Quem fala comigo é um rapaz. Não
acredito no que me fala. Ouço-o enquanto como uma coxinha. A circunstância talvez
me faça achá-lo um mentiroso ou seu relato é mesmo sem pé nem cabeça. Se bem
que a fome tem o condão de fazer-me arredio, mais ácido do que ingênuo. Não
finjo ouvi-lo com interesse. Prefiro ver os gols da rodada. Ressalto uma
cobrança de pênalti, desperdiçada. Sem o persuadir de que a sua fala
aborrece-me, ele ignora que eu quero acompanhar os gols. Talvez haja um fundo
de verdade no que insiste em contar-me, mas a coxinha tem prioridade porque não
como desde as seis horas da manhã.
ꟷ Se me permite, rapaz, é sério, preciso
almoçar.
Dando-me as costas, o rapaz senta-se ao
balcão.
Que história mais maluca. Pouco
verossímil. Só pode andar mal da cabeça quem passa pra frente uma maluquice dessas.
Cheia de furos, incongruências, absurdos.
É uma coisa inacreditável, algo que não
se deve compartilhar sem que se queira provocar risos ou não se tema passar
vergonha.
É provável que o doido acredite na
veracidade da história, ou estaria bem da cachola. Não está. É coisa de biruta
esperar que uma pessoa interrompa o almoço para escutar asneiras, disparates,
mentiras.
E como mente mal quem diz que ouviu
falar por um amigo do amigo do tio que um menino cego faz prognósticos da
loteria. Que ele ganhou cinquenta e cinco vezes. Só da bolada principal da Mega
foram trinta e três. Sem falar de quinas, quadras e milhar na cabeça, se fosse para
computar tais vezes, aí passariam de milhares de acertos.
Apesar de milionário, o meninão continua
cego. Contudo, na versão mais sincronizada ao espírito da nossa era, o bilionário
teria implantado câmeras conectadas ao cérebro.
Quanto à visão, o guri está feliz porque
enxerga só a verdade.
Quanto a curtir a vida, quantas
frustrações!
O corpo aceitou os implantes, mas sua
mente, não. Logo, o sangue tem que ser trocado. É preciso alimentar veias e
artérias com óleo. Pra soltar puns fedorentos, é preciso injetar óleo de alto
teor de enxofre. E uma vez por semana, checam a qualidade do sistema sanguíneo.
Uma vez ao dia, ele injeta um soro de alho.
Ele dorme de cabeça pra baixo? Não. Foge
do sol? Sim. Faz vinte e quatro horas por litro? Faz.
Acertei ao pedir-lhe para eu comer a tal
coxinha?
ꟷ Peço-lhe desculpas. Você trouxe de
volta um período em que eu estava mal. Foi um tempo complicado, difícil, um
inferno de estresse e torres e torres de cerveja contra os meus faniquitos. Mas,
estou melhor. Hoje eu valorizo o trabalho. Se a bola que bate na trave precisa
repicar nas costas do goleiro pra cruzar a linha, eu sei que é gol. E cada gol
é alegria. Rapaz, vir pedir-lhe desculpas é gol que contabilizo como um tento a
mais no saldo positivo. Pra ganhar campeonato, a gente precisa destruir os
adversários. Sei que sim.
Em vez de oferecê-la quente, o cara bebe
a soda toda.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de setembro de 2023.
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