domingo, 17 de outubro de 2021

O prodígio

 

O prodígio

 

À espera da consulta, o homem sentado na poltrona ao lado foi logo dizendo que hoje em dia todo mundo acha que pode sair dando opinião sobre qualquer coisa. Então, ninguém mais se poupa do ridículo de se expor uma besta quadrada com ares de gênio que entende de tudo.

Sem desviar os olhos da tela, rolando-a pra cima e pra baixo, disse que as postagens têm cada absurdo.

É irritante alguém dizer que paciência dá em árvore. Pra quem vive de quebra-galho, a ideia de cortar excessos é uma azucrinação. Óbvio que não é razoável sobreviver só de cerejinhas.

E o óbvio demais afeta-lhe os nervos, fazendo vingar a semente do desprezo. Ele sente um desdém ferrado de gente que vive pra passar pra frente disparates energúmenos, como se não existissem indivíduos com cérebro maior do que uma cabeça de repolho.

Mesmo quando o mundo parece exigir, não usa a alma como estufa pras plantas nefastas que sugam a bondade que traz no peito.

Estrila somente quando lhe ferve o sangue. Em geral, é calmo. Se sugerisse, os amigos poderiam pôr a mão no fogo pra provar que é um cara de excelentes virtudes.

Fosse o caso, no celular tem uma montanha de fotos dos gatos, dos cachorros, da calopsita que come na mão. Uma bela de uma arca pra Noé nenhum desfazer do seu apego à bicharada toda.

Outro dia, sua filha levou uma das suas mais queridas amiguinhas pra feira de ciências. Mesmo com o pessoal tendo medo da Cléo, ainda é uma beleza de jararacuçu criada desde o ovo.

O nome é por causa da Cleópatra, aquela que foi rainha do Egito. Mulher famosa pelas astúcias das suas artimanhas, a víbora dançava os véus pra endoidecer os poderosos que lhe caíam aos pés, matando-os com o fel da língua bem na boca mesmerizada.

Sua cobra, aliás, tem o porte imponente de uma deusa etrusca.

Isso se já soubesse que elas tinham espírito magnânimo na justiça e eram de tal amorosidade que todo mundo embasbacava e passava a adorá-las sem essas pirraças de ateus comunas das redes.

Ele não acredita, mas não vai na internet só pra viralizar ódio.

Se tem quem goste de ficar se gabando de entidades esquisitas, já que o seu dever é respeitar, não tem nada de ficar com gracinha.

Sem dúvida, esses adoradores de bizarrices haverão de se ver no Juízo. Resta-lhe amá-los com o coração leve, inteiramente justo, livre das impurezas questionáveis. Afinal, é devoto de outro amor, do amor verdadeiro.

Ainda bem que sua vida é uma maratona; se não fosse, teria horas de sobra pra ficar corrigindo tantas bobagens. No fim das contas, iria acabar sendo confundido com esse povo que fica fazendo dancinha só pra aparecer.

Longe de querer a multiplicação de joinhas, é do tipo que busca ter argumentos sérios com palavras diretas, porque age tendo em vista o instante certo pra compartilhar ideias.

E o milagre em cima da pinta?

O dentista fechou aquela matraca deixando-a de boca aberta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de outubro de 2021.

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