terça-feira, 22 de outubro de 2019

Formigamento


Formigamento

Indo direto ao que interessa.
Opa! Indo ao que me interessa neste momento...
Não vou jurar que entendo o mundo. Porque não sou de jurar nem tenho cabeça pra entender o mundo. E globalmente, piorou. Tenho cá umas fumaças de querer explicações pro que faço ou deixo de fazer, se não quero ou não dá. É coisa minha, não é do mundo, da vida ou do Chico Barrigudo.
A formiga não deu bola, virou-se e foi-se num pé.
Mais um dia daqueles. E venha com contratempos e contrapontos, que o meu fel preparo é pra já, ao desjejum. Peraí. Passei o café que estou tomando? Estou mastigando o pão de ontem? Não está pronta a revisão do livro de outrem? Menos, por favor.
Trazendo sua turma, voltou a formiga.
Minha cabeça ignora as tentações do abrangente e do definitivo. O absoluto não me seduz. Busco relativizar, e troco de posição para me permitir outras visões. Nem acabo de publicar uma crônica e já estou lendo, talvez possa alterar algo. Se faço mudanças, faço-as pra não enxotar quem lê. E não troco uma palavra por outra pro texto ganhar em poesia. Mudar palavras; a ordem na frase; as frases no parágrafo; e a ordem dos parágrafos ― isso é pra dar maior nitidez ao texto.
As formigas já não andam a mesa toda.
Sejamos justos. Pra maioria, a situação anda bem complicada.
Penso naquela pessoa, homem ou mulher, que luta pra realizar o sonho que a consome. Como exemplo, digamos que a tal pessoa tem que juntar dinheiro por dez meses pra dar cabo do negócio. E trampa horas a mais e corta gostosuras e entra nos eixos, rala pra dedéu.
A formigaiada vai se juntando num ponto da mesa, por causa das migalhas das refeições passadas. E que banquete.
Dez parcelas de R$ 300,00, pagamento do dentista que colocou o aparelho corretivo na boca da filha, que merece os dentes alinhados, pra mastigação correta e pra ressaltar sua beleza. É aperto que vale a pena, pois é pra dar qualidade de vida à garota.
O que um pai não faz por um filho? Faz diferença, como exemplo.
Dez parcelas de R$ 30.000,00 pra comprar o apartamento pro filho caçula, o único dos três que ainda não ganhou o mimo. É justo deixar de ir passar férias em Paris, afinal um ano voa rápido.
O que um pai não faz por um filho? Faz diferença, como exemplo.
Dez parcelas de R$ 30.000.000,00 pra trocar de jatinho, o atual já tem três anos. Fora rapidez e autonomia de voo, nada se compara ao conforto do Global 7500.
O que um pai não faz por um filho? Não faz nada, porque dinheiro não cai do céu.
Em fila, num vai e vem, as formigas têm norte.
Assim como água e óleo são imiscíveis... Mas arroz com feijão...
A crônica tira da manga um Paulo Mendes Campos: “Todo homem deve libertar-se; todo homem deve realizar um grande gesto; todo homem deve conhecer a profundidade e amargura de seu limite”.
E essas formigas que não param nem por um segundo?
Chega! É muita coisa pro meu cérebro processar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de outubro de 2019.

domingo, 20 de outubro de 2019

Furo n'água


Furo n’água

Ir com muita sede ao pote? Num gole, sair escrevendo o que brota nas ideias sem pesar a areia, o caminhãozinho fica atolado na praia. Não dá pra respirar com a cabeça enfiada na areia, mas tentar sair só faz água, que, insalubre de tão choca, contamina o texto que ia leve, transbordando aos quatro ventos a mágica da palavra bem posta. E o guincho que não chega?
Amiga minha anda com uma dor de cabeça que não passa e, pelo jeito, não passará fácil. Essa mancha borrando a mente impede-a de matar a sede de escrita. Como se uma mão invisível a estagnasse, a água parada contaminasse o que tenta escrever. E aborrecimento de tal bojo, logo com o que mais a apraz?
Quem escreve já pode ter enfrentado algo parecido. Há momentos nos quais o suor empapa a folha em branco, e nada de vir a palavra pra encaixar na frase. Há ocasiões em que a palavra até quer puxar outra, mas a mão fica no ar. Há desses dias que pedem o que não se tem, e talvez o texto rendesse mais com correções.
Juro que avalio meus limites. E reconheço, sou escritor pro gasto. Sim. Gasto meu tempo correndo atrás da origem das palavras. Gasto a sola do tênis pra ir pegar livro no sebo. Gasto o que não tenho, pois o bem feito resultará no prazer da leitura, que é uma resposta e tanto.
Tomo a liberdade de ir escrevendo com a maior responsabilidade possível. Em busca dos rastros semânticos, consulto dicionários. E os escorregões acontecem quando mais tenho pressa de ter em mãos as fontes que decido examinar. De tombo em tombo, quem sabe um dia aprenda que preciso calçar um tênis adequado pra ficar de pé nas próprias pernas; nuvens, afinal, não têm rampas, buracos e fezes. Só que os buracos dão a oportunidade pra ir corrigindo a passada.
Então, quando escrevo? Venço a parada ou as palavras vencem.
Vencedoras, acolho o sentido que sugerem. Então, ficando legível, pago o que o texto pede? Tento não me prender a frustrações.
Olha, vim disposto a dar vazão ao que tenho pra dizer. Está nítida a mensagem que desejo no texto. Cada palavra no seu devido lugar. Do começo ao fim, com a coerência do que penso. E calha um treco assim? Do nada, um trecho trava e a cabeça fica em silêncio. Aponto o lápis; bebo café; vejo TV.
As manchas de óleo nas praias do Nordeste são para punir aquele povo comunista que não sabe votar? A banda podre dos verdes quer grana pra suas ações no Brasil? O DNA deste óleo é igual ao material coletado nas águas oceânicas da Malásia?
Eureca! A fonte está seca aqui, posso cavar ali.
Assim como troco as palavras, estudo os significados, esmiúço as raízes etimológicas porque o texto pede o que nem tinha em mente quando sentei pra escrever, assim há recursos pra me levar ao que tomo como o mais próximo do que almejo expressar.
Amiga, espero ter passado o plá de hoje. E se o mar não está pra peixe, cá entre nós, cadê o Tiamat pruma ceva tão rica em carbono?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de outubro de 2019.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

