quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Foco

 

Foco

 

É balela dizer que atualmente o tempo voa a tal velocidade que até a luz demora uma merrequinha para afigurar-se uma ideia. Penso, logo foi-se o Concorde. Nestes momentos, o dia empaca, mas faço de conta que o esvaziamento da mente é comigo.

Como meditar é competência, ouço música. Uma vez que canções têm poder sobre mim, porque as palavras me encantam, escolho uma peça instrumental. E imagens vêm e vão, transmutam-se; magnéticas, seduzem a pensar. Tanto penso que a música vira paisagem, passa a segundo plano. Com sonatas para piano ou quartetos de cordas, trato de não fazer o esforço de pensar sem palavras, que somem numa boa. Como efeito do pensamento não consciente, a respiração é relaxante, eu sossego o ego. Estou em mim, todavia me restrinjo. Sem ausência e sem falta, eu abro espaço. Desatento ao instante, é neste ínterim de eternidade que saboreio não satisfazer qualquer desejo.

Por que cargas d’água Palhaço haveria de combinar com a legenda sobre um cerco numa floresta da Pensilvânia?

Naquele mato tem lobo, disso eu não duvido. Segundo asseveram doutos severos, o lobo é o homem do lobo. Nisso, arremato a charada: a massa cinzenta do cérebro combina com o cinzento da pele. Assim, fica constatado que a força vital é constante no universo.

O que não determina que o cosmo esteja eternamente indo e vindo. O que acarreta é que o sonho de Brahma está em sintonia com o sonho do Gismonti revelado em mim pela respiração.

Pressinto que há muito que ver entre a oxigenação do meu cérebro por Infância e a exsudação da mata nesse Condado de Chester.

Penso no lobo e na loba que alimentam os filhotes. Têm estratégias pra assaltar coelhos, esquilos e castores. E redimensiono o alcance do que suponho: a matilha tocaia bisões e alces, abocanha-os.

Ao descuidar das caraminholas em suspensão, o olhar apaga-se da realidade, cujo escrito na tela não identifica como sendo minha a alma da carne estirada no sofá, ainda que legende o que nem sei o que seja, isso: South Coventry.

O disco Alma é sensacional, até o engano é sanado sem que suba à consciência que alcateia é coletivo de lobos e matilha, de cães.

Não preciso traduzir em palavras a imagem de mulheres e homens ao redor de uma fogueira. Cirandam, e brincam. No que ouço, também estou na roda, e brinco, estou concentrado no Maracatu.

Quem não trava é a câmera. Do helicóptero, ela localiza os animais que cercam uma pilha de troncos. A alcateia difunde calor. Mas é uma temperatura diferente que permite a localização de outro indivíduo em uma montanha de lenha.

Aqui e agora, focalizo: eu Frevo!

Os lobos ajudam o sujeito. Que a sua captura seja instantânea, sem danos aos caçadores. Sua tatuagem seja mostrada a todos os rincões da Terra.

Estrela do Meio-Dia, que ele cumpra o que a lei dos homens lhe reserva: seja fotografado com o Yoda que o lambeu no cocuruto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2023.

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