Ciranda
da boa
Sete de setembro, sábado, feriado para
quem pode. Não posso, que já estou pensando o que vem por aí. Tenho que
escrever a crônica para próxima terça. Dia 10, mais um dia de pagamento, para
quem ainda tem trabalho no Brasil de 2019. E tantos estão desempregados, mais uma
multidão de homens e mulheres à margem do mercado, e outro continente de gentes
desenxavidas. E alguma consciência tenho a me auxiliar nisso de ir jogando os meus
malabares, que há distintas mãos que não os deixam cair.
Mãos afoitas para saber o fim da
história que nem tem fim nem vem com o que resuma o que vem contando a si mesma
e à história neste retrato de bicho de quadrantes até circulares, que têm lá
suas razões ao me refazer geométrico.
Mãos de caras e bocas, que vem do
fundo do rio um pneu de bicicleta, sem a menina que usava tranças num vestido
de chita para a missa de Páscoa naquele domingo de abril, mas a draga não ficou
sabendo do paradeiro dessa criança que está crescida, no uniforme de mãe
austera e rigorosa no fogão, que a sua família tem fome marcada, agendada de
segunda a sábado, que o domingo segue vestido de Páscoa, mesmo com o chocolate
dos coelhinhos apedrejado por postagens de uns marmanjões de calças curtas.
Mãos que andam cabisbaixas, muito abatidas,
por causa das cusparadas a torto e a direito que surgem do nada, entretanto não
existem monstros cujas glândulas produzam sem parar a saliva com que ferem,
magoam, machucam, violentam, estupram. Não, isso de estuprar não fica restrito
a palavras; a minha revolta não está autorizada a ir puxando a palavra da
palavra, sem o compromisso da escrita; que me perdoem quem sofreu tal violência
extrema.
Mãos que me tornam uma fantasia para
quem não levanta o véu de minhas monstruosidades, que há vezes que entro por
uma porta que se fecha atrás de mim, some-se na parede dos meus desvarios,
fecha-me com o touro que não fala mas come a gente que fica de olho na parede
que vem para cima, na sua passada de parede terrível, de fera indomada pelas
palavras que vou digitando, querendo que haja logo uma saída, só que essa
curiosidade, meio de poeta e meio de vilão que bebe cangibrina, é a minha
curiosidade que me completa, dando a reserva que não me deixa morrer na praia, com
a língua pregada, que a lua bela brilha no sempre de sua beleza.
Mas a mão que luta para embelezar o
berço é a mesma que tira o papel da máquina que se faz de máquina só para que
outra mão beije outra, na alegria do reconhecimento da alegria até então
desconhecida.
E juntas, de mãos dadas. Todas estas
mãos e muitas outras que estão vindo por saber agora que estão convidadas; todas,
que temos mãos ainda que nos falte manifestadas em carne e osso; todas que nos
fazemos à mão; vamos todas tornar bom este dia 10 para quem tem pão e para quem
não tem, porque fome muda o tempo todo, e não somente de data e endereço.
Então?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de setembro de
2019.
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