quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Chega de poesia


Chega de poesia

Tenho uma visão parcial do que anda lendo o homem sentado numa cadeira pra lá da minha, mas posso fazer ideia do ronronado que traz no peito, de quem tem por brasão uns brônquios fumês. E posso porque, sem que precise sequer daquela olhadela marota pro celular, diz ele que a esperança acolhe-se à sombra das colunas do tempo.
Emburro por tê-lo ouvido falar naquele tom de voz de quem sabe a saudade que sente, e por tê-la, essa saudade que vem de mansinho, noite cujas estrelas não espumam nem rugem, feito lobo embrenhado no mato a cento e onze metros do Caraça, sentindo pulsante o coração de pedra.
Sim, o homem sentado numa cadeira pra cá da minha faz que sim com a cabeça, sem relinchar suas concordâncias, sem nem mesmo escoicear suas discordâncias, embora pigarreie na hora do sopro rompante numa de suas válvulas, a sem freio.
Penso, e só fico no pensamento, que dentro do tempo há mais tempo. E isso me põe horrorizado, levo-me a pensar que os meus olhos são duas garrafas de vento. Daí, sinto também que a saudade pode ficar risonha quando bordada com o mais singelo, tipo BEIJE O COZINHEIRO, LIMPE OS PÉS ou AQUI MORA A ALEGRIA.
Todavia, garanto a troca do neon do quarto pelo led da sala.
E fique bem claro a quem ordenha as trevas às vacas do curral que bruma alguma se dissipa com o horror da lama, ó absurdo do veio marcado, pois os metais nascem da paciência surda da terra.
Desentranha-se ali, naquele recinto de cidadãos indecisos quanto ao destino da verba gasta com inaugurações, uma vez que a grana está curta, bloqueada na fonte, retida entre a boca que masca argila e o estômago de úlcera tão decente, é ali que vem ao mundo a lágrima que se perde do anonimato.
Mas o dever me chama.
O dever lembra o relapso que hoje é quarta, dia de pastel de carne seca na feira do bairro. Mas a hora é avançada, já estão recolhidos os feirantes. E onde vive o dever, há direito. O direito de navegar com bússola enquanto a tormenta segue inoculando a sua peçonha em 163 km do Rio Tietê.
E o dever de ter direito a ficar longe da fumaça dentro do bar?
O bar que está às moscas, comigo sentado entre o homem atarefado com a nostalgia, pra cá, e o homem acossado por umas besteiras, pra lá. Sendo uma pocilga das mais modernas, não aceita cheque nem cartão; o babado, só em espécie.
Mudo o disco.
E onde crescem as petúnias, grassa a samambaia pra lá de metro. Calculo que o vento sussurre que a vida está prenha de rochedos. Ignoro a mensagem. Arrisco que o vento aposte que a vida será no fim desta jornada... nada.
Então, a dona atrás do balcão quer que o mundo volte pro chão, a pedra tope ser pedra, a terra não rode a baiana à toa e se diga, em verdade e com todas as letras, o que precisa ser dito, mesmo que não desperte em ninguém nenhum prazer.
Compreendo, no azedume da saliva mais ácida, como em turvas águas de enchente, nem toda conversa é fiada.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de setembro de 2019.

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