quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Chega de poesia


Chega de poesia

Tenho uma visão parcial do que anda lendo o homem sentado numa cadeira pra lá da minha, mas posso fazer ideia do ronronado que traz no peito, de quem tem por brasão uns brônquios fumês. E posso porque, sem que precise sequer daquela olhadela marota pro celular, diz ele que a esperança acolhe-se à sombra das colunas do tempo.
Emburro por tê-lo ouvido falar naquele tom de voz de quem sabe a saudade que sente, e por tê-la, essa saudade que vem de mansinho, noite cujas estrelas não espumam nem rugem, feito lobo embrenhado no mato a cento e onze metros do Caraça, sentindo pulsante o coração de pedra.
Sim, o homem sentado numa cadeira pra cá da minha faz que sim com a cabeça, sem relinchar suas concordâncias, sem nem mesmo escoicear suas discordâncias, embora pigarreie na hora do sopro rompante numa de suas válvulas, a sem freio.
Penso, e só fico no pensamento, que dentro do tempo há mais tempo. E isso me põe horrorizado, levo-me a pensar que os meus olhos são duas garrafas de vento. Daí, sinto também que a saudade pode ficar risonha quando bordada com o mais singelo, tipo BEIJE O COZINHEIRO, LIMPE OS PÉS ou AQUI MORA A ALEGRIA.
Todavia, garanto a troca do neon do quarto pelo led da sala.
E fique bem claro a quem ordenha as trevas às vacas do curral que bruma alguma se dissipa com o horror da lama, ó absurdo do veio marcado, pois os metais nascem da paciência surda da terra.
Desentranha-se ali, naquele recinto de cidadãos indecisos quanto ao destino da verba gasta com inaugurações, uma vez que a grana está curta, bloqueada na fonte, retida entre a boca que masca argila e o estômago de úlcera tão decente, é ali que vem ao mundo a lágrima que se perde do anonimato.
Mas o dever me chama.
O dever lembra o relapso que hoje é quarta, dia de pastel de carne seca na feira do bairro. Mas a hora é avançada, já estão recolhidos os feirantes. E onde vive o dever, há direito. O direito de navegar com bússola enquanto a tormenta segue inoculando a sua peçonha em 163 km do Rio Tietê.
E o dever de ter direito a ficar longe da fumaça dentro do bar?
O bar que está às moscas, comigo sentado entre o homem atarefado com a nostalgia, pra cá, e o homem acossado por umas besteiras, pra lá. Sendo uma pocilga das mais modernas, não aceita cheque nem cartão; o babado, só em espécie.
Mudo o disco.
E onde crescem as petúnias, grassa a samambaia pra lá de metro. Calculo que o vento sussurre que a vida está prenha de rochedos. Ignoro a mensagem. Arrisco que o vento aposte que a vida será no fim desta jornada... nada.
Então, a dona atrás do balcão quer que o mundo volte pro chão, a pedra tope ser pedra, a terra não rode a baiana à toa e se diga, em verdade e com todas as letras, o que precisa ser dito, mesmo que não desperte em ninguém nenhum prazer.
Compreendo, no azedume da saliva mais ácida, como em turvas águas de enchente, nem toda conversa é fiada.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de setembro de 2019.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Um domingo e tanto


Um domingo e tanto

Já que não sou roupa para ficar secando no varal e sequer possuo um peixinho que me prenda, então, vou levar-me para passear. Maravilha.
E para falar a verdade, com a franquia da sinceridade, havia até decidido tirar o domingo para limpar o apartamento, mas qual! Um vento me arrepanhou, melhor assim, que nem tenho joelheiras para me prostrar em lamentações sentidas pelo dia que seguiria lindo. E deixar evaporar a beleza? Que nada.
Pela manhã, antes mesmo de sair de casa, veio pelo zap o cafunezinho, tão necessário a quem tem sede de afetos.
E que dias estamos vivendo, tempos em que um gesto de carinho torna-se ato político ─ para marcar a afetuosidade e pôr explícito o amor ao próximo.
Quero longe de mim as bocas grosseiras, doidas para atirar garfo e faca às mesas vizinhas. Por que se alimentar dessa rispidez com o mundo? Quisera o silêncio regurgitasse o que o mundo tem canibalizado como jejum nocivo, abstemia tóxica.
Passado, a seco, o mal-estar da comida atravessada, sigo de pé na estrada, pela passagem que me cobra a história, para além do ônibus.
Porém o corpo pede o anti-inflamatório das 14h30, que tal corretivo se faz precioso ao azeitar as traquitanas dos ouvidos, ou iria se perder a nitidez da alegria do que virá.
E o que viria, veio.
E foi um domingo e tanto, aos pés da biblioteca Mario Faria, às margens da praia festivamente ocupada, com o azul do céu de Santos tomando parte nos eventos da Semana do Escritor Santista.
E quem abraçou foi abraçado. Quem viu foi visto. Quem disse foi escutado. Pudera tal domingo ficar, e ficou.
Este domingo é uma data que entrou pelo corpo adentro para vigorar no sangue, vicejar nos neurônios e florir como memória. E este domingo fica pela troca com os livros, pela doação à poesia, pela prosa do acaso, pela generosidade de quem sabe ao mar o que ao mar é dado em sorriso e abismo, na serenidade e na vertigem, na bonança e na tempestade. E está o domingo porque a arte se faz trova, canção, moinho; daí que não barre o vento, não cale ninguém, embora morda o rabo ─ o próprio e o alheio. Que o bom da vida tira da pulga as coleiras.
Domingo, este, que se fez único e irrepetível. Um quinze de setembro a nenhum outro comparável. As pessoas é que assim o tornaram, assim o construíram, assim o fizeram.
Porque movidas a esperança, comovidas à esperança.
Se há esperança, e porque há de haver esperança, não me convém esperar que venha. Então, a ela me dirijo. Com a esperança de descortiná-la com a alvorada que canta; pela esperança de encontrá-la pela tarde que baila; para a esperança de revelá-la para a noite que vibra. E aí, descubro que me dirige porque ela me faz ir, estou indo e vou.
É o abraçado que a abraça, é a beijada que o beija.
Este domingo todo a ilumina; a esperança o ilumina todo.
E o verso o que diz?
Diz que só se vê a escuridão quando há luz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de setembro de 2019.

