Formigamento
Indo direto ao que
interessa.
Opa! Indo ao que me
interessa neste momento...
Não vou jurar que
entendo o mundo. Porque não sou de jurar nem tenho cabeça pra entender o mundo.
E globalmente, piorou. Tenho cá umas fumaças de querer explicações pro que faço
ou deixo de fazer, se não quero ou não dá. É coisa minha, não é do mundo, da
vida ou do Chico Barrigudo.
A formiga não deu bola,
virou-se e foi-se num pé.
Mais um dia daqueles. E
venha com contratempos e contrapontos, que o meu fel preparo é pra já, ao
desjejum. Peraí. Passei o café que estou tomando? Estou mastigando o pão de
ontem? Não está pronta a revisão do livro de outrem? Menos, por favor.
Trazendo sua turma,
voltou a formiga.
Minha cabeça ignora as
tentações do abrangente e do definitivo. O absoluto não me seduz. Busco
relativizar, e troco de posição para me permitir outras visões. Nem acabo de
publicar uma crônica e já estou lendo, talvez possa alterar algo. Se faço
mudanças, faço-as pra não enxotar quem lê. E não troco uma palavra por outra pro
texto ganhar em poesia. Mudar palavras; a ordem na frase; as frases no
parágrafo; e a ordem dos parágrafos ― isso é pra dar maior nitidez ao texto.
As formigas já não andam
a mesa toda.
Sejamos justos. Pra
maioria, a situação anda bem complicada.
Penso naquela pessoa,
homem ou mulher, que luta pra realizar o sonho que a consome. Como exemplo, digamos
que a tal pessoa tem que juntar dinheiro por dez meses pra dar cabo do negócio.
E trampa horas a mais e corta gostosuras e entra nos eixos, rala pra dedéu.
A formigaiada vai se
juntando num ponto da mesa, por causa das migalhas das refeições passadas. E
que banquete.
Dez parcelas de R$
300,00, pagamento do dentista que colocou o aparelho corretivo na boca da
filha, que merece os dentes alinhados, pra mastigação correta e pra ressaltar sua
beleza. É aperto que vale a pena, pois é pra dar qualidade de vida à garota.
O que um pai não faz por
um filho? Faz diferença, como exemplo.
Dez parcelas de R$ 30.000,00
pra comprar o apartamento pro filho caçula, o único dos três que ainda não
ganhou o mimo. É justo deixar de ir passar férias em Paris, afinal um ano voa
rápido.
O que um pai não faz por
um filho? Faz diferença, como exemplo.
Dez parcelas de R$ 30.000.000,00
pra trocar de jatinho, o atual já tem três anos. Fora rapidez e autonomia de
voo, nada se compara ao conforto do Global 7500.
O que um pai não faz por
um filho? Não faz nada, porque dinheiro não cai do céu.
Em fila, num vai e vem,
as formigas têm norte.
Assim como água e óleo são
imiscíveis... Mas arroz com feijão...
A crônica tira da manga
um Paulo Mendes Campos: “Todo homem deve libertar-se; todo homem deve realizar
um grande gesto; todo homem deve conhecer a profundidade e amargura de seu
limite”.
E essas formigas que não
param nem por um segundo?
Chega! É muita coisa pro
meu cérebro processar.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de outubro de
2019.