À
espera da consulta, o homem sentado na poltrona ao lado foi logo dizendo que
hoje em dia todo mundo acha que pode sair dando opinião sobre qualquer coisa. Então,
ninguém mais se poupa do ridículo de se expor uma besta quadrada com ares de
gênio que entende de tudo.
Sem
desviar os olhos da tela, rolando-a pra cima e pra baixo, disse que as
postagens têm cada absurdo.
É
irritante alguém dizer que paciência dá em árvore. Pra quem vive de
quebra-galho, a ideia de cortar excessos é uma azucrinação. Óbvio que não é
razoável sobreviver só de cerejinhas.
E
o óbvio demais afeta-lhe os nervos, fazendo vingar a semente do desprezo. Ele sente
um desdém ferrado de gente que vive pra passar pra frente disparates
energúmenos, como se não existissem indivíduos com cérebro maior do que uma
cabeça de repolho.
Mesmo
quando o mundo parece exigir, não usa a alma como estufa pras plantas nefastas
que sugam a bondade que traz no peito.
Estrila
somente quando lhe ferve o sangue. Em geral, é calmo. Se sugerisse, os amigos poderiam
pôr a mão no fogo pra provar que é um cara de excelentes virtudes.
Fosse
o caso, no celular tem uma montanha de fotos dos gatos, dos cachorros, da
calopsita que come na mão. Uma bela de uma arca pra Noé nenhum desfazer do seu apego
à bicharada toda.
Outro
dia, sua filha levou uma das suas mais queridas amiguinhas pra feira de
ciências. Mesmo com o pessoal tendo medo da Cléo, ainda é uma beleza de jararacuçu
criada desde o ovo.
O
nome é por causa da Cleópatra, aquela que foi rainha do Egito. Mulher famosa
pelas astúcias das suas artimanhas, a víbora dançava os véus pra endoidecer os poderosos
que lhe caíam aos pés, matando-os com o fel da língua bem na boca mesmerizada.
Sua
cobra, aliás, tem o porte imponente de uma deusa etrusca.
Isso
se já soubesse que elas tinham espírito magnânimo na justiça e eram de tal amorosidade
que todo mundo embasbacava e passava a adorá-las sem essas pirraças de ateus comunas
das redes.
Ele
não acredita, mas não vai na internet só pra viralizar ódio.
Se
tem quem goste de ficar se gabando de entidades esquisitas, já que o seu dever é
respeitar, não tem nada de ficar com gracinha.
Sem
dúvida, esses adoradores de bizarrices haverão de se ver no Juízo. Resta-lhe amá-los
com o coração leve, inteiramente justo, livre das impurezas questionáveis. Afinal,
é devoto de outro amor, do amor verdadeiro.
Ainda
bem que sua vida é uma maratona; se não fosse, teria horas de sobra pra ficar corrigindo
tantas bobagens. No fim das contas, iria acabar sendo confundido com esse povo
que fica fazendo dancinha só pra aparecer.
Longe
de querer a multiplicação de joinhas, é do tipo que busca ter argumentos sérios
com palavras diretas, porque age tendo em vista o instante certo pra compartilhar
ideias.
E
o milagre em cima da pinta?
O
dentista fechou aquela matraca deixando-a de boca aberta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 17 de outubro de 2021.
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