domingo, 15 de setembro de 2019

O anfitrião do futuro


O anfitrião do futuro

A temperatura amena de um domingo ensolarado de fim do inverno fora-me decisiva para ir a um churrasco no topo de um prédio; ganhei, de quebra, o direito à vista panorâmica de boa parte da cidade.
O salão de festas era espaçoso; duas pias formavam um L; disponíveis geladeira, freezer, fogão de seis bocas, micro-ondas e dois banheiros, masculino e feminino.
Não me cabe depreciar os equipamentos daquele edifício de dezesseis andares, com um apartamento por andar. Aliás, para entrar no condomínio, é preciso o registro eletrônico das íris e dar o aceite digital aos conformes da segurança interna. Por isso, agora, não me convém comentar o mármore e as pinturas do hall.
Na festa, encontrei quem normalmente não vejo no cotidiano, pois circulo entre poetas e pessoas de teatro. Eram autônomos ─ proprietários de loja e profissionais liberais. Havia dentistas em profusão, amigos da colega aniversariante, e pululavam advogados, amigos do cônjuge da dentista aniversariante. A maioria, porém, era de familiares de ambos, marido e esposa.
Tudo bacana. Um ambiente agradável.
As comidas e as bebidas foram servidas por uma equipe de um bufê contratado. Discretos, os profissionais flutuavam sem ostentar contrariedade. Fiquei tocado pelo apuro do bem feito a olhos vistos.
Sem sobressaltos, o papo rolava educado. Nenhuma voz clamava por atenção.
As crianças, que normalmente correm, pulam e gritam por razões que a própria razão reconhece, formavam um círculo e, no centro da roda, um menino mostrava, e demonstrava, num celular imenso, quase do tamanho de um tablete, os recursos de algum jogo popular entre todas.
O grupinho que fumava, a metros de distância da maioria, não nos criticava por não fumarmos e vice-versa, nós a eles, por fumantes. O que havia de comum? Pude ouvir o cardápio usual oferecido pela mídia destes dias de queimadas amazônicas, reformas tributárias, imprevidências do sistema, patacoadas de políticos, ou seja, falava-se o de sempre.
O advogado anfitrião fez questão, incentivado pela dentista anfitriã, de ressaltar o prazer daquela família de receber a brancos e negros sem distinção alguma.
Fiquei na minha; sem mordiscar uma pera e sem beber um copo de suco de manga.
Na bancada, frutas in natura e jarras de suco natural, sem açúcar e sem gelo. Além de baldes com latas de cerveja, com e sem álcool. Para os apreciadores, taças à espera do vinho tinto ou branco.
Lá pelas tantas, inebriado pelo espírito de uns dedos de um escocês, seguramente, legítimo, deixei-os a confraternizar.
Leve, sopro-me da minha nuvenzinha de desesperança para esta crônica, uma vez que, e me ocorre sorrir, a imagem da menina segue dizendo, com olhinhos transbordantes de vida, que precisa ficar concentrada porque é difícil jogar xadrez contra a máquina.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de setembro de 2019.

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