segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Ciranda da boa


Ciranda da boa

Sete de setembro, sábado, feriado para quem pode. Não posso, que já estou pensando o que vem por aí. Tenho que escrever a crônica para próxima terça. Dia 10, mais um dia de pagamento, para quem ainda tem trabalho no Brasil de 2019. E tantos estão desempregados, mais uma multidão de homens e mulheres à margem do mercado, e outro continente de gentes desenxavidas. E alguma consciência tenho a me auxiliar nisso de ir jogando os meus malabares, que há distintas mãos que não os deixam cair.
Mãos afoitas para saber o fim da história que nem tem fim nem vem com o que resuma o que vem contando a si mesma e à história neste retrato de bicho de quadrantes até circulares, que têm lá suas razões ao me refazer geométrico.
Mãos de caras e bocas, que vem do fundo do rio um pneu de bicicleta, sem a menina que usava tranças num vestido de chita para a missa de Páscoa naquele domingo de abril, mas a draga não ficou sabendo do paradeiro dessa criança que está crescida, no uniforme de mãe austera e rigorosa no fogão, que a sua família tem fome marcada, agendada de segunda a sábado, que o domingo segue vestido de Páscoa, mesmo com o chocolate dos coelhinhos apedrejado por postagens de uns marmanjões de calças curtas.
Mãos que andam cabisbaixas, muito abatidas, por causa das cusparadas a torto e a direito que surgem do nada, entretanto não existem monstros cujas glândulas produzam sem parar a saliva com que ferem, magoam, machucam, violentam, estupram. Não, isso de estuprar não fica restrito a palavras; a minha revolta não está autorizada a ir puxando a palavra da palavra, sem o compromisso da escrita; que me perdoem quem sofreu tal violência extrema.
Mãos que me tornam uma fantasia para quem não levanta o véu de minhas monstruosidades, que há vezes que entro por uma porta que se fecha atrás de mim, some-se na parede dos meus desvarios, fecha-me com o touro que não fala mas come a gente que fica de olho na parede que vem para cima, na sua passada de parede terrível, de fera indomada pelas palavras que vou digitando, querendo que haja logo uma saída, só que essa curiosidade, meio de poeta e meio de vilão que bebe cangibrina, é a minha curiosidade que me completa, dando a reserva que não me deixa morrer na praia, com a língua pregada, que a lua bela brilha no sempre de sua beleza.
Mas a mão que luta para embelezar o berço é a mesma que tira o papel da máquina que se faz de máquina só para que outra mão beije outra, na alegria do reconhecimento da alegria até então desconhecida.
E juntas, de mãos dadas. Todas estas mãos e muitas outras que estão vindo por saber agora que estão convidadas; todas, que temos mãos ainda que nos falte manifestadas em carne e osso; todas que nos fazemos à mão; vamos todas tornar bom este dia 10 para quem tem pão e para quem não tem, porque fome muda o tempo todo, e não somente de data e endereço.
Então?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de setembro de 2019.

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