Gente brilhante
Na época em que fazia
versos, certo de que fazer versos me fazia poeta, escrevi isso: há mortos em
mim que não param de falar. Nem lembro se isso aí foi escrito assim mesmo, ipsis litteris. Mas “quem faz a língua é
quem a usa”, dizem-no instituições que estão funcionando, tais como a Academia
Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa, as faculdades de
Educação, Letras e Pedagogia; todas de portas abertas, a mostrar quão
importante é ter pesos e contrapesos quando o assunto é falar corretamente e
escrever bem. Embora haja quem diga que oratória e caligrafia pouco falem a
quem abra a boca como quem posta um comentário.
Gente, devagar com o
horror que o monstro passa a andar quando o comando é inteligível. Quero dizer,
meu ponto fraco é o pulso forte em matéria de língua.
O rigor do castiço? O
castigo do lasso?
O termo me escapa.
Como nem em ladeira
abaixo haja santo que acuda, melhor contar só com a gente. E tem gente pra cada
coisa neste mundo.
Tem gente que nunca se
enxerga. Tem gente que faz de tudo para aparecer. Tem gente que corre da
própria sombra. Tem gente que ri de qualquer desgraça. Tem gente que quer o
circo em fogo vivo. Tem gente que faz outra de palhaça. Tem gente mangando do
cão.
Seu Rodrigues, que
palhaçada é essa?
Sim, o negócio é escrever
a crônica, que hoje pareço um cachorro correndo atrás do rabo, e com tal naturalidade...
Caramba!
Calma.
Chegando ao prédio onde
moro, vejo uma movimentação. Normal, deve ser a equipe de técnicos que faz
periodicamente a manutenção do elevador. Não era. Tratava-se de outro grupo, o da
manutenção da antena coletiva e das câmeras de segurança.
Tudo pra segurança e
proteção.
Sem querer ferir
suscetibilidades, mas as câmeras protegem por que vigiam? Ou vigiam por que
protegem?
Caso tenha ferido, minhas
desculpas.
Interessante.
Um dos mortos que não
param de falar em mim é o leitor de Não
perdoe! se não souber o que é perdão. Como li o livro, não farei um resumo,
e direi apenas o que apreendi.
Perdoar não é livrar-se
da culpa, mas assumi-la. Assumir a culpa de pensar ou agir na medida do seu
pensamento ou da sua ação, ou seja, medindo o que atravanca o caminho, em vez
de permitir que a vida vá em frente. A mágoa é funda; pesa; se alimenta de si
mesma, como ressentimento. Se tem cura? Sim, tem. Todavia, perdoar é mais do que
dar copo d’água a pessoa que tanto se odeia. Perdoar é difícil, problemático,
perturbador, uma vez que é fundamental calcular a dor, o sofrimento, a angústia
que configuram o imperdoável. Então, o que é que me impede de aceitar o que vai
além da tolerância? Eu próprio. Perdoar é... perdoar-se. Daí, o perdão vem.
Quanta ajuda. Até parece
que levei um tapa. Tapa... Oxe! Preciso pegar no manual, que nem sei direito
operar a língua. Seu Rodrigues, é vapt-vupt! Shibatada é com xis ou ceagá?
Eu que o diga: oxe!
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de novembro de
2019.