À doida


À doida

Nada como um mestre depois do outro pra nos permitir ver que a vida é sonho. Sim, a maestria nos acolhe na caverna que nem se via. Quando lá fora a chuva aperta ou o sol está de lascar, é mão na roda. Façamos o fogo pra que, ao pé de tanto esplendor, até os monstros queiram chegar, pra curtir a prosa mansa.
Mansos, mas de garras afiadas na lida contra os muros por beijar com todas as cores, que beija-flores têm bico doce. E a modéstia nos perdoe, movemos as estrelas com um beijo.
E ao nos afirmarmos com um sim, escorre-nos a névoa pela face. Que é sim pra enfatizar que entendemos o que, líquido e certo, este nosso sim quer dizer: amor.
Amor, de todas as letras e todos os sons. Amor, que chamamos à roda, que a ciranda roda e gira.
E faz dia, a seu tempo, porque as abelhas acordam os ursos pro mel, só não se abuse da doçura, que isso põe mal a quem sem limite. E faz noite, a seu tempo, pra que se recolha as juntas do varal, antes que o sereno force as costas e desabe tudo, feito areia.
Lá vem o vento soprar o quanto pesa no coração a veia entupida, petrificada, carcomida por tanta discórdia.
Jocasta, a aziaga. Medeia, a desarvorada. Cordélia, a destronada. Será calão não calarmos? Édipo custa a enxergar, falamos. Jasão de mãos abanando, falhamos. Lear tem braços, falhamos melhor.
Daí os ares ventarem o bastante pra gerar tempestades, que vêm com a feracidade de quem tem fome. A fome da saciedade veraz do pão e da crônica alegria dos palhaços. É tal a fome que se faz preciso empurrar com a barriga o encosto que não dá espaço, já passado da hora, já passado o rio.
As águas não param.
E dedos róseos apontam no peito, onde o aplauso vira vaia, a virar o que a gente bem quer que brote, no momento em que se semeie, no chão em que se colha.
Se cheguei a tempo, posso?
Como professor, falando a distintos públicos, estive no palco do Auditório Roberto Marinho, na Praia Grande. Do palco, a visão muda de figura. Com as luzes da ribalta iluminando o proscênio, não se vê a plateia. O público está lá, dá pra ouvir o burburinho, comunicam-se a audiência e o palco através da cortina inconsútil, delgada, delirante.
O riso e o pranto tornam-se pontuais, o embargo da voz ecoa no suspenso da respiração, o compromisso irrompe como resposta.
Já na sala de aula, diante de alunas e alunos, lá estava disponível às interações de cada gesto. Feliz da vida por aninhar um coração de mão dupla, atento ao pedestre, agreste, rupestre em cada lição.
Agora, em qualquer lugar, posso ver que a realidade é caverna a acolher, abrigar e envolver. Entre a porta da rua e a porta de casa, a folha se abre aos dois mundos; e foi do palco da SEDUC que passei a ver que o mundo é um só.
Com o fogo que nos aviva a todas, todes e todos, sopro as brasas desta gratidão a quem escolhe por vida a inteligência ousada de catar feijão como quem conhece o joio pelo trigo.
Doida... Meeerda!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de outubro de 2019.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Lição do dia


