Na
marca da cal
Com os braços no meio das pernas, encolhidinho,
feito feto, ouço o mundo. A garoa não assusta, convida. Escutando-a, penso as batalhas
perdidas. Enrolado em mim, figa na cama, creio em mim. Acredito que, a cada
derrota, aprendo a mudar o tanto que preciso mudar. Pelo que perco, desato a
pensar. Recolhido, sinto o feto que me pensa.
Ainda garoa, ainda ouço.
Quero que o mundo eduque a sentir a sua
música, que a garoa lave meu rosto, que deixar de obedecer cegamente não me transborde.
Torno-me tranquilo. Faço-me sereno como garoa
na cabeça. Sinto a garoa. Penso-me sem temê-la, garoo.
Quando o mundo for assombroso, vou mijar
na cama.
O que estranho é este sol
que-vem-não-vem no meio da chuvinha; é sol o que me aconchega no seu seio como
se mais amores florissem quando nem aguardo que brotem. Ao imaginá-los
risonhos, iluminados, perfumosos, arrepiam. Por senti-los rindo à luz
bruxuleante, luminosos ao traçá-los vicejantes, perfumam.
O broto amoroso, que dá à luz perfumes, faz-se flor pelo que adensa, condensa e recompõe-se, faça-me luz.
De rosto lavado, molhado de garoa, os
olhos não me enganam: no meio do campo, estou deitado num banco.
Então, o sol do vem-não-vem é a estrela
da tarde.
Com o brilho na grandeza de sua
magnitude, o sol da tarde acorda fantasmas que despertam demônios. Se fosse
outro, se fosse a estrela da manhã, quem acordado demonizaria com
fantasmagorias.
Mas estou acordado, eu sinto que estou;
e posso ver o campo, notar as linhas; e continuo à espera do apito, da entrada
dos times e da bola no centro do campo.
Seu juiz, trile o apito.
De costas no banco, conto com meu nariz
a noventa graus do resto do corpo, ou a coluna me jogará no inferno das
agulhadas na nuca, os formigamentos descerão pelo pescoço e subirão ao
cocuruto, entrarei em curto-circuito e lamentarei a indisciplina de ignorar os
meus desvios na postura.
Olho no lance!
Alguém chama. Consinto em aquecer. Embora
esteja fora de forma, vou dar o meu melhor. Reconheço que estou preparado pra
entrar caso seja chamado. Posso fazer bem o que esperam que não faça.
Embora não botem fé, sei surpreender.
Evoé!
Depois de uma noite de sonhos
esquisitos, Meursault abriu a janela sem prever que uma rajada de garoa fria fosse
lhe dar um choque, feito tapa na testa, a ordenar-lhe:
ꟷ Vá, Arthur, vá fazer algo que preste.
Ansiando sonhar; seria bom se vagasse por
uma praia deserta, pois não temeria chineladas, vassouradas, borrifada inseticida.
Vamos, Gregor, abra os olhos.
No meio da jornada pelo vasto mundo, o Gregor
que não sabe quem seja Arthur permanece jogado de costas. Pra lá e para cá, esse
Gregor boia que nem rolha em uma tigela cheia de água.
Quando o cuco confirma doze vezes a
hora, com o dez nas costas, de calção azul, meião azul e camiseta amarela, Arthur
e Gregor partem pro ataque:
ꟷ Seu Rodrigues, cadê o almoço?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2022.