domingo, 15 de setembro de 2019

O anfitrião do futuro


O anfitrião do futuro

A temperatura amena de um domingo ensolarado de fim do inverno fora-me decisiva para ir a um churrasco no topo de um prédio; ganhei, de quebra, o direito à vista panorâmica de boa parte da cidade.
O salão de festas era espaçoso; duas pias formavam um L; disponíveis geladeira, freezer, fogão de seis bocas, micro-ondas e dois banheiros, masculino e feminino.
Não me cabe depreciar os equipamentos daquele edifício de dezesseis andares, com um apartamento por andar. Aliás, para entrar no condomínio, é preciso o registro eletrônico das íris e dar o aceite digital aos conformes da segurança interna. Por isso, agora, não me convém comentar o mármore e as pinturas do hall.
Na festa, encontrei quem normalmente não vejo no cotidiano, pois circulo entre poetas e pessoas de teatro. Eram autônomos ─ proprietários de loja e profissionais liberais. Havia dentistas em profusão, amigos da colega aniversariante, e pululavam advogados, amigos do cônjuge da dentista aniversariante. A maioria, porém, era de familiares de ambos, marido e esposa.
Tudo bacana. Um ambiente agradável.
As comidas e as bebidas foram servidas por uma equipe de um bufê contratado. Discretos, os profissionais flutuavam sem ostentar contrariedade. Fiquei tocado pelo apuro do bem feito a olhos vistos.
Sem sobressaltos, o papo rolava educado. Nenhuma voz clamava por atenção.
As crianças, que normalmente correm, pulam e gritam por razões que a própria razão reconhece, formavam um círculo e, no centro da roda, um menino mostrava, e demonstrava, num celular imenso, quase do tamanho de um tablete, os recursos de algum jogo popular entre todas.
O grupinho que fumava, a metros de distância da maioria, não nos criticava por não fumarmos e vice-versa, nós a eles, por fumantes. O que havia de comum? Pude ouvir o cardápio usual oferecido pela mídia destes dias de queimadas amazônicas, reformas tributárias, imprevidências do sistema, patacoadas de políticos, ou seja, falava-se o de sempre.
O advogado anfitrião fez questão, incentivado pela dentista anfitriã, de ressaltar o prazer daquela família de receber a brancos e negros sem distinção alguma.
Fiquei na minha; sem mordiscar uma pera e sem beber um copo de suco de manga.
Na bancada, frutas in natura e jarras de suco natural, sem açúcar e sem gelo. Além de baldes com latas de cerveja, com e sem álcool. Para os apreciadores, taças à espera do vinho tinto ou branco.
Lá pelas tantas, inebriado pelo espírito de uns dedos de um escocês, seguramente, legítimo, deixei-os a confraternizar.
Leve, sopro-me da minha nuvenzinha de desesperança para esta crônica, uma vez que, e me ocorre sorrir, a imagem da menina segue dizendo, com olhinhos transbordantes de vida, que precisa ficar concentrada porque é difícil jogar xadrez contra a máquina.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de setembro de 2019.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Roda-viva


Roda-viva

Mudar, mudamos. Contudo, não vamos direto, e retos, à felicidade que imaginamos ali na frente. Mesmo porque nem sabemos que cara tem o bicho que está a postos tão logo dobramos a esquina. E a coisa fica lá, só de olho em quem vem distraído, ocupado em rever a piada pela milésima vez.
Isso dá o que pensar.
Com que direito a pessoa vê uma postagem pela milésima vez? Ora, ela faz o que quer e ninguém tem nada com isso.
Hum. Concordo que ela possa fazer o que bem quiser, mas há problemas em generalizar assim. Uma vez que somente aja desde que o que faça não prejudique, por atos e palavras, outras pessoas, levando-se em conta tal restrição, tudo certo, divirta-se e toque a vida em frente.
Para mais bem reforçar o meu ponto, dou um exemplo.
Quase agora, indo à farmácia, passo por um sujeito que tem vivido na rua. Eis que o homem está cantando desafinado, todo feliz, mas ontem, mais ou menos no mesmo horário de hoje, com um papelão amassado que nem um porrete, ele bradava palavrões enquanto batia num lambe-lambe com uma imagem bem conhecida.
O que quero dizer com isso?
Digo que mudamos e nem percebemos, pois a vida vai nos levando por aí e vamos indo sem dar conta que não é o mundo que faz escolhas por nós. Nós é que escolhemos; entramos ou recuamos quando as portas se abrem.
Pela milionésima vez, a pessoa está rindo do meme? Não é a mesma coisa a cada vez que ela vê.
Considere-se no exemplo, leitora e leitor.
Você está no ônibus, voltando para casa depois de ter trabalhado mais um dia naquele ambiente de intrigas, tendo de conviver com uma gente que espalha mentiras pelas costas porque ambiciona o seu lugar na empresa, daí que a pequena cena que se repete permite-lhe rir, mesmo achando aquilo uma bobagem.
Porém, siga comigo pela ideia, digamos que acabe de abrir os olhos e, depois de espreguiçar e bocejar gostoso, dá de cara com a mesmíssima piada no celular, sabendo que é dia de ir desfrutar de um churrasco com amigas queridas e amigos queridos, você não acha um máximo a besteirinha mas ri assim mesmo.
Entre o alívio da primeira situação e a curtição da segunda, que diferença gritante. Você é a mesma pessoa, não deixou de ser quem é, só que em condições diferentes. No entanto, não foram apenas as circunstâncias que mudaram, você também está em outro astral, com a mente e os sentidos em sintonia diversa em cada uma das situações do exemplo.
Ah! Quase passa batido...
O tal gif que pode fazer chorar de tanto rir é uma montagem com um desses governantes queimando uma revista.
De fato, os autoritários dão razão a chacotas, zoações e quetais. Todavia, que história foi essa de deixá-los entrar na sala? Pelo jeito, vamos ter de trocar a plaquinha na porta, de SALÃO DE FESTAS para QUARTO DO PÂNICO.
E no jogo da vida, você prefere ficar no lugar do porteiro ou do pedreiro que levanta o vão da porta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de setembro de 2019.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Ciranda da boa