Lição do dia

Puxo pra cá, do ontem da memória, o dia em que tomara o valente de um tombo, conforme já pude absorvê-lo. Se parasse aqui, como parei lá, ficaria no anedótico. Nem daria pra afirmar se foi efeito do pé que se perdeu da segurança do passo, se o escorregão ocorreu pela calçada molhada de chuva ou se estavam lavando o passeio.
Então, ao lapso, digo, aos fatos.
Houve testemunhas. Dentre elas, porém, exclua-se o cão que nem aí pro cara caído. Também tiremos da história o guarda-chuva, que, se a ele fosse dado ter voz, tomaria por mentecapto o escrevinhador, em singelo troco pelo estrago da queda.
Fixemos a nossa atenção, portanto, nas gentes às quais passo a dar evidência, que as suas ações, espera-se, possam vir a colaborar prum final de elevado tom, e exemplar, inclusive.
Acudindo-me a mim mesmo para levantar, escutei o homem a se dividir: se tudo não passava de cena ridícula ou se havia necessidade duma expressão simpática. Quem ri por dentro, nem se segura diante de cidadão estatelado. Porque fiz tal leitura pelo som da voz, tratei de acusar o vento.
Embora controlasse os gestos, enrolando o pano com a forçadinha básica nas varetas entortadas, escorei no poste mais próximo o inútil, que servisse a outrem pra alguma coisa.
Um passo além, e colhi um passa pra dentro, com a garotinha de patins informando a mãe que o rapaz caiu feio.
Que rua em flor!
Normalmente deserta, mas o alinhamento dos planetas, por certo, calhou de pô-la viva de olhares a me julgar um idoso trôpego, talvez pelo tênis azul de cadarço rosa-shocking, ou pelo bermudão xadrez.
Sei lá.
Só sei que a mulher descendo do carro me pareceu uma bruta de uma antipática, nem perguntou nada.
Fosse outro dia, outra hora, outro momento?
Tem dia que a vida manda a gente tomar no SUS. E fui, pois não tenho plano de saúde nem pretendo ter um, por falta de grana. Com o nariz escorrendo, melhor um livro. Com os brócolis na promoção, não posso perder a frase do filme que acabei de lembrar. Com o boleto gritando da gaveta, nada melhor do que o melhor pra gente, mesmo. Afinal de contas, a vida não pensa duas vezes pra mandar a gente ir tomar no SUS.
Já no Irmã Dulce: a senha; a triagem; as notícias no celular; e a tal médica: depois de cinco caixas de anti-inflamatório, o senhor perdeu o juízo!
Pra não cair naquela rua de novo, subo outra.
Brota este texto. Com os catadores de letras trançando as minhas impressões, sinto-o encaminhado pro fim. Nada estrambótico, capaz de nem despertar a atenção em quem já nem anda bem, com olhos de preguiça, cansaço ou tédio.
Por causa do tédio, irei bater a janela do programa? Tenho modos. Mesmo que nem se perceba o dedo da angústia ou tenha de soletrar S.U.S. de trás pra frente? Sou educado.
Hoje como ontem... Ontem como sempre... Sempre como hoje...
Como nenhum tombo não é metáfora, caí direitinho.
Ê bexiga.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de outubro de 2019.

domingo, 13 de outubro de 2019

A capa do cão


A capa do cão

Como parece que todos os voos partem pra Roma, pra já, e pro dia a dia de todo dia, quedo-me pedra no caminho, digo, no sofá, que aceita o mar, o cais, a estação, a estrada que invento, sonho e passo a viver. Arrisco a querer ir por aí, e vou.
É música pros meus ouvidos.
E a música mexe comigo. De modo que preciso me escutar no que sinto. Tem música pra dançar junto, tem música pra cantar junto, tem música pra assobiar junto, tem música pra prestar atenção, tem música que faz gato e sapato de rimas e compassos, tem música que nem reparo e já estou ouvindo mais uma vez, que na terceira vem aquele trecho que faz a gente querer ouvir de novo.
Como gosto de esticar as pernas no sofá pra escutar música numa boa, depois das refeições. Boto o fone, ponho pra tocar o balaio com faixas de artistas de todo naipe. Sem me prender a um disco só, sem ficar com um nome só, sem me acomodar em um ritmo só.
Misturo e mando ver.
Sim, sou desses melófilos que deitam no sofá depois do almoço. Pra digerir o frango com batata? Cai bem o sonzinho dos bytes.
Sim, computador também serve pra isso. Não é só pra jogar xadrez, que jogo todo dia. Porque gosto muito, aliás, configuro pro nível de iniciante, que é pra ter a satisfação de derrotar o cérebro eletrônico, é óbvio.
Mas isso é estrada que não vou pegar agora.
Pois preciso dizer que a lista tem forró, baião, pop, rock; tem canções antigas e recentes; é uma miscelânea de cantoras e cantores.
E lá vai o trem pelas nuvens. Trato de ir, pois a minha vida é andar o meu país. Sei que a estrada não é só minha. E vou pela serra do luar, o sol na cabeça. Sigo em frente, quero ver quem me tira desse viajar. Mesmo que morra o meu tatu-bola. São muitos os lados da viagem.
Sim, estou viajando.
Já vejo a capa do livro. Com foto em branco e preto e o título em vermelho, VAMOS SALVAR OS BÚFALOS, assim mesmo, soando capitulares. Vermelho, sim. O urucum de quem ama bichos, plantas, pedras. Cor da paixão de quem se mexe pra defender búfalos e jabutis.
Daí que na capa tem crianças. Sim, tem meninas e meninos de uns dois ou três anos. Tem pretas, brancas, amarelas; as gordinhas e as magricelinhas; as mais baixinhas e as mais altinhas. Todas exibindo a imagem de um búfalo que a leitora e o leitor vão ter que encarar.
Com imagem impactante, nem se vê que a criançada desce em diagonal, do canto superior direito pro canto inferior esquerdo, dividindo a capa em dois triângulos iguais.
E tem esse detalhe que não posso deixar escapar.
No triângulo complementar, ao lado daquele da gurizada, está um cachorrinho. Desses de rua; sem dono; que se vira pra comer, dormir e fazer das suas com o que lhe cruze o caminho. E ele ali, sentado ao largo, só de olho na movimentação.
É como?
Assim é: levanta-se do nada pra ir latir noutra freguesia?
Ô cabotino, a meninada desviou o caminho pra você tocar viola com suas pulgas.
Rex!
Rex...
Rex?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de outubro de 2019.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Jogo de cena


