Ainda que disponha de um copo d’água, o
que pega é uma tristeza. Tamanha é a singularidade da sensação que fica dispensável
tomá-la, sequer de quando em quando, aos golinhos.
Manter o copo intacto não apaga a face
iluminada pela luz do poste. E tal pessoa, que se contempla no vidro, percebe-se
triste.
Se não tivesse o copo d’água, seguiria
seca, secamente triste, uma vez que não o trouxe pela sede, tampouco pela
companhia. Trouxe-o, pois a sua intuição disse-lhe para levá-lo. Contra a
languidez afeita ao triste, ao contemplá-lo meio cheio, percebe o vazio, e tão
só.
À espreita, sequer a janela basta. Vê a
rua. Não passam os ciclistas. Também os apressadinhos estão sumidos. Sequer
deseja vê-los, nem lhes quer saber os destinos.
Dos ciclistas e apressados, supõe que
nenhum enxergue-se nessa fissura, que vai crescendo, sinapse depois de sinapse,
até a aurora do estrago, de uma percepção convulsionada.
Mas essa pessoa à janela tem o copo
d’água pra necessidade que possa ter, pra garganta ao desconfortá-la, ao
forçá-la a beber.
Triste, porque desconfortável com a
caquexia, com o torpor de estar preso ao sono, ao cansaço, pois foi acordado
por gatos no telhado, no cio, no embate, pela disputa.
Também os gatos pararam e foram embora.
Restou-se à tristeza e ao cansaço. Também poderia ir-se, aproximar-se dos
homens debaixo do toldo. Também se percebe silenciosamente atento.
É madrugada. A garoa cai.
Na esquina, os dois bebem no gargalo. A
cabeça de um no colo do outro. O que bebem é o que os alimenta, os embriaga.
A garrafa rende. Não precisam tomá-la
como quem precisa se livrar de evidências. Não há crime. Bebericam, e papeiam.
A pessoa na janela não tem pressa
alguma. Ela observa, e enxerga. Os homens que bebem não precisam ficar
incomodados, pois ela não irá até eles nem pedirá fogo pro cachimbo. Ela é
gente que não intimida nem espanta, porque não fala alto e não diz
barbaridades.
Quem não se entedia, contempla,
permite-se ver com calma.
Quem é igual a si mesmo fica entediado
com a inação, com a falta de mudança, com a perspectiva de continuar igual a si,
ainda que haja outro dia, outro instante, outras pessoas.
Quem é igual a si apesar do mundo, pouco
sabe de si. Não percebe o quão negativo é crer-se imutável. Ainda que o mundo
nunca pare de alterar-se, quem luta pra manter-se impassível nega-se, teme-se,
quer ver-se longe da rua, dos bebuns, da garoa da madrugada.
Enjoada de tédio, a pessoa sabe que é
hora de tocar adiante.
Os bebuns teimam em tirar das tripas a friaca.
Também se aquecem com os corpos. Eles têm algum tempo até virem ciclistas e
apressados que vão palpitar sobre suas carícias e a cachaça.
Ao seu dispor, apenas água. E a pessoa à
janela pensa nas faturas que pagará quando chegar a hora de ir pagá-las. Se tem
água, melhor que seja bebida, todinha.
A infeliz dá com o nariz na vidraça, todavia
tonta de raiva.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de setembro de 2023.
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