Perfazendo
um itinerário que não o usual, entrei pela travessa que liga a Rua Direita com
a Rua da Bica; nos primeiros passos pelo trecho, fui alertado que desconhecia a
orientação do tráfego.
Quando
ia descendo do passeio para cruzar a rua fora da faixa, sem olhar às costas, escutei
a buzina mais os ruídos do freio, tive que pedir, encabulado, desculpas à mão
que me autorizava ir adiante.
Engraçada
a distração que a gente põe na cabeça quando não está indo pagar conta atrasada
nem tem filho pequeno pra pegar à saída da creche, normalmente se me vejo
empenhado a realizar alguma tarefa incontornável, eis que não perco o olho do
mundo ao meu redor.
Quando
atarantado, não tenho tempo para perder à toa.
Todavia
obrigado a parar, parei.
O
carro que parou, o que vinha do lado que nem me ocorreu olhar, este mesmo carro
teve sua passagem impedida por um automóvel que lhe cruzou a frente, subindo da
Bica à Direita.
Enfim,
eu parado; o carro parado; e o outro que foi forçado a parar mais acima: em
resumo didático, o Brasil parou de vez.
Que
conclusão mais besta, ora essa.
Nem
o bairro onde moro está parado, nem a cidade onde vivo está paralisada, nem o estado
em que tenho vivido desde que nasci tem a vida congelada; por conseguinte, o
que resta estagnado é o país.
Claro,
claríssimo, é parado na esquina que o rosto da felicidade se escancara a quem atraído
pelas coisas da vida.
Sim,
a banda toca, o bando passa, a bunda samba.
Porque
o mundo que conta a sua história de horror canta que passe logo o infortúnio de
retroceder dois passos a cada passada.
Porque
a vida que canta a sobrevida da esperança conta que venha rápido a bonança do
abraço afetuoso, seguro e confiável.
Portanto,
é por outro presente possível que muito obro. Muito, mas não me dobro à raiva
por não tirar férias em dobro.
No
entanto, o suor desta pessoa agoniada não encontra guarida na gente inquieta,
em sofrimento maior do que o meu.
Com
quantos passivos faz-se um pobre-diabo?
Como
não alimento o espírito com rancores e desesperos, reitero o meu apreço pela
alegria, pela amizade, pela Baía de Todos os Santos.
Passei
do ponto pra chegar a que ponto?
Vem
outra farmácia na vizinhança pra juntar-se à dezena de outras nuns duzentos
metros de caminhada.
Com
mal-estares à farta, é saudável a disputa de mercado.
Afinal,
com tantas opções, qualquer pessoa fica esbelta só de correr de uma porta à outra
à cata do preço mais em conta ou acaba doente por torrar a gordurinha extra do
mês exercitando-se preguiçosa.
Tem
remédio amargo dia sim, outro também?
Pra
aguentar o tranco, uma drágea ao acordar.
Pra
não rodar na pista, um comprimido depois das refeições ou dois juntos se as
correrias do dia deixam ter apenas a janta.
Pra
capotar na cama, basta uma pílula.
Pra
alegria geral, eu asseguro que nem sóbrio, nem bêbado, sequer sonâmbulo, não
dirijo nunca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 10 de outubro de 2021.
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