Cantam.
E quem estaria cantando durante a chuva?
Como
se não fosse possível a sintonia das nuvens com quem canta, insisto na intuição.
Pode parecer ideia estrambótica, contudo o mundo tem mistérios que estimulam a
ficar curioso e a curiosidade relativiza as verdades universais.
Mesmo
estando tranquilinha, da minha cachola costumo tirar muitos coelhos de uma
espantada só. E que alegria indescritível.
Sem
euforia desperdiçada, aceito que este meu poder esteja ligado à genética ou venha
o lado insondável da consciência à tona quando neurônios alvoroçados, antes que
os miolos mergulhem em parafuso, dão-me aquele choque.
O
pasmo é tanto que sussurram os botões que estou indo de bom pra melhor, pois estabelecer
conexão entre fenômenos da atmosfera e a sensibilidade supõe que me comova com
a situação.
Vou
pro terraço e olho o mar, e o meu entusiasmo aumenta.
Gosto
da mureta. Me dou bem com a chuva. Ajeito os cotovelos na mureta. Flexiono as
pernas sem que as câimbras brotem. Gosto muito de ficar escorado na mureta. Me
permito ter um tempo pra acompanhar o movimento das ondas.
Não
acho nada estúpido olhar a espuma vindo e voltando. Curto à beça deixar que o
mundo me encante. Tão sutil, e cósmico.
Se
estou temeroso de que uma irritação me pegue pelas mãos?
A
chuva vira um temporal medonho. Como não tenho cabelos, não saio correndo.
Admiro o espetáculo que a tempestade desencadeia.
E
a cantoria não para.
Maviosa
e triste, a voz que canta destoa dos arroubos tonitruantes dos céus.
Contrastando com o furor do firmamento, há serenidade na voz. Em meio à miríade
de raios, a fonte faz florescer uma paz.
Rastaquera,
este sujeitinho pede muita chuva na testa pra entender que relâmpagos e trovões
respondem ao canto. Há simbiose.
Há
mais que diálogo, há o surgimento de uma música única. Porque fora dos planos, é
música de beleza incomparável. De beleza única, é irrepetível. Portanto, é um
deslumbramento inesquecível.
O
que estou sentindo, porém, ficará comigo? Sempre que houver o canto melancólico
de uma alma dorida a cantar em pleno temporal, irei recordar-me emocionado? Haverá
de novo esta emoção tamanha?
Quando
vejo, estou longe do sério, assobiando a melodia. Nem dou pelota pro razoável
que se espera, estou transbordando de felicidade.
Não
se peça a uma mente em estado de graça que ignore a crença de que Gaia e homo
sapiens mantêm um laço sensacional, mais que lógico; fora que, depois de
adquirida tal sabedoria, dificilmente haverá retorno aos deuses tão naturais.
Se
a vida segue sem teorias que unifiquem o universo, ouso o bom senso de falsear
o que desconheço.
Não
estou aturdido: porque a chuva existe, eu existo.
Mas
o oba-oba de apaixonado ganha outra brisa na cara lavada, é que a chuva para, o
canto some e a solidão é a lua no horizonte.
Que
desencanto, acabo sozinho no meu canto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 14 de outubro de 2021.
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