vitrines porque a gente também vive para agradar quem passa, porque o reflexo percebia mais do que a gente via.

Mas a gente sabia o que se passava, a gente desejava mais.

A sumida estava na passarela, e a gente queria o mesmo. A exibida pensava que era diferente, a gente achava o mesmo. Mas a diferença é que ela suspirava pelas roupas porque tinha dinheiro na bolsa.

As vitrines olhavam a bolsa da exibida. Reconheciam, a bolsa tinha fama. E todo mundo sabia que era famosa pelo preço. E a famosíssima podia zanzar porque dava na vista o quanto custava.

Os homens e as mulheres das vitrines que estralassem os ossinhos do pescoço, mas continuassem de olho na sumida exibida que tinha o brilho da famosíssima. Pois a bolsa e os olhares sobre a bolsa tinham muito mais importância que a menina.

Lá na frente, a menina dava o dinheiro para pagar a casquinha.

A menina tinha idade para saber que o certo era pagar e receber o troco, pois a moça que vendia sorvete sabia o dinheiro certo que tinha que dar de volta.

Lá na frente, a menina sabia que tudo bem, que ia pagar por outro sorvete e depois outro, até que não restasse troco algum. Ela aprendeu que dinheiro serve pra pagar o que a gente quer. Ela não queria passar vontade, pois não seria mesquinha só pro dinheiro não acabar.

A sumida que não via a menina lá na frente não ligava que estivesse pagando pela casquinha. Não era fingimento, porque a pessoa quando fala no celular não enxerga quem passa ao seu lado.

Embora a menina tivesse passado ao seu lado para ir lá na frente chupar sorvete, ela nunca fez o tipo de gente que usa o telefone para não ver quem passa ao seu lado. Se ela fosse esse tipo de gente, nem teria reparado nos homens montados e nas mulheres vestidas.

Ela reparou. Tanto reparou que ela tirou um chiclete da bolsa. Tudo bem, chiclete podia, cigarro é que não podia por causa daquelas placas que estavam nos corredores, até no banheiro.

A gente que toma refri faz xixi. Até gente exibida faz xixi depois que bebe água. E o xixi sai quentinho mesmo com o refri geladinho.

Ela reparou que a sumida tinha tomado refri fazendo cara de gente que bebia cerveja.

Quem faz esse tipo de coisa é gente boba. É gente que pensa que menina que toma sorvete não entende que cerveja e casquinha não se misturam. É claro que a mistura dá um nó na barriga, faz a gente correr sem olhar pra trás.

Se faria mal de novo?

Palomita, a gente sempre tem piriri depois que toma três sorvetes de uma vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2023.

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