Bem
à vontade
Fim de ano; começo de ano; no meio
disso, não é hora de balanço nem momento de ater-se a planos sequer é o
instante de copo d’água.
Faço o obséquio de lamentar: que ressaca
eu experimento.
Se fizesse as exéquias de sentimento que
não sinto, perceberia que ando torto das ideias. Cambaio, sim, pois eu sou
bastante honesto para não negar a vontade de desferir um chute no batente.
Conheço a dor de dar com a minha cara na
porta. Houve vezes em que meu nariz sangrou pela batida. Por conhecer a dor que
a realidade possa provocar, eu não me distraio tentando perceber o que ainda
não fiz. Embora sofra somente pelo que tenha feito, com o murro pronto no punho
teso, sei: revide é o contragolpe do triste.
Veja bem, ninguém mandou eu viver com tanto
ardor.
Porque machuca e faz doer, o mundo me
ensina: há passadas que sabem do limite quando o queixo sangra na calçada.
Sóbrio ou ébrio, todo mundo tem joelhos
pra ralar.
Que o ano tenha começado sem outra
perspectiva que não seja de passar o restante do primeiro dia do ano
inteiramente dedicado a sentir em tronco, membros e cabeça, inapelavelmente na
cabeça, que tenho de tomar água, muita água, pois a água há de ajudar a sentir
vergonha de nem me arrepender da farra, do exagero de ter entrado de cabeça na
alegria do fim de ano.
Ano Velho, que o diabo o carregue. Vá
pro passado e fique lá. Pois de você eu quero distância. Dá uma tristeza grande
me lembrar da sua duração. Sim, Ano Velho, foi dureza passar por você. Parecia jararaca
se arrastando sobre a barriga, dentro do crânio, dando nojo; feito vírus no
sangue, bactéria na urina, dando calafrio. E foi desgraceira atrás de outra, Ano
Velho, que você mais parecia desafio, duelo, jogo duro.
Partida vencida; partida perdida ꟷ canseira,
que nada!
Que isso seja possível de prosseguir
assim, pois no meio da nossa caminhada, Dona Cremilda e eu, encontramo-nos?
Feliz Ano Novo pra cá. Feliz Ano Novo
pra lá.
A novidade que ela conta é que tanto a
menina quanto o menino da Marieta estão dando alegrias para esta mamãezinha
coruja.
Começou que a menina virou chorar sem
motivo. O impressionante do choro é que ela estava no colo. A mãe estava
gravando o cachorro que estava todo brincalhão. Vai daí que a criança pegou
naquele choro sentido. Tanto era esquisito, que ele abalava na gente a certeza
de que aquilo fosse natural.
Poxa, bastava olhar.
O corpinho se contorcendo daquele jeito
era mais que desespero doído. Aquela bolinha comprimida dava aflição. Tanto comovia
que, se a gente bulisse, a gente trincava aquela coisinha.
Mariana chorando daquela maneira, não é
que o Mariano começou a chorar do mesmo modo?
Marieta fez o vídeo e postou. A gravação
está bombando. A menina chora, o menino chora; e só a mãe é que não chora porque
ela narra o que filma com o telefone.
Emendo de prima:
ꟷ Olha, Dona Cremilda, o filme da vida
nunca tem fim.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de janeiro de 2023.