O
pai e a mãe falavam. Não paravam. Tinham fôlego, e era porque dentro do peito
de cada um deles devia ter balões. Só podia ser. Eram balões grandes. Pela
montanha de palavras, eram grandões.
Por
que não cantavam? Por que nunca cantaram pra ela dormir?
Alguém
cantando deixava o mundo menos barulhento.
Precisou
entrar rápido, passar à frente deles, ou acabaria entre os dois. Sempre era obrigada
a ficar escutando aqueles tagarelas.
E
tagarela era palavra gostosa de falar. Mas não falava em voz alta, pensava.
Ta-ga-re-la, assim mesmo, pondo ar bem devagarinho.
Já
os pais viviam falando apenas de coisas daquele mundo que não era nada divertido.
Sequer deixavam que perguntasse por que aranhas faziam delicadas redes. Não
eram redes, eram teias. Isso.
Será
que a teia servia pra pegar orvalho? Será que a aranha punha a teia pra pegar o
ar? Será que ela pensava diferente da aranha, que moscas serviam pra encher a barriga?
Será que barriga cheia não tinha espaço pro choro, será?
Choro
não era só ar, tinha lágrima. Choro era uma teia que pegava lágrima que fazia
barulho. Um barulho baixinho, que era pros pais não ficarem assustados, achando
que ela era mosca presa na rede.
Os
olhinhos dela, dessa criança no paraíso da lágrima baixinha, na infância a meia-voz, num recanto com a porta trancada, nesse espelho que a fazia olhar além do
vidro do carro, os olhinhos nem conseguiam pegar direito o que tinha lá fora. Era
porque o carro estava correndo.
O
carro nem era dos pais. E foi desse jeito que o pai gritou, agitando o braço
direito esticado reto. Aí, ele berrou: táxi!
Então,
o carro parou pra que entrassem. Sentassem apertado atrás. Encolhessem suas
pernas. Pedissem pra que os bancos da frente não incomodassem os joelhos. Tudo,
e sem que parassem de falar.
Mesmo
com o homem desconhecido, um que ela nunca tinha visto antes, estava dirigindo
como se os pais mandassem nele. E devia ser, porque mandavam em tudo. Então, o
pai e a mãe não tinham vergonha do que estavam fazendo, e ficaram falando sem
parar.
Pareciam
nem respirar. Aquilo era esquisito, porque mostravam ao estranho que podiam
falar sem respirar.
Será
que mais gente sabia fazer aquilo?
O
bem-te-vi sabia cantar. E cantava o próprio nome.
Bem-te-vi!
Bem-te-vi!
Será
que tinha algum carro que desse asas aos pais? Será que eles tinham reparado
como as aves voavam? E será que aves voavam pra longe por que precisavam deixar
bonito um lugar triste?
A
sua tristeza era chamada de infelicidade, mas ela não sabia.
Aquela
criança tinha três anos. Não sabia que os dedos das pontas da mão eram polegar
e mindinho. Ela fazia como a mãe ensinou. Tinha que botar a força do dedão no
dedinho pra poder esticar bem os outros dedos.
Ela
faria três anos logo. Mas isso ia demorar muito?
Como
prometeram que ia poder comer o primeiro pedaço, que esse logo chegasse voando.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 28 de outubro de 2021.