Ciranda da boa

Sete de setembro, sábado, feriado para quem pode. Não posso, que já estou pensando o que vem por aí. Tenho que escrever a crônica para próxima terça. Dia 10, mais um dia de pagamento, para quem ainda tem trabalho no Brasil de 2019. E tantos estão desempregados, mais uma multidão de homens e mulheres à margem do mercado, e outro continente de gentes desenxavidas. E alguma consciência tenho a me auxiliar nisso de ir jogando os meus malabares, que há distintas mãos que não os deixam cair.
Mãos afoitas para saber o fim da história que nem tem fim nem vem com o que resuma o que vem contando a si mesma e à história neste retrato de bicho de quadrantes até circulares, que têm lá suas razões ao me refazer geométrico.
Mãos de caras e bocas, que vem do fundo do rio um pneu de bicicleta, sem a menina que usava tranças num vestido de chita para a missa de Páscoa naquele domingo de abril, mas a draga não ficou sabendo do paradeiro dessa criança que está crescida, no uniforme de mãe austera e rigorosa no fogão, que a sua família tem fome marcada, agendada de segunda a sábado, que o domingo segue vestido de Páscoa, mesmo com o chocolate dos coelhinhos apedrejado por postagens de uns marmanjões de calças curtas.
Mãos que andam cabisbaixas, muito abatidas, por causa das cusparadas a torto e a direito que surgem do nada, entretanto não existem monstros cujas glândulas produzam sem parar a saliva com que ferem, magoam, machucam, violentam, estupram. Não, isso de estuprar não fica restrito a palavras; a minha revolta não está autorizada a ir puxando a palavra da palavra, sem o compromisso da escrita; que me perdoem quem sofreu tal violência extrema.
Mãos que me tornam uma fantasia para quem não levanta o véu de minhas monstruosidades, que há vezes que entro por uma porta que se fecha atrás de mim, some-se na parede dos meus desvarios, fecha-me com o touro que não fala mas come a gente que fica de olho na parede que vem para cima, na sua passada de parede terrível, de fera indomada pelas palavras que vou digitando, querendo que haja logo uma saída, só que essa curiosidade, meio de poeta e meio de vilão que bebe cangibrina, é a minha curiosidade que me completa, dando a reserva que não me deixa morrer na praia, com a língua pregada, que a lua bela brilha no sempre de sua beleza.
Mas a mão que luta para embelezar o berço é a mesma que tira o papel da máquina que se faz de máquina só para que outra mão beije outra, na alegria do reconhecimento da alegria até então desconhecida.
E juntas, de mãos dadas. Todas estas mãos e muitas outras que estão vindo por saber agora que estão convidadas; todas, que temos mãos ainda que nos falte manifestadas em carne e osso; todas que nos fazemos à mão; vamos todas tornar bom este dia 10 para quem tem pão e para quem não tem, porque fome muda o tempo todo, e não somente de data e endereço.
Então?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de setembro de 2019.

sábado, 7 de setembro de 2019

Era uma vez


Era uma vez

Na lida injusta de tão desigual, nada como esticar as pernas no sofá depois de mais um dia exasperante. Mas a vida dá por cansaço o que o tédio quer me testar, taquara nas viradas do noroeste de tantas veredas.
Que ruído é esse que me tira da formiguinha do Quintana?
Transtornado pelo barulho, talvez esteja errado ao pedir que tenha modos a uma entidade que tem vida própria, e me refiro àquela que descubro num muito à vontade. Como sempre, aliás.
Exibida, faz a clássica disparada pela sala; bisbilhota o jornal; molha o bico com o suco; de vez em quando, chafurda na caipirinha; e como a danada gosta de açúcar.
O bichinho que divide o apartamento comigo ocupa os vãos, úmidos e empoeirados, fazendo questão de demonstrar, por atos e pensamentos, que prefere o barraco como está. E nem vou cair na besteira, ó reforço pleonástico, de admitir que o estado atual do apê é lamentável. Que displicência a minha; e antes tarde do que nunca, admiti-lo.
De modo geral, tenho papo com todo tipo de gente; mas com esta em particular, pouco. Porque anda abusada, disposta a conhecer a verdade; o vero de uma chinelada bem dada.
Além disso, ela não me ouve. Ainda mais que falo baixo se me vejo na posição de ter de delatar-me. Daí que a folgada não vai mesmo me escutar; e do alto da soberba, ignoram-me os ouvidos vidrados no fogo da floresta, ou na história do beijo.
Na luta por manter os pés no chão, e só me controlo por medicamentos, sinto que a parte viva que me come acaba por sufocar o que vivo com excesso de vida. Mata-me a vitalidade a dieta desmedida de ideias sobre ideias, que o cérebro me ramifica em labirinto. É meu, o barato.
Meu embate é contínuo para preservar o benéfico do sol na digestão dos eventos do dia a dia. Claro, nem sempre mastigo conforme a recomendações médicas; engulo mal porque rumino que nem porco. Daí que o Etna entre em erupção tão logo o miojo ponha-se a falar com os neurônios do estômago. É surpreendente saber que há uma linha aberta entre cabeça e barriga. Por isso, enjoo e ânsia me põem a correr para longe da TV, e a descarga afoga no oceano, meu vizinho, o que não consigo nem mais tolerar. Valei-me, Santa Clara!
Feito uma escultura de lama tóxica, ponho-me possesso, de indignação. Silencio os pés, travo meus demônios no que não digo por mágoas e ressentimentos. Pródigo em entender que não me acerto comigo nem depois de muito pensar a respeito, intuo que preciso ter os sentidos prontos para rastrear onde é que a dona foi se meter.
Quede que sossego até dar com a bicha tomando siso do mundo justo com O mal estar na civilização? Poderia o óbvio do Kafka, mas ela não. Nem o Velho Sig para explicar o que vai por aquela cabecinha.
Como não pretendo laconismos, me acuso ao especular que sei de mim pelo outro que me olha. Ora, ora, leitora perspicaz e leitor arguto, câmera na mão e foco... Na mosca!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de setembro de 2019.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O certo do torto


