A
criança de Omelas
Com as Festas de fim de ano já
baforando seu cálido hálito, antecipei as compras dos itens indispensáveis à
vida humana. Sem refrigerante, sem panetone. Nem pude comprar nozes e castanhas
por conta de uma dieta compulsória, rica em frutas, legumes e quitutes
integrais. À flor da pele, inapelavelmente, aprendi que o corpo em ordem gesta pedras
vesiculares.
A propósito, interpelado por uma
estranha no mercado, dou ao desconforto o sorriso protocolar de quem errou o
ansiolítico. A mulher, tão perspicaz, pede-me o preço de castanhas, nozes e panetone.
Sem lhe dar resposta alguma, cada produto de sua cesta merece comentário.
Se o preço da convivência é o sorriso
paciente, a paisagem lunar de minha expressão não foi lida, azar o meu. As minhas
reflexões naufragaram na saliva engolida a seco.
Frustrado, já que aquilo não iria
parar, passei a ouvi-la. E a comentarista econômica estava convicta do seu
papel. Daí que reprovava o abuso, escarnecia da inflação e inventava a minha concordância,
silenciosamente pudica.
Não sou um curioso inveterado, doido por
histórias alheias. Levo a vida a escrever, por isso não fico escutando o que falam
e, perplexo, leio o que os praticantes da escrita saem por aí a dizer que fazem
da audição o sonar do caráter humano.
Sem que me azedem o almoço, que vou ao
supermercado depois de anestesiar a fome dos olhos, prefiro meus fantasmas sem
entusiasmo, mímicos sem pantomima, e calados.
Talvez por conta da acidez inesperada
do humor, peguei-me a anotar de cabeça as vírgulas ululantes da distinta
oradora.
Leitora sobressaltada e leitor horrorizado,
em alguns lugares ainda há fila de pessoas. Acreditem em mim, nem só de emojis brotam
as filas.
Em tal estado de espírito, e com a
memória desafiada a não deixar romper o fio, lutei para não cometer um poliedro
verbal como arremedo de crônica.
No fundo, eu deveria admitir que o
texto está sendo escrito com o sentido e a coesão que a vida finge ter, para,
assim, ir trazendo-me pela mão até o porto seguro do esquecimento.
Ou seja, hei de vencer-me, esquecendo nas
grutas abissais da mente o que de fato preciso lembrar para que o texto surja.
Meu corpo pensa, e vivo a senti-lo
pensando. Com engenho débil, construí este diamante cuja opacidade aprisiona a
luz.
À falta da convicção dos imbecis, perdoem-me.
Sem mais, Feliz Natal.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de dezembro de
2018.







