Até inventarem de enviá-la a um lugar
chamado escola, nem ligava que existissem despertadores, calendários e
presentes de última hora.
Sabê-los mais do que palavras não a
convenceram de que o melhor para a saúde era dormir oito horas por noite.
A desejar aborrecido quem insistia que
fosse deitar-se mal a novela das nove começava, o sono era o vilão nessa
queda-de-braço, pois ele vinha antes do primeiro intervalo.
Era natural que adormecesse durante o
jornal, uma vez que, depois de mil e uma travessuras, bastava fazer carinha de
anjo cansado para ganhar o beijinho, imprescindível para afugentar certo monstro,
um que gostava de subir à cama para resfriar o seu pijaminha.
Que tempo bom era aquele, de diversões e
descobertas.
Eram dias em que a sua mamãe contava-lhe
histórias de princesas enfeitiçadas, decantados príncipes e dragões sagazes.
Àquela época, alegria maior era quando a
sua mãe vinha acordá-la muito depois de ter enfrentado as roupas da família.
Mesmo que não usasse o sabão em pedra
que a televisão dizia ser imbatível contra as manchas mais tinhosas, era mãe
que tinha truques, e, mesmo de mãos limpas e unhas por fazer, era vencedora.
Ela sempre vencia, que crueldade gratificante.
Se ao menos suas fraquezas fossem
evidentes, seria a melhor mãe do mundo. Mas ela tinha o olhar de quem não aceitava
perder qualquer discussão, principalmente as bobas, que ela nunca começava.
Altiva, impunha aquelas regras inquestionáveis,
desse jaez: criança só podia brincar depois de aula, almoço e ter escovado os
dentes.
Mas domingo era diferente: depois da
missa, da macarronada, dos dentes escovados, podia brincar à vontade. Se não
chegassem visitas, podia correr, pular e até chorar por causa de joelho ralado.
Para deitar em paz, Jesus!, tinha que
lavar atrás das orelhas, limpar o prato e tratar de escovar direitinho os
dentes, ou nem poderia assistir à zebrinha da loteca.
Durante o ensino médio, uma vez que não
suportava os perrengues de suplicar esmolas para cercar o jogo da sorte, essa
criança começou a trabalhar.
Já empacotadora num supermercado, ia de
ônibus pro trabalho.
Como gastava o que poderia economizar, semeou
e colheu a ideia: depois que comprou a sua primeira bicicleta, não tinha que se
justificar pelas cervejinhas às sextas.
Andar de bicicleta fortaleceu-a.
Disciplinou-se pra fazer quilômetros com a magrela. Meses depois era capaz de
ir da sua casa ao trabalho sem ter atrasos descontados do seu salário.
Veio a Covid-19; também veio o pé na
bunda.
Como criança que sabe se virar, virou-se:
tirando setenta reais por dez horas de correria, entregou-se à próxima realidade:
antes do Natal, para sentir o cheiro dos cento e vinte reais de cada dia, pagou,
Aleluia!, a primeira das quarenta e oito parcelas da 125 cc que lhe deu asas
pra pegar corredor a cem por hora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de setembro de 2023.
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