O certo do torto

Com os compromissos inadiáveis, em outras palavras, tendo os rabichos das contas a pagar balançando espasmodicamente o sinal de alerta, lá estava eu indo ao banco.
Em dívida comigo, num misto de exaltação burlesca de vira-lata atormentado por pulgas vampirescas e de figura entrevada pelo tormento, no mais autêntico dos cérberos, lá ia eu.
Indo à agência para desatar o nó na conta que me enforca a cada passo, tão negativa havia dias. Numa crueldade comigo, perdidas as noites em sono entrecortado pelo pesadelo de não dormir, eis-me no figurino dos sem pires nem chapéu, indo.
Dez horas a porta será aberta, estarei na fila. Sem dúvida, guardarei lugar aí. Perfilhando-me cordato na resignação das pendências, que chegue rápida a resolução das angústias. É para já, que irei.
Epa! Perdeu a pressa de desembaraçar-se da forca que lhe tira a álacre desenvoltura de viver somente para o momento?
O bicho da goiaba que fala em mim sabe que nem vi pintada no teto de nuvens a linha amarela, para os perdulários. Resta-me o sonho do apaziguamento financeiro, a quimera de algum perdão dos juros à medida do respirável. Por isso, minha cara consciência, tome o siso de não gritar pelos números da senha, dessa mega humilhante senha que ainda nem peguei.
A caminho da sorte que me cabe, capricho nisso de ir-me ensurdecido pelo desespero que me aflige. Só que, para não endoidar comigo, abre-se a caixa de venturas que sempre me guarda uma das suas surpresas.
Protegido por um muro, alguém fala alto ao telefone.
Por ter lúcidos os ouvidos, como se pudesse tirar um naco da carne petrificada para a lapidação do desgraçado, fui sentar na praia, voltado para o mar. Uma borrasca atlântica ergueu-se em mim contra os gracejos do sujeito que falava que o rico tem hora de almoço, já o pobre pode escolher se almoça ou janta.
Mas, e sem a adversativa a história tomaria outro rumo, o vento do inverno areja a massa cinzenta, logo penso.
Penso que desvios não são atalhos, não cortam o caminho, fazem-no inesperado, levam pelo desconhecido, revelam o inédito sob o cotidiano mais pedestre. No entanto, para deixar vivo o que não pode azedar, mofar e nem empedrar, é preciso a desaprendizagem com o que não se sabe, não se conhece e nem se imagina.
Peraí! Não pirei na baratinha. A dívida continuava lá.
Como tenho o juízo de não dizer um nome para não invocar a substância que a ele se atribui, não direi Lúcifer para não o ter na minha frente, de carequinha lustrosa e óculos de grau, e logo com este tempo de nuvens ameaçadoras. O que vou dizer, então?
Raios!
Foi melhor para mim. Ou raios me fulminariam se, no limite do meu juízo natural, não viesse à ideia isso de ir tomar um ar no banco da praia. Assim, veio-me à intuição o quanto sofre quem gerencia contas nestes dias de piromanias e carnificinas.
Agora, sim, posso ir à agência.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de setembro de 2019.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Canção da primavera


Canção da primavera

Desta vez será diferente, não há de pegar-me desprevenido. Como a senhora que, encantadora repreensão, cobra de mim a regularidade da publicação das crônicas.
Quando vier, e virá porque está por vir, não me pegará mais em descompasso, numa espera sem fim. Que não é em nada infinita, incerta ou imprevisível. Assim, estarei atento. Sentinela do tempo, a saudá-la no certo do momento.
Não malharei a reforma, mesmo com a restrição aos produtos que me faltam, que a lista volta inteira comigo. Só alface e umas bananas, e fora do rol dos itens discriminados.
Rezingo, achando-me discreto. A senhora que passeia o cão, porém, recrimina a boca suja, que não entredisse o calão de modo ininteligível. Deselegante, nem me desculpo. Continuo a arrastar-me ranzinza, e desbocado.
Qual o quê!
Da próxima, olharei para os dois lados ao atravessar uma via pública, que há bicicletas que passam a mil. Vai indo salvar a Amazônia? Então, que siga pela Paris.
Ora, mesmo observado, o cronista observa a vida. Nisto não ponho reparo, e frutifica o assunto escondido em algum recanto do meu cérebro. Semeio e colho.
Por que haveria eu de reclamar do progresso?
Nada tenho a obstar as melhorias que as mudanças possam vir a trazer a esta parte do planeta. Nem mesmo quando as transformações abrem valetas para entubar as águas pluvial e encanada, além do esgoto. O saneamento é básico da nossa civilização, desde que ousamos distribuir torneiras e sanitários a quem tem sede e digere bem o que come, quando come. Vê-se pela mão de obra o quanto elas são fundamentais para o andamento da nossa vida assaz contemporânea, saudemos bicas e bacias.
Não divago, nem o cinismo.
Desta vez será diferente, reafirmo com todas as letras.
Não, o amanhã não tem que ficar para um amanhã que não brota nunca. Será infame o fruto do que se furta às vontades? Famigerada, tenho fome de mordê-la. Maçã, a que não me é negada nem subtraída, apenas está a caminho. Bem sei que vem.
Sei de cor a canção que ainda não aprendi. Cantam-na as pessoas que não a compreendem, atravessam-na. Para maior alegria de quem o instrui, o garoto de pernas curtas canta a lua encoberta. Canta ao eco da mania, o caduco que a entende glória à verdade.
Até por mim, nesta toada, agora sei a travessia para o que posso, devo e preciso, no caminho da sabedoria. Embora longo. Indo por aí é que irei, hei de sair do inverno da noite intragável para aconchegar-me ao sol aprazível do dia novo.
Por aí, quero rir.
Longe de mim a nostalgia da areia, a tristeza da onda na praia e a melancolia das pegadas que me querem apagar.
E por quê? Também quero rir.
Astuto o bastante para rir junto, rio.
Cioso de sua chegada, sem alarde, setembro veio que nem vi. Por isso, primavera, trato de lembrar que as distrações que divertem vão passando. E é para logo a canção que me afina o passo em flor.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de setembro de 2019.

