terça-feira, 19 de setembro de 2023

Abençoada

 

Abençoada

 

Até inventarem de enviá-la a um lugar chamado escola, nem ligava que existissem despertadores, calendários e presentes de última hora.

Sabê-los mais do que palavras não a convenceram de que o melhor para a saúde era dormir oito horas por noite.

A desejar aborrecido quem insistia que fosse deitar-se mal a novela das nove começava, o sono era o vilão nessa queda-de-braço, pois ele vinha antes do primeiro intervalo.

Era natural que adormecesse durante o jornal, uma vez que, depois de mil e uma travessuras, bastava fazer carinha de anjo cansado para ganhar o beijinho, imprescindível para afugentar certo monstro, um que gostava de subir à cama para resfriar o seu pijaminha.

Que tempo bom era aquele, de diversões e descobertas.

Eram dias em que a sua mamãe contava-lhe histórias de princesas enfeitiçadas, decantados príncipes e dragões sagazes.

Àquela época, alegria maior era quando a sua mãe vinha acordá-la muito depois de ter enfrentado as roupas da família.

Mesmo que não usasse o sabão em pedra que a televisão dizia ser imbatível contra as manchas mais tinhosas, era mãe que tinha truques, e, mesmo de mãos limpas e unhas por fazer, era vencedora.

Ela sempre vencia, que crueldade gratificante.

Se ao menos suas fraquezas fossem evidentes, seria a melhor mãe do mundo. Mas ela tinha o olhar de quem não aceitava perder qualquer discussão, principalmente as bobas, que ela nunca começava.

Altiva, impunha aquelas regras inquestionáveis, desse jaez: criança só podia brincar depois de aula, almoço e ter escovado os dentes.

Mas domingo era diferente: depois da missa, da macarronada, dos dentes escovados, podia brincar à vontade. Se não chegassem visitas, podia correr, pular e até chorar por causa de joelho ralado.

Para deitar em paz, Jesus!, tinha que lavar atrás das orelhas, limpar o prato e tratar de escovar direitinho os dentes, ou nem poderia assistir à zebrinha da loteca.

Durante o ensino médio, uma vez que não suportava os perrengues de suplicar esmolas para cercar o jogo da sorte, essa criança começou a trabalhar.

Já empacotadora num supermercado, ia de ônibus pro trabalho.

Como gastava o que poderia economizar, semeou e colheu a ideia: depois que comprou a sua primeira bicicleta, não tinha que se justificar pelas cervejinhas às sextas.

Andar de bicicleta fortaleceu-a. Disciplinou-se pra fazer quilômetros com a magrela. Meses depois era capaz de ir da sua casa ao trabalho sem ter atrasos descontados do seu salário.

Veio a Covid-19; também veio o pé na bunda.

Como criança que sabe se virar, virou-se: tirando setenta reais por dez horas de correria, entregou-se à próxima realidade: antes do Natal, para sentir o cheiro dos cento e vinte reais de cada dia, pagou, Aleluia!, a primeira das quarenta e oito parcelas da 125 cc que lhe deu asas pra pegar corredor a cem por hora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2023.

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