domingo, 10 de outubro de 2021

Jogo de cintura

 

Jogo de cintura

 

Perfazendo um itinerário que não o usual, entrei pela travessa que liga a Rua Direita com a Rua da Bica; nos primeiros passos pelo trecho, fui alertado que desconhecia a orientação do tráfego.

Quando ia descendo do passeio para cruzar a rua fora da faixa, sem olhar às costas, escutei a buzina mais os ruídos do freio, tive que pedir, encabulado, desculpas à mão que me autorizava ir adiante.

Engraçada a distração que a gente põe na cabeça quando não está indo pagar conta atrasada nem tem filho pequeno pra pegar à saída da creche, normalmente se me vejo empenhado a realizar alguma tarefa incontornável, eis que não perco o olho do mundo ao meu redor.

Quando atarantado, não tenho tempo para perder à toa.

Todavia obrigado a parar, parei.

O carro que parou, o que vinha do lado que nem me ocorreu olhar, este mesmo carro teve sua passagem impedida por um automóvel que lhe cruzou a frente, subindo da Bica à Direita.

Enfim, eu parado; o carro parado; e o outro que foi forçado a parar mais acima: em resumo didático, o Brasil parou de vez.

Que conclusão mais besta, ora essa.

Nem o bairro onde moro está parado, nem a cidade onde vivo está paralisada, nem o estado em que tenho vivido desde que nasci tem a vida congelada; por conseguinte, o que resta estagnado é o país.

Claro, claríssimo, é parado na esquina que o rosto da felicidade se escancara a quem atraído pelas coisas da vida.

Sim, a banda toca, o bando passa, a bunda samba.

Porque o mundo que conta a sua história de horror canta que passe logo o infortúnio de retroceder dois passos a cada passada.

Porque a vida que canta a sobrevida da esperança conta que venha rápido a bonança do abraço afetuoso, seguro e confiável.

Portanto, é por outro presente possível que muito obro. Muito, mas não me dobro à raiva por não tirar férias em dobro.

No entanto, o suor desta pessoa agoniada não encontra guarida na gente inquieta, em sofrimento maior do que o meu.

Com quantos passivos faz-se um pobre-diabo?

Como não alimento o espírito com rancores e desesperos, reitero o meu apreço pela alegria, pela amizade, pela Baía de Todos os Santos.

Passei do ponto pra chegar a que ponto?

Vem outra farmácia na vizinhança pra juntar-se à dezena de outras nuns duzentos metros de caminhada.

Com mal-estares à farta, é saudável a disputa de mercado.

Afinal, com tantas opções, qualquer pessoa fica esbelta só de correr de uma porta à outra à cata do preço mais em conta ou acaba doente por torrar a gordurinha extra do mês exercitando-se preguiçosa.

Tem remédio amargo dia sim, outro também?

Pra aguentar o tranco, uma drágea ao acordar.

Pra não rodar na pista, um comprimido depois das refeições ou dois juntos se as correrias do dia deixam ter apenas a janta.

Pra capotar na cama, basta uma pílula.

Pra alegria geral, eu asseguro que nem sóbrio, nem bêbado, sequer sonâmbulo, não dirijo nunca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de outubro de 2021.

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