Jogo de cena

Seguia como quem vai feliz pela possibilidade de ter o poder de escolha. Não havia decidido se ia ou não ia ao cinema pra assistir ao Nanini num filme que acabou de entrar no circuito. E mais ainda, foi na alegria de pôr uma conta em dia; quanto às que pagaria fora do prazo, cada qual nominava no boleto onde o pagamento deveria ser efetuado, perdido já o direito a preferência.
Liquidada a fatura da vez, vamos conferir o troco? Sem problema, basta abaixar e pegar a moeda que derrubou sem querer. Ótimo! A coluna nem chiou por ter descido e subido ignorando a orientação do ortopedista. Que mão boba, hein? Lá vai a moeda pras coisas de um cidadão que segue dormindo, mesmo o colchão ali, à saída da loja de divisões. Se a muvuca não o perturbava, por que lhe incomodaria o arrojo de querer pegá-la de volta?
Passando por cima do vil metal, uma barata saiu-se com essa: “a vida seria tão maravilhosa se soubéssemos o que fazer com ela”.
Antenado, olhou em volta. Não queria que o interditassem, como louco ou sábio chinês, que sabe a língua das baratas.
“Eu nunca sei o que fazer quando não estou trabalhando.”
Vivamente interessado, assumiu o papel de confidente.
“Não quero que os sonhos acabem.”
Sem medo de levar um pisão, o inseto ia tagarela.
“Às vezes fico na praia olhando o mar por uma ou duas horas. O que são duas horas para nós?”
Por sorte, na loucura cotidiana, ninguém a ouviu ou quis ouvi-la.
“Gosto do mar: nós nos entendemos. Sempre anseia, suspirando por algo que não pode ter, e eu também.”
Se uma barata apela pra filosofia, melhor se concentrar.
“Tem tanta coisa dentro de nós que nunca poderíamos contar para outras pessoas. São as coisas que fazem sermos quem somos.”
Ignorando a barulheira das máquinas cavando a rua, era preciso arcar pra não perder nada do que dizia.
“Quando eu não estava pensando, não estava imaginando o que significava viver, eu estava sonhando.”
Impressionado com a sapiência do inseto, foi seguindo o bicho por metros e metros. Porém, na esquina da Jaú com a Pernambuco, aí a estrela da manhã parou, abrupta.
“Algumas pessoas precisam de outras. Eu preciso ficar sozinha, sempre.”
Dava pra antever a jogada seguinte da artista.
“Nunca disse: eu quero ficar sozinha. Disse apenas: eu quero ser deixada em paz. Existe uma grande diferença.”
Fiel ao roteiro, sumiu-se bueiro adentro.
Embora lhe parecesse paradoxal, sentia-se livre pra cogitar a realidade própria das verdades que a andarilha expressara.
Fazer pouco caso da alteridade? Ora essa!
A Lava Jato teme que os documentos da Dersa fujam pelo ralo. Pode uma canetada agir como inseticida pra provocar a extinção de R$ 625 milhões que correm a céu aberto pelos 44 km do trecho norte do Rodoanel Mário Covas.
Se fazem de cínicos... Todavia, tamanha desfaçatez corta o barato.
Gretas do mundo, como manter o sangue de barata?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de outubro de 2019.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A culpa é do sistema


A culpa é do sistema

“O senhor por aqui!”
Nem bem entrava naquela fila serpentina, acabaram com a minha chegada anônima. Pra ficar esperando, prefiro ficar de orelha em pé, ouvindo a prosa das pessoas. Quando a demora é irritante, presto uma atenção danada nas funcionárias ─ pra saber por qual motivo os ponteiros comem com maior apetite o tanto de chão no qual me enterram pelos pés.
E eis que a estudante de faculdade, reconheci-a depois que se identificou como estudante de faculdade, pra chegar ao que a ela interessava, em momento de extrema precisão, foi direta. Daí a interpelação num instante. Sim, a necessidade faz a vez.
“Nem sei se o senhor vai poder me ajudar com o trabalho que tenho que fazer lá pra faculdade.”
Nem cheguei a cruzar os braços à altura do peito.
“É sobre a poesia de hoje. Se a poesia tem vez no mundo atual. Se a poesia fala sobre o que está acontecendo. Será que tem poeta falando o que tem acontecido?”
Nem com um pigarro tive como articular as ideias.
“Não precisa responder agora. O trabalho é pra semana que vem. Pode pensar com calma.”
Arrisquei outro pigarro.
“Nossa! Assim que o senhor apontou na porta, fiquei na torcida pra pegar a fila. Me perdoe se estiver incomodando, mas é que preciso de ajuda e sua ajuda vai ser muito, muito importante. Porque o senhor é amigo de todo mundo, né? E por conhecer muitos poetas e escritores, pensei, ele vai poder me ajudar.”
Sim...
“O senhor já foi alguma vez na faculdade dar palestra?”
É que...
“Bom, não importa. Se for mais fácil, pode enviar por mensagem. Dá tempo, viu? Vamos fazer o seguinte, digite o meu número. Ai! O senhor tem celular, né?”
Tirei o aparelho do bolso.
“Que alívio! O senhor não está na idade da pedra.”
Sem precisar de ajuda, salvei o nome e o número.
“Que fila que não anda! Vou embora. A gente se fala.”
E foi-se.
O problema não estava na estudante, euforia é contagiante. E fiquei ali, naquele perrengue. Pelo jeito, amarrei meu burro à sombra das estátuas em flor. Liguei o rádio mental, mas a música era uma que não queria lembrar. Fui desligado pela sinfonia de vozes que o Glenn Gould não desprezaria. Mas ali a indignação era em vários tons, mas numa única nota.
Adeus, paz.
Fiz cara de paisagem; virei olhar o mostruário de móveis; cruzei e descruzei os braços. Que não fosse comigo. Inventei de parodiar o Bezerra da Silva, “quero pensar, mas não quero pensar agora”. É claro que o semblante, de pateta, deixava transparecer o cara que sonha acordado.
Ah! Iria colaborar com a estudante da faculdade. Mostraria a ela que a palavra, como ferramenta, serve de veículo à ideia, mas a mensagem produz efeitos quando...
“Tá dormindo, mané?”
Quando me posicionei no guichê, a operadora informou que o sistema tinha caído. Sorri, tinha tirado a manhã só pra isso mesmo. Daí me veio o verso da poeta:
O processo se confunde qual barata tonta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de outubro de 2019.

