domingo, 17 de setembro de 2023

Tocante

 

Tocante

 

Ainda que disponha de um copo d’água, o que pega é uma tristeza. Tamanha é a singularidade da sensação que fica dispensável tomá-la, sequer de quando em quando, aos golinhos.

Manter o copo intacto não apaga a face iluminada pela luz do poste. E tal pessoa, que se contempla no vidro, percebe-se triste.

Se não tivesse o copo d’água, seguiria seca, secamente triste, uma vez que não o trouxe pela sede, tampouco pela companhia. Trouxe-o, pois a sua intuição disse-lhe para levá-lo. Contra a languidez afeita ao triste, ao contemplá-lo meio cheio, percebe o vazio, e tão só.

À espreita, sequer a janela basta. Vê a rua. Não passam os ciclistas. Também os apressadinhos estão sumidos. Sequer deseja vê-los, nem lhes quer saber os destinos.

Dos ciclistas e apressados, supõe que nenhum enxergue-se nessa fissura, que vai crescendo, sinapse depois de sinapse, até a aurora do estrago, de uma percepção convulsionada.

Mas essa pessoa à janela tem o copo d’água pra necessidade que possa ter, pra garganta ao desconfortá-la, ao forçá-la a beber.

Triste, porque desconfortável com a caquexia, com o torpor de estar preso ao sono, ao cansaço, pois foi acordado por gatos no telhado, no cio, no embate, pela disputa.

Também os gatos pararam e foram embora. Restou-se à tristeza e ao cansaço. Também poderia ir-se, aproximar-se dos homens debaixo do toldo. Também se percebe silenciosamente atento.

É madrugada. A garoa cai.

Na esquina, os dois bebem no gargalo. A cabeça de um no colo do outro. O que bebem é o que os alimenta, os embriaga.

A garrafa rende. Não precisam tomá-la como quem precisa se livrar de evidências. Não há crime. Bebericam, e papeiam.

A pessoa na janela não tem pressa alguma. Ela observa, e enxerga. Os homens que bebem não precisam ficar incomodados, pois ela não irá até eles nem pedirá fogo pro cachimbo. Ela é gente que não intimida nem espanta, porque não fala alto e não diz barbaridades.

Quem não se entedia, contempla, permite-se ver com calma.

Quem é igual a si mesmo fica entediado com a inação, com a falta de mudança, com a perspectiva de continuar igual a si, ainda que haja outro dia, outro instante, outras pessoas.

Quem é igual a si apesar do mundo, pouco sabe de si. Não percebe o quão negativo é crer-se imutável. Ainda que o mundo nunca pare de alterar-se, quem luta pra manter-se impassível nega-se, teme-se, quer ver-se longe da rua, dos bebuns, da garoa da madrugada.

Enjoada de tédio, a pessoa sabe que é hora de tocar adiante.

Os bebuns teimam em tirar das tripas a friaca. Também se aquecem com os corpos. Eles têm algum tempo até virem ciclistas e apressados que vão palpitar sobre suas carícias e a cachaça.

Ao seu dispor, apenas água. E a pessoa à janela pensa nas faturas que pagará quando chegar a hora de ir pagá-las. Se tem água, melhor que seja bebida, todinha.

A infeliz dá com o nariz na vidraça, todavia tonta de raiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de setembro de 2023.


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