domingo, 1 de setembro de 2019

A prosa do mundo


A prosa do mundo

O acaso me destinou a oportunidade de mudar inteiro o dia de ontem. Explico, ou tentarei. Caso a memória me falhe, e ela tem-me traído como quem assobia uma valsa pensando em outra, pois à falta de elementos, antes que me perca, emendo a quadra, certo de arrematar o soneto sem negar ao ouro a sua chave.
Ignorante da origem das palavras e das frases idiomáticas, ganho, de vez em quando, algum conhecimento sem que me veja obrigado ao esforço. Cai-me no colo, por assim dizer.
Vou em frente, embora haja quem questione a utilidade do lugar comum, da frase feita, colocado no meio do texto que a gente escreve. Nada disso, porém, tira a graça do encontro do pé com o buraco. Da queda do outro, claro, que a nossa motiva impropérios que estavam empoeirados no estoque.
Como, aqui, se trata de encadear os fatos fortuitos que vou lembrando sem atinar para o natural da conexão do bálsamo com as quaresmeiras em flor, passo ao que ponho interesse.
Na passada da ideia, engole-me com voracidade o buraco que o madeirite encobre, mal o piso. Mas, ligeiro feito cão às voltas com o laço da carrocinha, bato das costas a dor da pancada no concreto do passeio. Agradeço a quem me ampara o riso contido, de gente constrangida à solidariedade, apesar do ridículo do baque às três horas. E com o noroeste aceso, eu suava ─ de caminhar sob o sol; e pela cena, de raiva.
Refeito do patético, todavia, retomei a meada. O fio já rompido, pouco importa se inútil, o acaso deu-me outro para puxar. Em comércio com a vida, dou o troco sem pressa.
Me sinto um zero à esquerda?
Avante! Esqueça-se do zero à esquerda. Vamos, esqueça o zero à direita. Fuja da comiseração. Procure ver o que está na cara. O que vê? Ora, se tem um zero para lá e outro para cá, a separá-los? A vírgula. Isso faz toda a diferença.
Entre o falso do pé e o chão da pancada, o buraco.
E foi por acidente que posso agora pensar o que antes nem alentava. Com palavras, dou corpo ao pensamento. Tranço-as. Aperto ou afrouxo, vou ensaiando os sentidos. Faz-se visível o que quero comunicar. Para avançar, volto. Releio, reescrevo. Enquanto escrevo, refaço-me pelo texto.
É processo que não para e me ultrapassa. Começa em mim, mas em mim não se esgota. Posso imaginar algo além, o texto pronto. Posso transcender o que tenho em mãos ao criar o que nem sei o que está vindo à tona pelas palavras que uso para expressar o que quero dizer. Até que venha o ponto final.
Em outras palavras, faço-me o buraco que preciso para cair na rede das possibilidades do engenho. A crônica que alcanço com a imaginação vem da fatalidade, do azar de ter cruzado com a pegadinha do destino.
Quando a gente tenta dizer o que sente dá nisso, em motivo de riso. Diante dos causos com que a vida nos conta, a pessoa ri do que quer porque tombo algum é maior do que a perna.
E na danada da máquina do mundo, ninguém dá ponto sem nó.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de setembro de 2019.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