domingo, 6 de outubro de 2019

Massa corrida


Massa corrida

Não há razão pra achar graça nessa história de que o Burroughs, o doidão do William Burroughs que escreveu Almoço Nu, enfiou na cabeça de correr atrás de um vizinho, justamente o Thomas Harvey, o patologista que abduziu o cérebro do Einstein, cujo corpo mal tinha entrado na morgue do Hospital de Princeton.
Além disso, beberagens de cogumelo ou de bolor afetam a mente. Afinal, como o cara pode estar em Nova Jersey na hora da morte do físico da Relatividade e noutro instante estar no... Kansas? Missouri? Pensilvânia?
Que viagem! Não se conserva genialidade em formol.
Sendo uma crônica de família, amável leitora e afável leitor, urge uma intervenção de cunho racionalista. Não basta possuir a compostura, tem que se portar com credibilidade. Até porque, na estrada da vida, os fatos que têm pressa aceleram na curva e atropelam lebres e tartarugas.
A questão é que a massa cinzenta do famigerado alemão foi feita em pedaços, literalmente, pelo Harvey. Então, o sujeito correu os EEUU pra encontrar pesquisadores interessados em estudar o encéfalo tão diferenciado.
Na Universidade da Califórnia, mais precisamente em Berkeley, o Dick Vigarista encontrou o freio e a Penélope que entrou na corrida foi a doutora Marian Diamond.
A cientista examinou os miolos do humanista de Ulm. Precavida, levava o material de seus estudos numa caixa de chapéu. Dedicada, concluiu que o cérebro de Einstein era rico em células gliais, que produzem a acetilcolinesterase, enzima responsável por estímulos no sistema nervoso. Séria, depois de experimentos com ratazanas, deduziu que ambientes estimulantes influem na química cerebral e afetam o sistema imunológico. Inovadora, suas análises demonstraram que, em qualquer idade, alimentação, exercícios físicos, desafiar-se com algo nunca feito e o amor são fatores importantes pra que mudanças saudáveis ocorram. E, “se você tirar o cérebro, você tira a pessoa”.
O amor?
E aqui entra o Beethoven, outro genial do porte do Albert. Sem acesso ao cérebro mas de posse de fios de cabelo do Ludwig, especialistas bateram o martelo que o chumbo causou as agruras do compositor da Eroica, não apenas o amor pela Amada Imortal.
Aliás, no dia 06 de outubro de 1802, no chamado Testamento de Heiligenstadt, Ludwig van Beethoven admitiu o quanto a surdez era perturbadora, a ponto de levá-lo a pensar em suicídio. “Por que sinto essa tristeza profunda se é a necessidade quem manda?”
Bem fez o Beethoven em dar um cavalo de pau e mudar de tom pra revolucionar a música e a postura diante do cosmos, da vida e da plateia. Vieram à luz, depois do Testamento, trios para piano, quartetos de corda, a Kreutzer, a Appassionata, as Variações Diabelli e a Coral.
Hoje é possível, assobiando de cabeça, pintar em coro: enviem este beijo para todo mundo!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de outubro de 2019.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Olho de boi


Olho de boi

Ê quinta-feira que não acaba.
Há um homem naquele bar. Sentado sozinho, na penumbra. De preto, do chapéu às botas. Atolado na lama da peçonha, pouco se mexe. De tão imóvel, passa por figura de selo antigo. Uns olhos azuis de procedência vetusta, de Muthill ou Perth. Por certo, em nada ajudaria ouvi-lo, com algum sotaque fugidio, na rispidez do ar sobrevindo feito navalha pelas cordas vocais, ou algo assim. O que explicaria os trapos da voz, se falasse.
Só agradece por meneio. A cada vez que a mesa é limpa, o cinzeiro é limpo; agradece. O gesto medido, de quem cultiva a eternidade. Disso não passa.
Por natural, pousa a neurastenia num copo. Assegurando-se de que aquilo não lhe escape, por nada. É certo que sugere um rio correndo as águas pra fonte, fosse recordação. Como se o objeto não materializasse o tão somente ali, indo à distância de acontecimentos pra essa vinda, no copo.
Coleciona cacos de suas passagens. Esta joia, por indústria, é artefato sem reprodução. Há esmero, há técnica de artesania. De argila ferruginosa, entre vermelho e cobre, a despender sua luz. Especiaria que conduz os olhares.
Não gosta que ponham reparo no dedo excedente que ainda resta na sinistra. Haja olhos no fervor além das mãos no copo.
Atrás do balcão, duas funcionárias. A serviço do qualquer, que tem por pinta a de se achar o tal. Fala pouco, anda pouco, dá o troco porque precisa, e porque deve confirmar-se no posto de dono do negócio.
O patrão nem liga pra TV que despeja o desgosto do mundo malformado. O desespero em filas, os desalentos em números, o petrificado de vidas em carneiro de toda monta. Mas pra girar o brilho da cor, conta com a flor das mercadorias.
Suporta-se, mordaz. Por que se inventam palavras que furam como punhal? Excluindo-se do buchicho, liberta-se do segredo, que essa gente ainda pica com sua mula a Calçada do Lorena, já a serra chamada Do Mar. Então, falamos.
De vida impronunciada, não dormindo nas dores do mundo, o alienado fica nisso, a pôr o olhar na visão do pavio que sustém, e à mão. Como se pudesse estar apagado, com os dedos enclavinhados. Acaso prorrompessem com arenga, pela máscara entrevada das rugas, não se permitiria em uníssono de Salve Rainha nenhum. A ele pouco importa o Halley indo ou voltando. Amanhã terá lugar o proibido hoje? Sua malícia tem o lume doutra ressaca, a de quem experimenta do veneno, o que o fortalece. O ódio dos ressentidos não lustra suas pegadas, de quem entra e come onde quer.
Há um labirinto que conhece o nosso homem, aquele que se levanta quando o sol se põe. Há rumo fora do bar, que o norte de si é o fumo dentro. Há dor a personificá-lo. Há solidão que não acorda galo algum.
Nascer de novo? ─ o raio despenca pelos abismos.
Água de mina, a brotar, e sobre a qual se anda e anda e pisa.
Seguiria anônimo se restrito a Velho. Que o qualifiquem Márgara.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de outubro de 2019.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Dito e feito


