Olho de boi
Ê quinta-feira que não acaba.
Há um homem naquele bar.
Sentado sozinho, na penumbra. De preto, do chapéu às botas. Atolado na lama da
peçonha, pouco se mexe. De tão imóvel, passa por figura de selo antigo. Uns
olhos azuis de procedência vetusta, de Muthill ou Perth. Por certo, em nada
ajudaria ouvi-lo, com algum sotaque fugidio, na rispidez do ar sobrevindo feito
navalha pelas cordas vocais, ou algo assim. O que explicaria os trapos da voz,
se falasse.
Só agradece por meneio.
A cada vez que a mesa é limpa, o cinzeiro é limpo; agradece. O gesto medido, de
quem cultiva a eternidade. Disso não passa.
Por natural, pousa a neurastenia
num copo. Assegurando-se de que aquilo não lhe escape, por nada. É certo que sugere
um rio correndo as águas pra fonte, fosse recordação. Como se o objeto não materializasse
o tão somente ali, indo à distância de acontecimentos pra essa vinda, no copo.
Coleciona cacos de suas
passagens. Esta joia, por indústria, é artefato sem reprodução. Há esmero, há técnica
de artesania. De argila ferruginosa, entre vermelho e cobre, a despender sua
luz. Especiaria que conduz os olhares.
Não gosta que ponham
reparo no dedo excedente que ainda resta na sinistra. Haja olhos no fervor além
das mãos no copo.
Atrás do balcão, duas
funcionárias. A serviço do qualquer, que tem por pinta a de se achar o tal.
Fala pouco, anda pouco, dá o troco porque precisa, e porque deve confirmar-se
no posto de dono do negócio.
O patrão nem liga pra TV
que despeja o desgosto do mundo
malformado. O desespero em filas, os desalentos em números, o petrificado
de vidas em carneiro de toda monta. Mas pra girar o brilho da cor, conta com a flor
das mercadorias.
Suporta-se, mordaz. Por que se inventam palavras que furam como
punhal? Excluindo-se do buchicho, liberta-se do segredo, que essa gente ainda
pica com sua mula a Calçada do Lorena, já a serra chamada Do Mar. Então, falamos.
De vida impronunciada, não
dormindo nas dores do mundo, o alienado fica nisso, a pôr o olhar na visão do pavio
que sustém, e à mão. Como se pudesse estar apagado, com os dedos enclavinhados.
Acaso prorrompessem com arenga, pela máscara entrevada das rugas, não se
permitiria em uníssono de Salve Rainha nenhum. A ele pouco importa o Halley
indo ou voltando. Amanhã terá lugar o proibido hoje? Sua malícia tem o lume
doutra ressaca, a de quem experimenta do veneno, o que o fortalece. O ódio dos
ressentidos não lustra suas pegadas, de quem entra e come onde quer.
Há um labirinto que
conhece o nosso homem, aquele que se levanta quando o sol se põe. Há rumo fora
do bar, que o norte de si é o fumo dentro. Há dor a personificá-lo. Há solidão que
não acorda galo algum.
Nascer
de novo? ─ o raio
despenca pelos abismos.
Água de mina, a brotar, e
sobre a qual se anda e anda e pisa.
Seguiria anônimo se
restrito a Velho. Que o qualifiquem Márgara.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de outubro de
2019.