No ponto


No ponto

Caramba, não consegui mandar um material por e-mail. Era para ontem, e não tive tempo. Minha nossa, como a vida está corrida. Nem dá para dar conta do que é preciso fazer com o tempo que a gente tem. Sessenta segundos parecem menos, em torno de vinte ou quinze, de tão veloz que anda a marcha do mundo.
A realidade vigora independentemente dessa cronometragem. Ela segue as leis físicas de seus atributos. Passo a passo, instante a instante. Me parece que está na hora de pegar um atalho, para ganhar tempo. Isso ia quebrar um galhão. Não me conformo com o mundo preso à velocidade do momento.
E o apartamento está mesmo precisando de uma limpeza daquelas. De arrastar móveis, bater as cortinas, passar escova nos rejuntes do banheiro. Uma faxina caprichada. Mas, quede tempo?
Preciso encontrar um tempinho para mim.
Sei como, e dou um jeito nisso. Entro no primeiro ônibus que passa. Vou sentar num dos bancos que ficam acima dos pneus. Por serem mais altos, posso passar a impressão de que estou só de olho na vida fora do veículo.
Curioso, a barulheira toda me faz pisar no freio. Ou melhor, para não me atropelar, tiro o pé do acelerador. Aos poucos, tudo vai se ajeitando e atinjo uma velocidade que me permite a observação de quem é mais um na balbúrdia.
Nada mais urbano.
E vejo as pessoas atarefadas, de zap em zap. O rapaz que engole a batatinha quase consegue mastigá-la duas vezes. A mulher que reclama da cobrança do cartão nunca ouviu falar em Altamira, o que dirá ter R$ 1.068,00 para torrar na janta.
Como o motorista do ônibus, porém, é obrigado a respeitar os semáforos, ele não vai na maciota. Aos trancos e barrancos, vai parando de ponto em ponto feito um alucinado. Como se o mundo fosse acabar num instante.
Interessado nas pessoas, queria exercitar a minha escuta em paz. Vim para esfriar a cabeça, alimentá-la com histórias. Só que o motorista está por demais acelerado. Nem bem sentei e já estou uma pilha, louco para descer.
Contrariado, caio fora da barca. Meu barco é outro.
Não faço caso, volto para casa. A pé. Vou devagar, sem a febre dos condenados que comem os segundos achando que a vida tem prazo de validade. A curtição do momento é viver como se cada segundo fosse um instante a mais e não um a menos. Aprecio o caminho, tantas novidades e redescobertas.
O corre-corre do mundo deixa a gente meio perdida; aliás, bem confusa. Mantendo a calma, com o foco no que faço, não troco os pés pelas mãos nem compro gato por lebre.
Resistindo aos desembestados, aumento a pressão.
Pra já, meto a colher, examino o grude, reconheço o paio e a linguiça. É chegado o tempo de não levar tudo em banho-maria.
Pra encurtar o papo.
Já que agora sou todo pressa em não deixar pra lá que nem casca grossa esconde com quanta bosta se faz um banana, ratifico este osso duro de roer: são perversos os homens que tornam sombrios os dias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de agosto de 2019.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Duplo sentido


Duplo sentido

Os sinos vêm da sala. Do relógio, a perseguir o silêncio. Come os segundos, os distraídos. Queria ficar sentado no sofá. Tentando achar erro nas notícias que foram preparadas. Cena a cena, com o ensaio do improviso. Falam sem parar.
Tá na cara que é truque, segredou. Ao piano.
Sim, ali tinha um piano. De calda, tinha de ser ou seria um cenário de filmeco, um faroeste vagabundo com uns mexicanos fazendo as vezes do índio.
Oia, os caídos de relógio. Tudo muito falso. Tenha dó!
Nem tinha reparado na fumaça dos canos, sem som de tiro nem sangue na roupa. E as badaladas quebraram o encanto. Seis horas, disseram os sinos do relógio da sala. Embora todos tivessem pulsos.
Que coisa mais brega este Big Ben. Matraca de papagaio.
Os sons gravados na memória. O treco tinha bateria. Tinha cérebro, uma placa. Era um simulacro, não era analógico, que a imagem digital pantomimava o relógio das antigas. Com números romanos, tinha que, em vez de um pauzinho e um vê maiúsculos, o algarismo quatro era quatro pauzinhos.
Por que a senhora mantém o troço na sala, não basta o monstro que ninguém dedilha? E o asno vive acelerado. Haja!
Prevendo a catástrofe, fui para o canto. Fiz a cortina para o rosto. Fiz com as mãos. Só não quis contar até dez. Foi o peixe que comeu a minha língua. A noite prefere cantar a escuridão. Nem lembro em que tom aquela voz quebrou o sigilo. Tem gente que faz a confusão do propósito. Diz no jeito torto ao falar com a gente. Quer saber qual animal tem o saber de voar de noite.
Tem faro de leão, olhar de lince e presas de tubarão.
Foi batata.
Acorda! É águia na cabeça, seu burraldo.
Aconteceu como já era esperado. Isso é assim desde que a buzina veio com tudo. Veio e criou raízes.
Que bicho mais sem noção. Badalar as seis horas quando já se espera a repetição do esperado. Deveria ser proibido um Big Ben de mentira. Uma imitação feita por aí, no Mandaqui ou na Manchúria. Uma batatada tudo isso.
Por isso, na dose certa de paciência da vontade, encolhi no lugar. Ele foi, tirou da parede pro tapete. Foi, escorou o piano no canto das paredes. Levantou o trono com o macaco grande de levantar carro, um jacaré de pesado. Fez.
É macaquice. E só para saudar a rainha. Ter o cronômetro programado. O sotaque pega na gente. Ô raiva.
A vitória foi tremenda. Adeus, hora marcada. Adeus, música agendada. Foi quando a mulher entrou, viu. Ela não disse uma palavra. Sentada no chão, resignada de lenta, juntando os cacos. O que ainda prestava do amigão foi pro lixo. O arrepio do ridículo foi ela cantarolar a música que tinha o Denzel, a do tempo ao seu lado.
Você podia disfarçar, sussurrou o refazedor.
Fiquei passado, parado.
Sem frescurite, a mulher de branco trouxe o quê?
Era estreito em cima e em baixo; o lado de lá e o de cá mais largos; a pele de prata corria brilhante.
No livro rubro do caos, quem vê o aquário vê o gato?
Ai!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de agosto de 2019.

domingo, 25 de agosto de 2019

Mundo velho


Mundo velho

O mundo e os seus acontecimentos. A vida não para. E os cronistas observam, buscam relações, estabelecem conexões que gostariam de tornar visíveis. Nem sempre contam com a solidariedade dos leitores, já pela abordagem, já pelo assunto. Bem ou mal, a partir de alguns eventos, os cronistas registram o que pensam e há as interações pela leitura. E assim é desde que a escrita passou a nos fotografar, pela observação textual de quem se dispõe a dizer em que pé anda a realidade. Claro, com binóculo ou lupa, isso fica pela curiosidade elementar do comentarista.
O comentarista, diga-se, ou é mulher ou é homem. O leitor, saliente-se, é feminino ou masculino. Quem escreve e quem lê, ressalte-se, cada qual traz a sua etnia, a sua quantidade de melanina na pele, a sua religião ou a sua falta de fé. Com ou sem dinheiro; de riso expansivo ou de seriedade introspectiva; lendo o texto no papel ou nas nuvens. Afora que todas e todos vamos pelo mundão adentro.
O autor (ou autora) e a leitora (ou leitor) da crônica vivem no tempo em que lhes cabe viver. Porém, isso não os coloca no mesmo espaço de tempo. Uma crônica do Rubem Braga pode ter sido lida ou ter sido ignorada por uma pessoa que estava viva com o cronista vivíssimo. Assim como, agorinha mesmo, esta crônica está sendo lida por alguém que acabou de pegá-la para ler no dia 25 de agosto de 2169 ─ posso e especulo.
Em outras palavras, quanto mais eu leio, mais expando as fronteiras do desconhecido. Por exemplo, as crônicas de Ivan Lessa, postas em livro ou vindas de um computador, muito me servem para o permanente aprendizado. Quer me parecer que, hoje, a mente quer refresco ou uma baladinha de louco, só que não paro de pensar. Até quando paro para pensar.
Como funciona a cabeça, não sei. Como é que a crônica faz andar a roda dos neurônios, isso é o que me trouxe até aqui. E passando por este ponto, assim como vim e assim como vou seguir, é por minha conta. Se for o caso, aposto.
Afinal, faço parte do jogo. E jogador, enquanto escrevo, vou fazendo as minhas ilações. Arrisco-me a perguntar se escolho o tema ou se procuro o assunto. Nem um, nem outro. Às vezes, nem sempre. Quando me encontram, já estou sentado e com o lápis afinado ─ mesmo indo à farmácia para apaziguar as chamas gástricas.
Corro o risco porque não me boicoto, dando uma de lesado ou de arlequim de ressaquinha. Entendo que um boicote é ato político, e tolero qualquer posicionamento ideológico. Contudo, o que não aceito é a passividade quando o urgente é a ação.
Aliás, fica fácil mostrar-se hábil com os holofotes. Mas a prevenção vem de outras luzes.
Como o cronista pouco entende de química, meto o bedelho na fornalha alheia. Para que o domingo semeie a paz, chego à florada sem turbulências e precipitações de acidez agravadas, negando água à sede da criança:
─ Biarritz, mamã, tá no Velho Mundo?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de agosto de 2019.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Cordel do abismo


Cordel do abismo

Eu estava rindo de uma foto publicada na capa de todos os jornais expostos à leitura pública na banca de jornal. A imagem mostrava que punham ao chão uma estátua de Stálin, aquele bigodudo dado a malvadezas sanguinárias, tramoias ditatoriais, mais um que infernizou a vida do povo, e neste caso, o russo.
Não se ri de coisa séria, rapaz.
Abismado com a censura mas sem faniquito, tento não rir. Mas, do jeito que encaro a vida, seja a minha, seja a alheia, fui pego rindo sem o pudor do comedimento, porque, pelo visto, não é certo rir de coisa séria. Nem ontem nem hoje. Olha que nem era um rapaz à época, se aproximava do meio século então, lá naquele tempo, em 2013.
Coisa séria exige da gente a sisudez dos compenetrados e o semblante carregado, próprio de quem compreende a dor e o sentido do seu ensino. Pois diante dos eventos graves da era, e de todas as eras, não devo rir como se me fossem permitidos o deboche, o sarcasmo, a ironia ou o que raio venha a ter ao ouvir quem censura o riso como fora de hora.
E a hora é triste, vigora o Teatro da Morte. Não se trata de fingimento nem de espetáculo gratuito a um público abestado.
Ô meu jovem, tome pé da situação. Não tem cabimento ficar tirando sarro quando tem mais é que doar a sua solidariedade, pôr-se em fraternidade com os demais. Sendo a pessoa que o senhor é... Pegou o fio da meada ou será preciso desenrolar?
O teatro da vida tem etiquetas, e a elas espera-se respeito.
Como ando preguiçoso, dou corda no despertador do drama cósmico, que a banca virou palco com tantas desgraceiras de varal. Ali, na faixa, à mostra naqueles jornais que não fecharam por terem leitores. Estes, uns gatos-pingados que pagam para ler. Arrisco dizer que eles tenham concluído, e concluo, que a agenda global está carregada. E que peso.
Fiquei sabendo da tal chuva preta. A danada veio sujando os carros parados nas ruas, me contaram ao telefone. A massa líquida trouxe o tenebroso do fim do mundo para as câmeras paulistanas, vi na TV. Serão os céus apocalípticos?
À beira do abismo, e sem mimimi: os rios aéreos existem, formam-se na Amazônia e acabaram de vir desabar no colo de quem nega a emergência climática.
Como desconfio que esta chuvarada seja ácida, nitidamente com as tintas do apocalipse, só irei checar as notícias quando as trevas não estiverem queimando os ares, de alto a baixo. E isso se a banca resistir o bastante para continuar de pé.
Admito o fracasso de não saber onde menos dói em mim a realidade do mundo. Reconheço, porém, que nele estou feito beija-flor, transitando por aí a sugar o que alimenta a razão. Às vezes, sem piripaque nem fuzuê, a coisa pega no breu. Mas não forço a barra do falso desentendimento. Cumpro-me o inútil de fazer de conta que não estou nem aí. Mesmo porque a face que ri do que vê é a face que ri quando me vejo rindo.
Ai de nós! O abismo pisca de volta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de agosto de 2019.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Teatro da vida