Dito e feito

Quando a coisa não tem remédio, melhor não dourar a pílula nem ficar fazendo fita, como quem chora o leite azedado. É certo que santo de casa faz milagre que gente de gosto enjoado cospe o vinho que virou água.
Contudo, há muita coisa que me pega de surpresa. E como é que reajo? Depende. Não tenho nenhuma resposta padrão. O momento é de chorar ou pra rir? Pra saber o que sinto, só na hora da verdade. Mas quando o rabo torce a porca, que diabo!
Nem sempre entendo o que o mundo anda dizendo. Acho que o aprendizado fica prejudicado pelo excesso de realidade. E convenhamos, a vida nos envolve de tal jeito que nem dá pra perceber o truque. Se a vida é sonho, melhor acordar ou dormir feito pedra?
Por não saber a medida do que a minha cabecinha filtra do que se passa, deixo estar. Prestando atenção se a garganta fica seca ou se me fazem de surdo os tímpanos, vou tocando o barco. Mesmo porque não há colete salva-vidas pro viver.
E tem coisas que não quero ouvir, justo essas mais eriçam os pelos do corpo. Parece que estou fingindo não escutar, e finjo tão bem que muitos me tomam como distraído. Mas essa distração é pra disfarçar o desassossego, só que o danado é traiçoeiro e sempre me escapa pelo que faço.
Ora, como diz um amigo, se o espantoso se faz presente, a melhor explicação é atribuí-lo às artes da Fortuna. A fada que faz chover sem cair água, a senhora da lógica do caos, a dona de matemática singular, é ela o fantasma na máquina que torna especiais os efeitos em ação.
Na estrada momentosa de minha jornada, digo que não é de bobeira que fico pasmo com a reação. A pasmaceira revela o quanto não ponho fé no que penso estar vendo, ou sentindo.
E se a bússola quebrada for um norte poderoso? Faz parte ir às cegas, flutuar a cada instante até que o pé encontre o fundo, e a lama, enfim, possa dar suporte a tal travessia como terreno menos instável?
Quanta retórica pra pouco caldo. Seu Rodrigues, aos fatos!
Então, tá.
Eis que, domingo, estava sentado quieto. Aguardando a vez de passar pelo médico, abre-se a porta e vejo uma adolescente grávida sendo atendida por alguém com nariz vermelho, jaleco com mensagem engraçada às costas e estetoscópio com um frango de borracha na ponta da auscultação.
Confesso que sorri sem caçar motivo pra mascarar o afeto. O insólito da circunstância foi o suficiente pra mexer comigo. E sorri com gosto, a ponto de o Doutor Sorriso dirigir-se a mim, de lá de dentro da sala, como se tivesse visto algum palhaço.
Saquei a mensagem da cena, e traduzo-a numa frase que de tão batida nem tinha reparado ao que ela diz: só os tolos não julgam pela aparência.
E não sei se a malasartina tirou a minha dor de ouvido por que surgiu do nada ou o tempo voou que nem vi o analgésico dar sentido à expressão alívio imediato.
Sei apenas que não creio em palavras que nada signifiquem, mas que elas existem, existem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de outubro de 2019.


