Chega
de poesia
Tenho
uma visão parcial do que anda lendo o homem sentado numa cadeira pra lá da
minha, mas posso fazer ideia do ronronado que traz no peito, de quem tem por
brasão uns brônquios fumês. E posso porque, sem que precise sequer daquela
olhadela marota pro celular, diz ele que a
esperança acolhe-se à sombra das colunas do tempo.
Emburro
por tê-lo ouvido falar naquele tom de voz de quem sabe a saudade que sente, e
por tê-la, essa saudade que vem de mansinho, noite cujas estrelas não espumam
nem rugem, feito lobo embrenhado no mato a cento e onze metros do Caraça, sentindo
pulsante o coração de pedra.
Sim, o
homem sentado numa cadeira pra cá da minha faz que sim com a cabeça, sem
relinchar suas concordâncias, sem nem mesmo escoicear suas discordâncias,
embora pigarreie na hora do sopro rompante numa de suas válvulas, a sem freio.
Penso,
e só fico no pensamento, que dentro do
tempo há mais tempo. E isso me põe horrorizado, levo-me a pensar que os meus olhos são duas garrafas de vento.
Daí, sinto também que a saudade pode ficar risonha quando bordada com o mais
singelo, tipo BEIJE O COZINHEIRO, LIMPE OS PÉS ou AQUI MORA A ALEGRIA.
Todavia,
garanto a troca do neon do quarto pelo led da sala.
E fique
bem claro a quem ordenha as trevas às vacas do curral que bruma alguma se
dissipa com o horror da lama, ó absurdo do veio marcado, pois os metais nascem da paciência surda da terra.
Desentranha-se
ali, naquele recinto de cidadãos indecisos quanto ao destino da verba gasta com
inaugurações, uma vez que a grana está curta, bloqueada na fonte, retida entre
a boca que masca argila e o estômago de úlcera tão decente, é ali que vem ao
mundo a lágrima que se perde do anonimato.
Mas o
dever me chama.
O dever
lembra o relapso que hoje é quarta, dia de pastel de carne seca na feira do
bairro. Mas a hora é avançada, já estão recolhidos os feirantes. E onde vive o
dever, há direito. O direito de navegar com bússola enquanto a tormenta segue
inoculando a sua peçonha em 163 km do Rio Tietê.
E o
dever de ter direito a ficar longe da fumaça dentro do bar?
O bar
que está às moscas, comigo sentado entre o homem atarefado com a nostalgia, pra
cá, e o homem acossado por umas besteiras, pra lá. Sendo uma pocilga das mais
modernas, não aceita cheque nem cartão; o babado, só em espécie.
Mudo o
disco.
E onde
crescem as petúnias, grassa a samambaia pra lá de metro. Calculo que o vento
sussurre que a vida está prenha de rochedos. Ignoro a mensagem. Arrisco que o
vento aposte que a vida será no fim desta
jornada... nada.
Então, a
dona atrás do balcão quer que o mundo volte pro chão, a pedra tope ser pedra, a
terra não rode a baiana à toa e se diga, em verdade e com todas as letras, o
que precisa ser dito, mesmo que não
desperte em ninguém nenhum prazer.
Compreendo,
no azedume da saliva mais ácida, como em
turvas águas de enchente, nem toda conversa é fiada.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de setembro de
2019.