O
anfitrião do futuro
A
temperatura amena de um domingo ensolarado de fim do inverno fora-me decisiva
para ir a um churrasco no topo de um prédio; ganhei, de quebra, o direito à
vista panorâmica de boa parte da cidade.
O salão
de festas era espaçoso; duas pias formavam um L; disponíveis geladeira, freezer, fogão de seis bocas, micro-ondas e dois banheiros, masculino e
feminino.
Não me
cabe depreciar os equipamentos daquele edifício de dezesseis andares, com um
apartamento por andar. Aliás, para entrar no condomínio, é preciso o registro
eletrônico das íris e dar o aceite digital aos conformes da segurança interna.
Por isso, agora, não me convém comentar o mármore e as pinturas do hall.
Na
festa, encontrei quem normalmente não vejo no cotidiano, pois circulo entre
poetas e pessoas de teatro. Eram autônomos ─ proprietários de loja e
profissionais liberais. Havia dentistas em profusão, amigos da colega
aniversariante, e pululavam advogados, amigos do cônjuge da dentista
aniversariante. A maioria, porém, era de familiares de ambos, marido e esposa.
Tudo
bacana. Um ambiente agradável.
As
comidas e as bebidas foram servidas por uma equipe de um bufê contratado.
Discretos, os profissionais flutuavam sem ostentar contrariedade. Fiquei tocado
pelo apuro do bem feito a olhos vistos.
Sem
sobressaltos, o papo rolava educado. Nenhuma voz clamava por atenção.
As
crianças, que normalmente correm, pulam e gritam por razões que a própria razão
reconhece, formavam um círculo e, no centro da roda, um menino mostrava, e
demonstrava, num celular imenso, quase do tamanho de um tablete, os recursos de
algum jogo popular entre todas.
O
grupinho que fumava, a metros de distância da maioria, não nos criticava por
não fumarmos e vice-versa, nós a eles, por fumantes. O que havia de comum? Pude
ouvir o cardápio usual oferecido pela mídia destes dias de queimadas amazônicas,
reformas tributárias, imprevidências do sistema, patacoadas de políticos, ou
seja, falava-se o de sempre.
O
advogado anfitrião fez questão, incentivado pela dentista anfitriã, de
ressaltar o prazer daquela família de receber a brancos e negros sem distinção
alguma.
Fiquei
na minha; sem mordiscar uma pera e sem beber um copo de suco de manga.
Na
bancada, frutas in natura e jarras de suco natural, sem açúcar e sem gelo. Além
de baldes com latas de cerveja, com e sem álcool. Para os apreciadores, taças à
espera do vinho tinto ou branco.
Lá
pelas tantas, inebriado pelo espírito de uns dedos de um escocês, seguramente,
legítimo, deixei-os a confraternizar.
Leve, sopro-me
da minha nuvenzinha de desesperança para esta crônica, uma vez que, e me ocorre
sorrir, a imagem da menina segue dizendo, com olhinhos transbordantes de vida,
que precisa ficar concentrada porque é difícil jogar xadrez contra a máquina.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 15 de setembro de
2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário