Um
homem caminha.
Esguio,
esquálido, figura feita de farpas da existência, um esqueleto andante. Embora
magoado por tristezas, suporta bem os espasmos de felicidade. Lírico, flui
prazeres pelos pés. Lunático, pensa a gravidade pela espinha. Feito outro, e pedestre.
O
homem que caminha poderia o sorriso do menino que ainda traz a cada passo, mas
nem carece demonstrá-lo assim tão presente. Tem que ir aonde precisa. Com o
fôlego curto das passadas, vai.
Engana-se
o menino que caminha quando lhe ocorre a vontade de comer açaí. Sombreando o
que acha que seja bom pra toda gente, tem certa a consciência iluminada, tanto
que nem lambe a tigela.
Ao
andar a esmo, vai sem saber o quanto quer e o quanto pode.
O
homem que não para tem ossos andarilhos.
O
homem que conserva vivo o menino que assume os trejeitos de bom filho,
obediente na fila indiana, cabisbaixo nas repreensões, gentil nos salamaleques
dos casórios familiares, estourado da breca quando obrigado às confissões tão
pouco cristãs, deprimido pelas quireras no mercado, falador convicto na
bobageira da cerveja emendada noutra, é aluno impertinente quanto aos saberes da
vida.
Não
pode ser, todavia: é gente que recusa tomar lições.
A
primeira lição pela metade informa que fica ao piano somente por uns minutos. O
aborrecimento de repetir as escalas do livro de estudos é só pra apuro técnico,
tão-só.
O
punho de empinar pipa pega bronca queixosa à professora, que, em vez de
lamentos, segue ouvinte deslumbrada dos pianíssimos mais sensíveis daquela alma
em crescimento. Que o maravilhoso da música aflore menos da mecânica e mais do
improviso, isso escapa àqueles tímpanos pré-moldados.
Falta
céu ao espírito.
Com
suas camadas sobrepostas, a mente do homem que caminha é uma cebola. E fazem
chorar os humores da transpiração.
E
deseja livrar-se do tédio, o cansaço mental que o põe pra baixo, a espiral do
remorso, na vergonha do vexame de afundar-se frustrado, mas o mal começado resulta
em malogro, um concertista de fancaria, o derrotado no palco abandonado às
pressas, o latente no fastio de ir.
Indo,
também, por causa das tantas ignorâncias.
Tantas,
tantas dores.
Conhecesse
a palavra, saberia sentir-se perdulário. Mas não culpa os pais por querer o que
não falta. É por isso que deseja.
A
segunda lição, embora avaliada ao instante da experiência, é a que diz que o
adolescente que esconde a criança sabe separar sílabas poéticas. Pra que o Camões
valha a pena, tirar dez é o fim. Porém, até visto de fora, o remendo do soneto tá
ardendo pra cacete.
Mas
a vida anda.
Longe
de cabeçudo a enlaçar o mundo, no homem que desengessa o adolescente que
desnorteia a criança que acorda a infância vive uma pequinês chamada Suzy, tal
qual aquela boneca.
Engraçado,
só reparando de pertinho que dá pra sentir que naquele homem late uma boneca
animal.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 21 de outubro de 2021.
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