Sem
dúvida!
─
A morte é que nem parente distante, vai dali um descuido da gente e lá entra
ela porta adentro, e logo com o nosso nome na ponta da foice. Daí não cabe
recurso nem propina.
─
Não tenho palavras, dona Rúbia.
(Dona
Rúbia! E isso é nome que se fale em público sem mais nem menos? Poderia ser
Rosaura ou Rosana, só para não sair da casa do erre. Mas Rúbia? Tem certas gabolices...)
─
Não vim aqui para ficar à toa, seu Aurélio.
(Seu
Aurélio! Como é que alguém põe nome de dicionário em uma criaturinha? Se, por
ventura, o indivíduo já nascesse um convicto e juramentado lustrador de bigorna,
ninguém haveria de contestar. Mas... Aurélio não chore, meu anjinho... Aurélio,
não pise o encerado da sala com estes tênis sujos de barro, seu infeliz... Aurélio!
Quando você vai crescer, seu imprestável. Nem vou me alongar mais, porque algumas
coisas não cabem em quem carrega um nome desses pela vida afora. Gente...)
─
Seu Aurélio, o senhor me empresta quinhentos reais para eu pagar no começo do
mês?
─
Dona Rúbia, a senhora há de convir comigo que... Do jeito que está o Brasil...
Olhe bem, dona Rúbia... Com o perdão da verdade... Como a senhora é pessoa
honesta, cumpridora dos seus deveres, sabedora das leis, respeitadora dos
costumes... Vou confessar à senhora... Sei por mim que não deve estar sendo muito
fácil... Nada, nada... Então! Eu lhe empresto o dinheiro, mas tenho uma
condição...
(O
espanto é só meu, ou o quê?)
─
Que a senhora só me apareça aqui para pagar o empréstimo sem um centavo a mais
ou nada feito! Porque o dinheiro é meu e sei muito bem o quanto me custou juntá-lo.
A senhora põe fé na sua palavra?
(Nem
foi preciso furar a ponta do dedo para selar com sangue o contrato. Bastou
saliva, que o pacto era mesmo de boca.)
─
Meu bom homem, o senhor não vai se arrepender. Afinal, quem empresta ao
pobre...
─
Empresta a Deus. Eu sei, dona Rúbia, eu sei.
Rodrigues
da Silveira
Praia
Grande, dia 14 de outubro de 2018.

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