domingo, 29 de setembro de 2019

Fantasia de fantasma


Fantasia de fantasma

Memória é coisa recente, já dizia o Paulo Leminski. Todavia, chega de ficar com graça. Os fatos atropelam o papo furado da lua. O negócio é tirar a viola do saco pra cantar a verdade, nua e crua. O mais são águas que vão e não voltam.
E não voltam mesmo.
Mesmo agorinha, pensei na minha mãe, “vê se para de enfiar palavrão no que escreve”, e pensei quando chutei com o dedinho do pé esquerdo o pé do sofá, “puta merda, quebrei essa joça”, pena que só fui lembrar depois de ter dito, mas só disse depois de ter provado, por xis mais ípsilon, que o ossinho do mindinho é mais frágil que a madeira do móvel, que, aliás, nem tchum pra minha dor, ficou no mesmo lugar de sempre.
Sempre acabo me lembrando do meu pai, “filho, quando for preciso mentir, minta pra quem não vai mesmo acreditar que você seja capaz de dizer uma mentira”, e lembro bem na hora que pego a fila errada no supermercado, “tem dez itens, nem precisa conferir, eu sei contar, não sou nenhum imbecil”, não, a funcionária do caixa não me chamou de imbecil, mas os meus poderes extrassensoriais permitem prever sem que ela saiba que a estou ouvindo no texto aqui.
Aqui, bem aqui neste ponto da história, é que entra a minha irmã, “lá vem você com as suas capivaras de beira de rio”, não me perguntem, amável leitora e afável leitor, o que isso quer dizer porque ela nunca usou tal expressão, por isso, e pra deixar de lado o nonsense, abrevio o parágrafo e agradeço a ela pela sua contribuição involuntária, e vou em frente.
E vou em frente porque o Brasil não para, mesmo que ande meio zureta das ideias, “não estou me referindo ao Janot, que sempre foi o gatilho mais rápido do Centro-Oeste”, corrijo-me a tempo, antes que me acusem de biruta ou coisa que o valha, é que sei melhor do que ninguém como a minha cabeça vive cheia de demônios que a querem vazia pra fazer a festa com umas ideias de comunista que não tem mais aonde ir.
Se não tem mais aonde ir, então, “feche a droga da porta da geladeira pra não escapar o barulhão do arrasta-pé, seu energúmeno”, sóbrio esse demônio, e vou na dele, deixo a geladeira em paz, abro um livro, Distraídos venceremos, leio que fica “extinto por lei todo remorso”, daí que volto pra pegar a maçã que estava querendo comer, e até arrisco uns passinhos no embalo do jegue do Genival Lacerda.
Só mesmo o danado do jegue do Lacerda pra liberar na crônica um “freio de arrumação”, e acabo sem enfiar nenhum palavrão, sem gritar que tem lobo na área, sem tirar palavras da boca de ninguém e, finalmente, indo tratar da vida que já está na hora de pegar uma onça pra ir beber um galão de água que passarinho não bebe.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de setembro de 2019.

PS – Depois de terminada a crônica, digo que concordo com o poeta da primeira linha, “maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada e nada mais”, a história é mesmo recente. E já que estamos aqui, aproveito: a que ponto chegamos?

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sem palavras


Sem palavras

Eis uma roda de pessoas dispostas a conversar sobre o que andam lendo; algumas carregam livros com páginas destacadas por marcadores. Para ato tão anacrônico, a leitura de texto no papel, fica dispensável o celular. Hoje, alguém deixar o telefone de lado é algo surpreendente, ou a bateria está sem carga.
O alento vai às estrelas assim que uma pessoa convidada passa a discorrer sobre o gênero ao qual tenho me esforçado para domesticar, e como venho apanhando, a tal da crônica.
Nada mais eletrizante que ouvir quem leva em rédea curta este animal imprevisível, marmota que cava túneis que nem uma toupeira, conforme segue metafórico o discurso.
Como autêntico mestre, com desenvoltura, o palestrante vai pontificando o quanto o alegra vencer uma vírgula intrometida que ocupa lugar indevido e o tanto que o angustia quando se sente vencido pela beleza de um escrito dúbio.
Como se vê, o campeão só se dá uma medalha depois de derrotar os obstáculos, um a um, sem escamoteá-los e sem tomá-los facílimos de suplantar. Por isso, e chega a embargar a voz, admite a modéstia de quem sabe com quantas palavras se faz navegável um texto pro mundão da internet.
Embarco na minha peraltice, de quem vibra com o trabalho, tão auspicioso em desbravamentos. Como o gazeteiro em mim goza ao já vê-la partindo singrar tantos mares, acenando-me o lenço; e atrevido, retribuo: vá minha crônica, vá em paz, vá cantar por aí, sua jornada é circular a Terra pelos oceanos que imagino curvos, caso não me esteja engabelando o horizonte.
Ê siso, o que mais diz o emérito?
Diz que a crônica é retrato. E como retrato, pede logo um close. Daí, de pertinho, vemos o que as palavras compõem. Como é de palavras, façamos a imagem com menos de mil, pra não aborrecer quem lê. Afinal, comenta o audaz, não se puna o leitor como quem dispensa as cinzas sobre a grama que pisa, pois todo fumante não passa de um poluidor canastrão.
Diz ainda que ao cronista cabe agir como fotógrafo, que tem o assunto na cabeça, controla os olhos ao rastrear o cenário, toma pé na certeza quando topa com o que deveras deseja. Na experiência, dispara uma Mantiqueira de cliques pra daí pinçar a Pedra da Mina que o convença de que assoma dos enganos todos um que traduz aquela verdade.
Pra apoiar o que diz, tira da manga a foto estampada num jornal, em cuja figura vê-se um senhor, sentado, grisalho e de terno, inclinando-se pra apertar a mão de uma garota, sentada, mirrada e séria.
Define-a como sintomática.
Como não tem papas na língua, arremata: Greta Thunberg é militante ambientalista; António Guterres é o secretário-geral da ONU; o local é a sede da ONU em Nova York; a sueca foi pra Cúpula do Clima num veleiro que, ao se deslocar, produz energia elétrica, consumida a bordo, com pás subaquáticas.
Eco! Foto que vale por uma crônica nem precisa de legenda.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de setembro de 2019.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Vida longa


