Passo
pela praça todo dia, mas não mais que de repente as árvores abatidas mexem
comigo. E a tentação extraordinária de falar mais que a boca? Extravasando
pelos cotovelos as revoltas de órfão de galhos, troncos e raízes de uma época realmente
fabulosa, meu crânio parece tirado de um tonel de birita.
De
jeito algum saem puros os sentimentalismos de criança, embora a imaginação
indulgente me queira acomodado às glândulas, pois este menino do futuro, bobo
com a realidade desvelada pelo átimo do susto, faz do suor frio tanta bílis a quente.
E
finjo um nada que posso soltar o verbo sem dar com a língua nos dentes.
Verborrágico, com o verniz de pessoa de bem com sua infância irretocável, entregam-me
as fantasias de gente amorosa.
ꟷ
O lugar sofreu tantos ajustes que ele agora é outro.
ꟷ
Maquiagens, meu amigo, maquiagens.
O
copo de uísque está pago, então, dá gosto esvaziá-lo.
ꟷ
É vergonhoso! O dinheiro gasto com as maquiagens deveria ter sido usado com
hospital. E pra ter equipamentos funcionando direito e pessoal ganhando salário
digno não dá pra ficar pondo fonte, trocando fonte, tirando coreto, erguendo
palco, trocando piso, trocando de novo.
Como
tenho audiência, não dissimulo o olhar de apaixonado.
ꟷ
O senhor está coberto de razão.
Mais
do que audiência, é público que merece outra rodada.
ꟷ
Ainda bem que concordam comigo, porque falo a verdade e só a verdade. O triste
é que tem gente que não entende nada. Cacildis!
O
gole da caninha pede salaminho, e a porção evapora.
ꟷ
Putz.
A
carteira tem vazamento, e as notas de cinquenta vão sangrando.
ꟷ
Putz.
O
dono do boteco seca o balcão, não a solidão que escorre.
ꟷ
Não vou mentir nem enganar.
Ocorre-me
a ideia de fazer um quatro. Todavia... Percebo uma dor nas costas. Porém... Não
fujo do ridículo da corridinha no lugar.
ꟷ
Não é porque estou meio alegrinho que não consigo provar que tenho fôlego.
Tenho, sim, senhor.
Afinal,
a consciência é uma experiência dos sentidos. A carne sente o mundo. A mente entende
a substância da realidade porque traduz os sinais elétricos da matéria.
ꟷ
A barriga não impede minha disposição de atleta.
Estou
ligado. Sinto-me uma pilha.
ꟷ
Pra que ter gato solto no bar? Raios!
Mal
faço outro pix, vem esse rasteiro, traiçoeiro, esse chão molhado de espelunca
nojenta. Parece que urinaram. Vomitaram. O fedor gruda na pele da gente, putz.
ꟷ
Putz uma ova, rua!
As
luzes da praça estão todas acesas. Faz sol ao luar.
ꟷ
Que desperdício de verba pública!
Moscas
e mariposas são atraídas pelo calor das lâmpadas.
A
água da fonte não é um espelho confiável, tem um camarada bem xarope, que nem disfarça.
ꟷ
Vai ficar encarando, é? Não tem medo de levar na fuça?
O
sujeito se acha o tal. É o tal da fonte.
Não
vai dormir na praça. É melhor que tenha ônibus.
Subir
no palco não é opção, tem a escada absurda de inclinada.
No
ponto, sem grana? Apago na hora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 11 de novembro de 2021.