Teatro da vida

Um dia depois de outro, não há nenhuma novidade nisso. E vou em frente com minhas picuinhas e meus desejos; vou indo, sem querer dinamitar o que boia entre estes e aquelas.
Às vezes, anseio explodir muita coisa; por isso, gosto de ler. As vertigens do carbonário passam às entrelinhas, dão na praia das ideias românticas; assim náufragas, o mundo sobrevive. Já o ridículo não tem escapatória, merece vaia ou acordar. Enfim.
Gosto imensamente que leiam para mim, do jeito que for. Se as linhas embaralham, se a ênfase come o fôlego, e daí?
Na sala onde me encontro, uma pessoa está lendo um texto. Cuidando sobremodo da leitura, ela mantém a elegância quando a página trava ou fecha por conta própria. Enquanto o homem lambe sabão, tem batata podre no porão. Já dizia a minha avó que nem pegou a internet.
Cativante, a leitora garante em mim o prazer da audição.
E isso me remete ao pé do rádio, que fui alimentado pelas ondas da Jovem Pan, de São Paulo. Com o rádio comigo pela casa dos meus pais, lá em Ibiúna, e os tímpanos ligados aos neurônios, cresci tomando siso do mundo via Jornal da Manhã. A fidelidade à emissora me fazia escutar o que fosse possível, e tinha um programa, do qual lembro o bordão, é noite, tudo se sabe, cujo nome da apresentadora agora me deixa encucado.
Como você já percebeu, leitora perspicaz ou leitor arguto, se me empolgo com algo, a narrativa vai ganhando interpolações, ou seja, viajo. Deixo-me afetar pelo que leio, ouço ou vejo.
O texto sendo lido de maneira tão cristalina me faz ir ao país das ideias. Entro pela minha mente. Vou derrubando paredes, retirando portas, tirando cortinas, e tudo isso para mais e mais me perder em mim. Escutando atentamente, acabo estimulado a navegar. Singro a simultaneidade de ir ouvindo e pensando.
A leitura chega ao fim. Ouvi-a em silêncio, com respeito. E o que pensei ficará para outra vez. Afinal, não importa se porei em palavras que a escrita é colete salva-vidas. Nem sempre o que o ouvido fisga a consciência abocanha. Nas engenharias da vida, faz água a boca que degusta o chuchu condimentado como marmelada.
Mesmo com a mente à deriva, dou aspas ao que pude ouvir. Bem ali, onde jaz o jornalista que não fui, bate o coração que entra em sintonia com os meus parênteses mentais porque concorda que “precisamos pensar se queremos um mundo de fatos para se contrapor ao mundo baseado nas emoções”.
E mais ainda, como opina Alan Rusbridger, o autor das palavras aspeadas, um mundo que se fundamenta apenas nas emoções, sem que, lógica e coerentemente, a razão dê a devida sustentação a argumentos a favor ou contra o que quer que seja, este é um mundo perigoso.
E como vivo a cultivar os sabiás do sonho, a vida é muito, muito perigosa. Pois... Para quem tomba em bosta de pomba, até cana pesteia o banana. Ô saudade, vó.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de agosto de 2019.




domingo, 18 de agosto de 2019

Império do sentido


Império do sentido

A semana promete. Mas lamento a perda de tempo com fatos exteriores à minha vontade. Falo da dor que veio até mim e estacionou o seu carro no meu pescoço. Sem licença para transitar por meu corpo. Sem habilitação para pilotar sua catraia nos desvios da coluna. Por fim, com a experiência da minha pessoa dando suporte ao papagaio que está cantando a alvorada do seu domingo.
Dizer dor não é curá-la ou anestesiá-la, é torná-la palpável, localizável, identificá-la na palavra que a define. Dor dá o valor do significado, delimita o raio da ação, e materializa o que o corpo sente.
Dor não é o começo da solução do físico problemático, da carne que se faz inconformada com o esqueleto estrábico. Dor não é a causa do sofrimento, não é o dolorido a ser resolvido com alguma medicação, que não há tarja que retrate o alcance do que os nervos nem suportam ouvir o nome.
Dor dá nome à substância do que é feita a sensação. A dor está contida na palavra dor, não é o dolorido nem o sofrimento. Embora o dolorido esteja na experiência, torne mais perceptível o sofrimento a que está submetida a pessoa com dor.
Dor não é atalho, não é desvio, é foco, é incisão no real, é ilha nas realidades de toda sorte. Dei azar, ela quis brincar em mim, e veio com tudo.
Pois em mim, nesta semana que começa por este domingo, e não por outro qualquer, a dor em carne viva não me engana em suas pretensões. De vir e jogar âncora nas minhas costas. De chegar de mala e cuia para explorar o fundo da enseada. De tomar posse das águas, que todo oceano tem de reserva as maravilhas de pré-sal.
Dor é o fim da confusão, é a metáfora que lateja, é o ponto que pode ser rastreado por ressonâncias. Se pode padecer das influências do satélite natural da Terra, sabe de si por mim a reclamar da sua intensidade.
O mais é esqueleto, ossos, enervações, musculatura, carne torta no retilíneo, lombada não catalogada na reta, é curva que não escapa ao radar dos desregramentos.
Mesmo com a vogal marcada, brasileira na vocalização, na entoação que acentua o detalhe; mesmo sendo dita com a cor da praia onde moro; mesmo com a areia que a brisa traz, dor a gente sente. Ou não faz sentido pronunciá-la sem encarnar no que se diz a dor que constrange a dizê-la em alto e bom som.
O que sinto é que me leva a dizer do meu modo ─ dor.
Então, para devolver ao mar o que me veio com a prosa, dor é o sentido que o corpo experimenta, vivencia, dá realidade à existência, não há dor em essência, como abstração. Porém, dor torna lógico o que me individualiza, põe a minha condição no que expresso, torna pessoal o que o corpo está passando.
Dor não vulgariza, não banaliza, não torna público o que é íntimo, privativo, incomunicável. Ao dizer dor, a dor é minha, é intransferível.
Como a dor não mente, resisto o quanto posso, nem acuso o sal do patético, pois não ponho no papel a lágrima. Eu digito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de agosto de 2019.