Vida longa

O senhor é otimista ou pessimista?
Nada melhor do que ser parado na rua por uma menina de uns doze anos que tem um questionário para fazer, sobre... A enquete é sobre o quê?
Pois é. Que estupendo ter de pensar num assunto, assim, de supetão. Você acaba por se revelar um pobre-diabo incapaz de responder a questão simples de uma estudante de trancinhas. É ainda mais perturbador quando se está diante daquele sorriso, de quem nem desconfia que o inquirido quer dar o pinote dali, pulando do Karnal pro Pondé, do Pensador pra Wikipédia. Para não faltar com a ética, uma vez que nunca leu uma linha do camarada, melhor nem pôr o Aristóteles no meio.
Caramba, o copo está meio cheio ou está meio vazio?
O real faz mal por que meu corpo reage ao mundo a girar? Foco. Por que me detenho num ponto qualquer que a realidade apresenta? Vamos. Que tem este ponto em que pouso a lupa? Concentre-se. Calibro o microscópio pra ir à raiz do que constitui o que me faz debruçar nisso. É isso, mergulhe!
E quanto mais amplio o minúsculo, mais perco a noção do todo. Até que dou com um momento em que não vejo mais a floresta, a árvore, a folha, as nervuras da folha, as moléculas, os átomos, nem nada que tenha a mais tênue afinidade com o que as palavras dão sustância.
Como a nitidez é tamanha, passo ao abstrato do concreto. Aí, a realidade configura-se informe, bizarra, estranha, obscura. Chegando a esse grau de cegueira, o incomunicável barra o caminho.
Daí, começo a volta.
E passo a estabelecer paralelos, faço comparações, traço similitudes, teço metáforas. A colcha de imagens é produto de conexões, rede fabricada, amálgama que reconfigura o que carece de sentido. A semântica tateia significados ao processo desnorteador de ir fundo pra esmiuçar a filigrana. E isso me faz perder o pé do chão, a distorcer a realidade. Por ultrapassar o limite no aprofundamento, salta o hiper, o super, o surreal, o espantoso da realidade.
O buraco é mais em baixo?
Não é pra menos que fico nervoso, angustiado, tenso, bem confuso, estranhando a mim mesmo ao querer dar nome ao que não tem nome e talvez nem venha a ter um. Exagero, perco-me neste método de racionalizar, ponderar, entender. E torno complexo o simples na tentativa mais vã de simplificar o complexo, e tenho mais raiva de mim, e mais me enfureço.
Em outras palavras, parece que saltei de paraquedas. Pra minha angústia, o paraquedas não abre. Pra total desespero, o paraquedas não quer abrir. E quão patético me pinta esse querer agarrar-se ao inútil. Caindo... O chão que sobe...
E o copo? Ô infeliz, e o copo!
Sem condições de diferenciar dois segundos ou eternidade, volto de Vulcano, mas a guria permanece de pé.
Contudo, ajeito os óculos, olho bem nos olhos da pessoa, acomodo a voz com um pigarro e, ciente de que meio cheio e meio vazio o copo está inteiro, mando ver: qual é a pergunta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de setembro de 2019.

domingo, 22 de setembro de 2019

Acorde desafinado


Acorde desafinado

Quinta passada, na biblioteca Porto do Saber, foi realizada mais uma edição, a sétima, do Concurso de Poesia Falada Leni Morato.
Fui pra lá atento a todo canto, já que há ruas do Boqueirão que estão passando por obras da Sabesp. Se as sereias do progresso orquestram-se em andante com brio, toquei-me adágio pro caos da poesia.
A caminho, veio um duo singular, de homem pedalando com um meninão ofegante a acompanhá-lo. Aparentemente, e uso o advérbio pra não especular sobre a impressão, o rapaz precisa trabalhar a musculatura.
Fui ter com a arte de corpo inteiro dos concorrentes. Aplaudi com gosto e bati palma por respeito. É da vida cada qual gostar mais disso do que daquilo. Mas a intensidade e a duração não soaram como manifestação de voto, porque não me postei na banca dos jurados.
Fui, vi e voltei.
Às costas, ouvi uma pisada fora do compasso enquanto uma criança falava sem parar. Passaram por mim, ia o homem ao lado de uma meninazinha que pedalava com gosto, vestida numa roupa, nem sei se digo uniforme, de quem pratica arte marcial. Arte ou luta?
Como um fio que se enrola em outro... Seu Rodrigues, fazer questão de dizer oito da noite ou vinte horas?
Arte ou luta. Faço questão, sim. E faço porque tenho meus motivos para levantar a lebre, que o coelho virou Wally no meio da selva de nossos dias. É que dá pra descobrir onde o danado cisma de querer ficar escondido bem na nossa cara.
Digo, na selvageria oceânica de tanta notícia, num tsunami mascarado de maré, a onda vai nos levando pelo óbvio que aparece pela frente. Só que a frente é nossa e nem percebemos que, em nosso afogamento, vamos debatendo se a lama é mais ou menos tóxica. Ela devora a civilização, digere a urbanidade das nossas tradições e nos arrota uma modernidade que nos liquida.
Sem mal-estar? Escrevo, logo leio.
E leio no Estadão de sexta-feira que a Andrade Gutierrez “conquista 20 obras e volta a empregar”.
Que notícia alvissareira. Fico feliz de seguir o bicho aonde quer que me leve. Cresce R$ 8,2 bilhões a carteira de projetos; de 96% do setor público para 70% de obras privadas; o fluxo operacional do caixa positivo é resultado do mix de obras; e o vento a favor, por conta do cenário macroeconômico e o crescimento dos investimentos em infraestrutura, indica que o futuro é igual a R$ 19 bilhões.
Tudo bem um texto sem Greta Thunberg, Jamie Margolin e Odenilze Ramos? Mas não é matéria de Economia?
Nada disso. O mundo mudou. Direitos e deveres agora são propostos, tuítados, retuítados, debatidos e reclamados no mundo todo. Sendo a Terra uma só, o clima é outro, bicho.
Que fim levou o meu cavaquinho?
Parágrafo a parágrafo, fui lendo de novo. Cadê o número de vagas oferecidas? Cadê o número de mulheres e de homens que foram contratados?
Todavia, e não digo isso pelo tombo que levei, quem não tem lebre enfia o gato na tuba.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de setembro de 2019.