quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Alucinação

 

Alucinação

 

Cantam. E quem estaria cantando durante a chuva?

Como se não fosse possível a sintonia das nuvens com quem canta, insisto na intuição. Pode parecer ideia estrambótica, contudo o mundo tem mistérios que estimulam a ficar curioso e a curiosidade relativiza as verdades universais.

Mesmo estando tranquilinha, da minha cachola costumo tirar muitos coelhos de uma espantada só. E que alegria indescritível.

Sem euforia desperdiçada, aceito que este meu poder esteja ligado à genética ou venha o lado insondável da consciência à tona quando neurônios alvoroçados, antes que os miolos mergulhem em parafuso, dão-me aquele choque.

O pasmo é tanto que sussurram os botões que estou indo de bom pra melhor, pois estabelecer conexão entre fenômenos da atmosfera e a sensibilidade supõe que me comova com a situação.

Vou pro terraço e olho o mar, e o meu entusiasmo aumenta.

Gosto da mureta. Me dou bem com a chuva. Ajeito os cotovelos na mureta. Flexiono as pernas sem que as câimbras brotem. Gosto muito de ficar escorado na mureta. Me permito ter um tempo pra acompanhar o movimento das ondas.

Não acho nada estúpido olhar a espuma vindo e voltando. Curto à beça deixar que o mundo me encante. Tão sutil, e cósmico.

Se estou temeroso de que uma irritação me pegue pelas mãos?

A chuva vira um temporal medonho. Como não tenho cabelos, não saio correndo. Admiro o espetáculo que a tempestade desencadeia.

E a cantoria não para.

Maviosa e triste, a voz que canta destoa dos arroubos tonitruantes dos céus. Contrastando com o furor do firmamento, há serenidade na voz. Em meio à miríade de raios, a fonte faz florescer uma paz.

Rastaquera, este sujeitinho pede muita chuva na testa pra entender que relâmpagos e trovões respondem ao canto. Há simbiose.

Há mais que diálogo, há o surgimento de uma música única. Porque fora dos planos, é música de beleza incomparável. De beleza única, é irrepetível. Portanto, é um deslumbramento inesquecível.

O que estou sentindo, porém, ficará comigo? Sempre que houver o canto melancólico de uma alma dorida a cantar em pleno temporal, irei recordar-me emocionado? Haverá de novo esta emoção tamanha?

Quando vejo, estou longe do sério, assobiando a melodia. Nem dou pelota pro razoável que se espera, estou transbordando de felicidade.

Não se peça a uma mente em estado de graça que ignore a crença de que Gaia e homo sapiens mantêm um laço sensacional, mais que lógico; fora que, depois de adquirida tal sabedoria, dificilmente haverá retorno aos deuses tão naturais.

Se a vida segue sem teorias que unifiquem o universo, ouso o bom senso de falsear o que desconheço.

Não estou aturdido: porque a chuva existe, eu existo.

Mas o oba-oba de apaixonado ganha outra brisa na cara lavada, é que a chuva para, o canto some e a solidão é a lua no horizonte.

Que desencanto, acabo sozinho no meu canto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de outubro de 2021.

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